
Parentes de três jovens que foram assassinados durante confronto entre criminosos de facções rivais e policiais militares em outubro na rua Torres Homem, um dos acessos ao morro dos Macacos, em Vila Isabel, zona norte do Rio, afirmaram nesta terça-feira que vão mover uma ação neste mês contra o Estado. Em encontro com a presidente da Comissão dos Direitos Humanos da OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro), Margarida Pressburger, os familiares das vítimas decidiram processar o governo por "ausência de proteção".
"Nós vamos mover uma ação contra o Estado por danos morais e materiais, além da ausência de proteção do indivíduo. Houve omissão do Estado, que tem a função de dar segurança ao cidadão", afirmou Pressburger à Folha Online. Os três rapazes foram mortos no último dia 17, quando traficantes rivais invadiram o morro dos Macacos, iniciando uma série de confrontos.
Ainda de acordo com a presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, declarações levianas de representantes do Estado não podem ficar impunes. Para os parentes das vítimas, comentários equivocados do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e do secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, "acentuam o descaso pelas vítimas da guerra do tráfico no Rio".
"O governador e o secretário de Segurança Pública alegaram nas emissoras de TV que os três eram bandidos, mas todos eram trabalhadores de carteira assinada. Nenhum deles tinha folha penal e são taxados de bandidos porque morreram? Se você leva um tiro, passa a ser considerado bandido?", disse a advogada.
Um dia após o crime, a PM admitiu que inocentes poderiam estar entre as vítimas, e que alguns dos mortos foram classificados equivocadamente como criminosos.
Crime
Uma das vítimas, Marcelo da Costa Ferreira, 26, foi levado por três primos a uma festa a fantasia na noite do dia 16 de outubro para tentar sair de uma crise de depressão que quase o levou à internação na semana anterior. Por volta das 2h do dia 17, os quatro foram fuzilados na rua Torres Homem, um dos acessos ao morro dos Macacos (zona norte da cidade).
Do grupo, só Francisco Alaílton da Silva, 22, um dos primos, sobreviveu. Marcelo, Leonardo Paulino, 27 e Francisco Ailton da Silva, 25 --irmão de Alaílton--, morreram. Os quatro voltavam para casa no mesmo momento em que criminosos do morro São João, no Engenho Novo (zona norte), preparavam-se para invadir o morro dos Macacos. Na data, a guerra de traficantes culminou com oito ônibus queimados, um helicóptero da Polícia Militar abatido e mais de 15 mortos, entre três policiais militares que estavam em um helicóptero abatido e os três rapazes.
Testemunhas
Margarida Pressburger afirmou que vai se reunir com testemunhas do crime que ajudarão a solucionar o caso. Segundo a advogada, o depoimento de Alaílton é fundamental, mas há outras testemunhas importantes, que não serão identificadas por questões de segurança.
"Teremos testemunhas, pessoas que estavam no local e viram o crime. Assim que nós tivermos o processo fundamentado iremos entrar com a ação na Justiça", afirmou a advogada.