Ángel Escamis
Kha Mhu (Mianmar), 12 mai (EFE).- O Exército birmanês distribui a
do jeito que quer e com de forma improvisada a pouca ajuda destinada
a aliviar a catástrofe humanitária causada pelo ciclone "Nargis" no
delta do rio Irrawaddy, onde as autoridades não querem voluntários
estrangeiros.
Ao longo do estreito caminho que cruza as aldeias castigadas há
mais de uma semana pelo ciclone, grupos de mulheres e crianças
levantam durante a passagem de cada veículo longas varas de bambu
com cartazes feitos com pedaços de tela e nas quais escreveram em
birmanês mensagens como "Necessitamos urgentemente de comida e
roupa".
Em outros pontos espalhados deste trajeto, entre choças
danificadas ou destruídas, centenas de pessoas fazem fila para
receber a bolsa com um quilo de arroz e o meio litro de óleo para
cozinhar distribuído pelos soldados e funcionários.
"Aqui há muita fome e ninguém nos ajuda", diz à Agencia Efe uma
mulher indignada que buscou abrigo junto a outras multidões de
pessoas nos prédios quase caindo que ficam em volta do pagode de Kha
Mhu.
A alguns poucos quilômetros ao sul do templo, os militares
guardam sacos de arroz, que podem ser vistos através dos buracos nas
paredes, e no exterior carregam alguns destes sacos em um pequeno
caminhão que, segundo dizem os moradores, "são destinados aos seus
parentes".
"É comida para os funcionários e o Exército, para nós que somos
kayin não nos dão nada", protesta Zaw, agricultor de 52 anos e que
como mais da metade dos habitantes desta zona do delta, pertence a
esta etnia, que dissolveu sua guerrilha há uma década após fazer um
pacto de trégua com o regime.
Ao lado do caminho e em frente a uma choça, foram colocados
quadros-negros com inscrições em giz branco e em inglês dizendo:
"Ajudem-nos por favor".
A autora da mensagem é Lin Soe, professora da escola local, que
em sua modesta casa e nas de outras duas vizinhas acolheu a cerca de
20 famílias das proximidades que ficaram sem lar.
Muito perto, em uma pequena capela Batista, acamparam em seu
interior e no chão cerca de duas centenas de pessoas, a maioria
mulheres e crianças, e que segundo o pastor Sandar Lwin, estão
famintas e começam a sofrer de febre.
Por Kha Mhu passa um comboio formado por um carro 4x4 e dois
caminhões de pequeno porte com o distintivo do Programa Mundial de
Alimentos das Nações Unidas, e outro composto por dez veículos de
uma unidade médica do Exército birmanês.
Em toda a região, pode-se ver que os militares aumentaram sua
presença desde que chegaram aqui, cinco dias depois do ciclone, mas
a maioria dos soldados nada fazem nos postos de controle
improvisados e nos aquartelamentos que montaram ao longo do caminho,
o único que existe para transportar a ajuda por terra.
A Polícia leva mais a sério seu trabalho, estabelecendo um
estrito controle às portas da localidade de Kunyangon, a cerca de
oitenta quilômetros ao sudoeste de Yangun e onde as forças de
segurança instalaram uma espécie de quartel-general.
Ali, ela impede o acesso à região a dois estrangeiros de uma
organização internacional enviados para realizar um relatório dos
remédios necessários para se atender aos feridos, doentes, para
evitar epidemias e frear a disenteria, que abre passagem por toda a
região.
"Não, não, já vi gente da ONU", diz em inglês o chefe do posto,
em um alarde de sua autoridade e sem prestar a menor atenção às
explicações dos dois voluntários, que têm por lei suas respectivas
permissões de trabalho.
O comandante, sentado atrás uma mesa ladeado por três agentes com
o fuzil na mão, decide ignorar por um momento os dois estrangeiros e
pede o passaporte ao enviado especial da Efe, cujo nome e número
anota em seu livreto.
"Bem, pode ir", diz o oficial antes de insistir com os dois
voluntários que "já disse que a ONU esteve aqui".
Pelo menos 28.500 pessoas morreram e cerca de 33.500 foram dadas
por desaparecidas, segundo os dados oficiais birmaneses, no delta do
rio Irrawaddy, de difícil acesso ainda em condições normais e uma
zona salpicada por milhares de pequenas aldeias.
Kunyangon, com vários prédios oficiais de tijolo de pé, é um
aglomerado de pessoas na busca de ajuda e de agricultores, que
tentam vender algum de seus animais para conseguir um dinheiro que
os permita subsistir.
Os mercadores ambiciosos apareceram na localidade para tirar
proveito econômico da desgraça das pessoas pressionadas pela
necessidade, segundo denunciam os habitantes.