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Domingo, 08 de NOVEMBRO de 2009

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03/07/2009 - 18h51

Desde que virou presidente, Lula mostra deferência a Sarney

Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Poucas décadas depois de tê-lo chamado de "ladrão", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva hoje tem o senador José Sarney (PMDB-AP) como um "amigo leal", nas suas palavras. Sarney, hoje alvo de uma série de denúncias de irregularidades, consegue o que deseja do petista desde a campanha que o elegeu para o Palácio do Planalto em 2002. Visitas, indicações e demonstrações de apoio político não faltaram ao presidente do Senado, agora pressionado por denúncias de favorecimento a parentes e assessores e que corre risco de ser forçado a deixar o cargo.

Nesta sexta-feira, Lula e Sarney escreveram mais um capítulo dessa relação estreita em uma conversa privada em Brasília, com o objetivo de conter a crise política no Senado e impedir o PT de aderir ao movimento de partidos oposicionistas para rifar o ex-presidente da República do posto que ocupa pela terceira vez - a segunda ao longo do atual governo.

Nos últimos anos, Lula transformou Sarney em um dos seus principais conselheiros políticos. Indicou dois aliados do ex-presidente da República para o Ministério das Minas e Energia (Silas Rondeau, derrubado por denúncias de corrupção, e o atual, Edison Lobão), além de outros para autarquias e postos de segundo e terceiro escalões. A filha dele, Roseana, hoje governadora do Maranhão, tornou-se líder do governo no Congresso e candidata apoiada pelo petista nas eleições estaduais de 2006 apesar de ser membra do arquirrival DEM.

Para manter sua deferência a Sarney, o presidente está barrando o próprio partido. Quando o PT lançou o acreano Tião Viana à presidência do Senado, no início deste ano, Lula apoiou o ex-rival na disputa. Quando o PT insistiu em manter um dos seus quadros no Ministério das Minas e Energia após a saída de Dilma Rousseff para a Casa Civil, alçou aliados do político maranhense. Agora, depois de a bancada petista no Senado pedir a saída de Sarney da presidência, definiu que a permanência dele no cargo é essencial para a governabilidade.

Lula declara apoio a Roseana em 2006

"Sarney sobrevive no cenário político como intermediário dos interesses do Maranhão junto aos governos federais que passaram", afirmou Wagner Cabral, professor de história da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), em entrevista ao UOL Notícias . "Ele hoje é bem atendido em nome do pragmatismo e da governabilidade. No governo Fernando Henrique Cardoso ele não tinha tanta influência. De Fernando Collor (1990-1992), ele era muito distante. Proporcionalmente ele tem mais poder hoje do que no fim da ditadura."

Arquitetura da aproximação

O estreitamento da relação entre Lula e Sarney se deu antes da campanha presidencial de 2002, depois de Roseana ser abatida em pleno voo nas pesquisas eleitorais quando se mostrava uma candidata competitiva contra o petista, favorito nas pesquisas de intenção de voto.

A seus interlocutores, o presidente do Senado atribuiu ao desafeto José Serra (PSDB) a operação da Polícia Federal que aprendeu dinheiro não declarado em um escritório de Jorge Murad, marido de Roseana. Então no PFL (atual DEM), ela foi obrigada disputar apenas uma vaga no Senado e sinalizou apoio a Lula no segundo turno contra o tucano.

Sarney, visto por muitos como um presidente conciliador que herdou o cargo após a morte de Tancredo Neves, fez o mesmo gesto depois de passar o primeiro turno sem declarar preferência. Mas ao longo daquele ano já mantinha conversas com assessores de Lula, que pouco se engajou na eleição para o governo do Maranhão, da qual saiu reeleito o aliado do clã, José Reinaldo Tavares (então no PFL), ainda no primeiro turno.

Quando Lula chegou a Brasília, já tinha Sarney como um de seus mais proeminentes interlocutores e defensores - o ex-presidente escreveu vários artigos para ressaltar a importância da primeira vitória de um partido de esquerda nas eleições presidenciais. "Era o que faltava para o amadurecimento da nossa democracia", disse ele na época.

Roseana pede votos a candidato a prefeito evocando ser líder do presidente Lula

Um dos principais conselhos do colega mais experiente a Lula foi o de fechar uma aliança com o PMDB para sustentar a governabilidade, na linha do que defendia o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Com o fracasso dessa tentativa e a eclosão do escândalo do mensalão, em 2005, Sarney se tornou um dos principais advogados do presidente no Congresso. Disse que se houvesse um processo de impeachment, o Brasil sofreria uma fratura grave - o que ajudou a conter os ânimos da oposição.

Em seu primeiro pronunciamento do palanque do Senado após as denúncias de compra de votos de parlamentares, Sarney preferiu nem sequer entrar em detalhes sobre as turbulências e fez um discurso acompanhado com assombro por muitos dos seus colegas: apesar da bomba, preferiu dissertar sobre a trajetória de Adauto Lúcio Cardoso, ex-presidente da Câmara dos Deputados e ex-ministro do Supremo Tribunal Federal.

Um pé em cada canoa

Apesar de ter se aproximado de Lula após 2002, Sarney manteve sua política de delegar um membro do seu clã político para se aproximar dos diferentes centros de poder. Roseana seguiu no PFL, partido que o pai ajudou a fundar no fim do regime militar (1964-1985) e que garantia diálogo com a oposição mais ferrenha. O deputado federal Zequinha Sarney (PV-MA) se mantinha próximo ao PSDB. E outros aliados orbitavam em outras siglas, como Epitácio Cafeteira (PTB).

"Essa política o ajudou ao longo da carreira a conseguir o que deseja. Se hoje não fazem discursos ainda mais agressivos para sacá-lo, é porque ele tem interlocução com todos eles", comentou o deputado Domingos Dutra (PT-MA), adversário de Sarney.

Fernando Collor pergunta a Lula sobre apoio de Sarney em 1989 em debate na TV

Na reta final das eleições de 1989, Sarney declarou apoio a Lula, principalmente por conta dos fortes ataques que recebeu de Collor. Mas na reaproximação em 2002, teve de esquecer que o petista já o havia chamado de ladrão, incapaz e omisso naquela época. Interlocutores do senador dizem que o esquecimento também se deve à postura intelectual que ele gosta de cultivar - é membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e estudioso da história da República.

Interlocutores do senador dizem que ele gosta de lembrar a Lula sobre sua lealdade. Em 2006, o presidente retribuiu publicamente em sua campanha reeleitoral. Em um palanque de Timon, município maranhense na divisa com Teresina (PI), o petista exaltou a "fidelidade e a amizade" do clã. Discursou ao lado de Roseana e Sarney, pediu votos contra Jackson Lago (PDT), prometendo mais parcerias entre os governos estadual e federal - o governador José Reinaldo Tavares tinha rompido com o grupo sarneísta anos antes.

Na época no PFL, Roseana afirmou: "Apesar de todas as pressões do meu partido, continuarei a votar no presidente Lula porque sou uma mulher decidida. Lula é o melhor para o Nordeste, para o Maranhão e para o Brasil". Perdeu a eleição, mas ganhou o cargo de líder do governo no Congresso mais tarde. Acabou saindo do Senado para assumir o governo do seu Estado depois de Lago ser cassado. Um pouco mais tarde do que o previsto, mais um pedido de Sarney a Lula acabou pagando seus dividendos.



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