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06/11/2009 - 17h51

Número de mortes em confronto com a polícia supera homicídios em três regiões do Rio

Vitor Abdala
Da Agência Brasil
No Rio de Janeiro

Três áreas do Rio de Janeiro tiveram, neste ano, mais mortes causadas por policiais do que por criminosos. As regiões de São Cristóvão/Mangueira, Grande Tijuca e Copacabana/Leme registraram mais autos de resistência (mortes em supostos confrontos com a polícia) do que homicídios dolosos (quando há intenção de matar), entre janeiro e setembro de 2009, segundo dados do Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP).

Nos bairros de São Cristóvão, Mangueira e Caju, região que engloba o 4º Batalhão de Polícia Militar (BPM) e a 17ª Delegacia de Polícia Civil, foram registrados dez homicídios dolosos contra 11 autos de resistência.

Na Grande Tijuca, área atendida pelo 6º Batalhão da Polícia Militar e pelas 18ª, 19ª e 20ª delegacias, foram 35 mortes provocadas pela polícia, contra 32 assassinatos.

A região em que o fenômeno é mais evidente é a área de Copacabana e Leme, do 19ª BPM e das 12ª e 13ª delegacias. Uma das zonas que mais concentram turistas no Rio, Copacabana e o bairro vizinho já haviam apresentado situação semelhante em 2008.

No ano passado, nada menos do que 17 mortes haviam sido causadas pela polícia, contra apenas três assassinatos. Nos primeiros nove meses deste ano, o fenômeno se repetiu, com 11 autos de resistência, dois a mais que os nove homicídios dolosos.



Para o cientista social e ex-coronel da PM Jorge da Silva, o número elevado de autos de resistência é resultado de uma política de confronto. "É um filme que todos já vimos. Morrem bandidos, policiais, supostos bandidos, crianças e senhoras. E ainda há quem ache que o caminho é esse."

Especial sobre os confrontos no Rio

  • Antonio Scorza/AFP

    Policiais confrontam traficantes durante operação na favela Vila Cruzeiro, no bairro da Penha, no Rio de Janeiro; mais de 40 pessoas morreram nos últimos confrontos em favelas da zona norte, que tiveram início no dia 17 de outubro


Silva responsabiliza o governo do Estado pelas mortes. "A política do atual governo acentua uma tendência repressiva, característica de nossa sociedade. Parte de uma premissa falsa, a de que o confronto armado é meio eficaz para oferecer segurança e tranquilidade à população. Não difere muito das [gestões] anteriores", afirma Silva.

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ex-secretário estadual de Direitos Humanos (2003-2006), ex-presidente do ISP (2003) e ex-corregedor das polícias do Rio (2003), Silva diz que tentar resolver questões sociais, como a violência, só com a polícia, é um erro.

"[Isso] também leva muitos policiais ao túmulo. No fundo, são todos vítimas de equívocos políticos. A polícia não tem a capacidade de remover causas e fatores... No máximo, nas circunstâncias, enxuga gelo", explica o especialista, que nasceu no complexo do Alemão.

A Secretaria de Segurança do Rio não soube informar o motivo pelo qual essas três regiões tiveram mais mortes provocadas pela polícia do que homicídios. Sobre as críticas à política de segurança do Estado, a assessoria da secretaria disse, por meio de nota, que "respeita o direito de expressão de todo cidadão" e, por isso, não comentaria os argumentos apresentados por Silva.

Se analisado o Estado do Rio de Janeiro como um todo, verifica-se uma proporção de dois autos de resistência para cada 11 homicídios dolosos, já que, nas outras regiões, os assassinatos superam os autos de resistência.

Em áreas como a Barra da Tijuca, por exemplo, sequer foram registradas mortes provocadas pela polícia nos primeiros nove meses deste ano. De janeiro a setembro deste ano, ocorreram 805 autos de resistência e 4.460 assassinatos no Estado.

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