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04/12/2009 - 18h19

"Apesar dos efeitos colaterais do coquetel, levo uma vida normal", diz autora sobre a Aids

Valéria Piassa Polizzi contraiu o HIV em uma época que a Aids era considerada como "doença de gays" e pouco se sabia sobre o assunto. O choque foi grande, os médicos até se surpreenderam com o fato de uma mulher ter se infectado e sugeriram que ela não contasse para ninguém.

Flávio Florido/Folha Imagem
Valéria Polizzi conta como conviveu com o HIV durante 22 anos
Valéria Polizzi conta como conviveu com o HIV durante 22 anos


Por algum tempo Valéria viajou, ficou fora do país e pôde conviver com outras ideias sobre a doença, mas não conseguia fazer planos a longo prazo -- ela achava que tinha pouco tempo de vida. Mas não foi o que aconteceu.

Dez anos depois de ter descoberto o vírus, Valéria começou a tomar os remédios e de uma época em que ficou com a saúde debilitada é que veio a ideia de escrever "Depois daquela Viagem", publicado pela editora Ática. Escrito em linguagem simples, o livro conta a história da autora e foi bastante utilizado nas escolas, o que era um sonho dela.

Hoje Valéria tem 38 anos, se formou em jornalismo e vive uma vida normal. Recentemente gravou um depoimento para a novela "Viver a Vida", da Globo. Veja abaixo entrevista que Valéria concedeu à Livraria da Folha.

*

Livraria da Folha - Você foi infectada há quanto tempo pelo HIV? Como aconteceu?

Valéria - Eu me infectei quando tinha 16 anos, já tem 22 anos. Conheci um rapaz numa viagem de navio que fiz com meu pai e a gente começou a namorar. Depois de seis meses de namoro, resolvemos ter relação sexual. Eu nunca tinha transado e a gente não usou camisinha. A gente namorou mais uns seis meses e terminou. Quando eu estava com 18 anos, eu tinha acabado o colegial, ia fazer uma viagem para Nova York e eu tinha uma certa dor de estômago que não era nada muito sério, mas eu resolvi checar. Aí ele [o médico] pediu endoscopia, viu que eu estava com sapinho no esôfago, pediu exame de imunidade, que deu baixa e pediu outro exame, que era o de HIV que deu positivo.

Livraria da Folha - Qual foi a sua reação ao descobrir?

Valéria - Isso foi em 1989. A gente tinha pouquíssima informação sobre Aids e HIV. A própria mídia passava muita coisa errada, falava ainda em "doença dos gays". Enfim, era muito associado à morte. A palavra Aids era praticamente sinônimo de morte. Então foi um choque, claro, era uma doença que até os médicos se assustavam de ter descoberto isso numa mulher. Fui procurar depois um infectologista que disse que naquele momento não era a hora de tomar remédio - o único remédio que havia na época era o AZT -- e eu fui de qualquer jeito para Nova York. Fiquei um tempo lá e estudei inglês. Quando eu voltei, prestei vestibular, entrei numa faculdade de letras, mas depois de três meses eu larguei a faculdade porque achava que não ia dar tempo de acabar. Na época era muito forte essa coisa de "ah, uma pessoa que tem HIV vive no máximo dez anos se tiver sorte", então a gente ia diminuindo cada vez mais os planos e não conseguia sonhar ou fazer planos para longo prazo.

Livraria da Folha - Como os amigos e a família reagiram quando souberam?

Valéria - Durante muitos anos, só quem soube foram os meus pais e alguns tios mais chegados. Os próprios médicos na época falaram "olha, é melhor não contar isso para ninguém, porque a sociedade não está preparada para receber". Era a época em que crianças eram expulsas da escola, pessoas estavam perdendo o emprego, Então durante muito tempo só quem soube foram essas pessoas mais chegadas. Em 1994, foi quando eu fiz uma outra viagem, para os Estados Unidos, dessa vez eu fui ficar em uma universidade americana para estudar inglês, fazer um curso bem intensivo. E essa viagem que acabou mudando minha visão com relação ao HIV. Enquanto aqui no Brasil ainda se falava "Aids mata", lá eles já estavam falando "pessoas convivendo com o HIV/Aids". Parece uma coisa simples, mas mudava completamente.

Então quando eu voltei para o Brasil, eu voltei cheia de novas ideias, mas também voltei doente porque já tinha chegado a hora de eu tomar remédio e eu tinha me recusado. Eu contrai uma tuberculose renal e voltei para o Brasil quase que direto para o hospital. E nessa internação que durou cerca de um mês, foi quando a gente resolveu contar para o resto da família e de amigos que eu estava com o HIV. Eles receberam numa boa, apesar de ser um choque na época porque as pessoas achavam realmente que você iria morrer logo, e não perdi nenhum amigo e nenhum parente por causa disso. As pessoas se mostraram absolutamente solidárias, passaram a vir me visitar mais vezes e foi inclusive nesta época que surgiu a ideia de escrever o livro.

Depois que eu saí do hospital, eu estava fazendo tratamento de tuberculose bastante longo e eu tinha decidido que valia a pena começar a tomar o AZT, mas ainda levei bastante tempo em casa aquela vida de doente, de não poder fazer muita coisa, de não poder sair, começar a fazer um curso ou trabalhar e foi nessa época que surgiu a ideia de escrever o livro. Em 1997, o "Depois Daquela Viagem" ficou pronto e a editora Ática se interessou - o que para mim foi muito bom porque é uma editora que trabalha muito com escola e eu tinha esse sonho de realmente colocar o livro dentro da sala de aula.

Livraria da Folha - Como ficou a sua saúde neste período?

Valéria - Eu tive a tuberculose, fiz tratamento durante um ano e juntamente eu estava tomando o AZT. Aí depois de mais ou menos um ano, o AZT parou de fazer efeito e eu dei sorte porque em 1997 surgiram novos remédios. Comecei a tomar uma primeira combinação do AZT - que a primeira por sinal era bastante ruim e eu não aguentei continuar tomando, tomei uns dois meses e tive que parar. Seis meses depois apareceram novos remédios e eu comecei uma outra combinação. Dois dos remédios que eu comecei a tomar nessa época, eu tomo até hoje. Ou seja, eu tomo remédio ininterruptamente há 12 anos. Desde que eu comecei a tomar o coquetel, eu não tive mais doença oportunista nenhuma. Vida normal: trabalho, estudo, me relaciono e fui casada. Depois disso, com 33 anos resolvi fazer uma faculdade e me formei em jornalismo. Agora estou fazendo uma pós-graduação em formação literária. Apesar dos efeitos colaterais do coquetel que não são fáceis, a gente consegue levar uma vida normal.

Livraria da Folha - Como foi com o seu ex-marido?

Valéria - Meu ex-marido, eu conheci numa viagem que fiz para a Nova Zelândia, ele é austríaco, e eu contei para ele logo de cara que eu tinha HIV, mesmo porque a gente estava viajando numa turma e eu contei pra todo mundo. Eu tinha acabado de lançar o livro aqui, eram todos estrangeiros e eu queria saber como estava a cabeça em relação à Aids em outros países. E ele aceitou numa boa, a gente começou a namorar. A gente namorou três anos -- eu ia para Áustria e ele vinha para o Brasil. Em 2000, a gente se casou, fomos morar na Áustria. Eu fiquei três anos lá e, em 2003, a gente resolveu vir morar no Brasil, mas ele infelizmente não se acostumou com a cultura brasileira e a gente acabou se separando. Somos muito amigos até hoje. Ele não tinha o vírus da Aids e continuou não tendo. A gente sempre se cuidou, sempre usou camisinha e não tivemos problemas com relação a isso.

Livraria da Folha - Qual a diferença da situação de dez anos atrás e hoje?

Valéria - É totalmente diferente. Essa associação com a morte, que era muito pesada, fazia com que a gente praticamente morresse antes do tempo. E a quebra de planos, mesmo. Hoje, com o coquetel, a gente tem não só uma qualidade de vida física melhor por que a gente não fica doente - quem toma o remédio direito, lógico - mas também essa "folga psicológica", que eu sei que se a minha combinação por ventura parar de fazer efeito eu tenho outras opções de remédios. Agora é importante ressaltar que as pessoas têm que tomar o remédio direito, que tem muito caso de gente que começa e aí para, ou ta de saco cheio e para um pouco. E aí o remédio para de fazer efeito, a pessoa tem que mudar de combinação, e vai mudando até que chega uma hora em que os remédios que a gente no mercado hoje não fazem mais efeito. Eu estava conversando com uma coordenadora do grupo de jovens do Emílio Ribas, que são jovens que nasceram com o HIV, tem desde crianças até jovens com cerca de 20 anos. E ela estava me contando que desde julho deste ano até o final do ano, 14 jovens morreram porque tinham esse problema de adesão ao medicamento - tomavam, aí se revoltavam, não queriam mais e aí paravam. E chega uma hora que realmente não tem mais remédio. A pessoa pega uma infecção oportunista e morre.

"Depois Daquela Viagem"
Autora: Valéria Piassa Polizzi
Editora: Ática
Páginas: 238
Quanto: R$ 33,90
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha

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