SÃO PAULO - Agosto trouxe mais do mesmo. Com novas referências negativas, o setor financeiro permeou os mercados globais com cautela, indicadores de preços mantiveram aceso o alerta quanto às pressões inflacionárias em âmbito global e a saúde da economia norte-americana gerava discussão a cada indicador divulgado.
No período, a tendência global de apreciação da moeda norte-americana encontrou, internamente, força adicional em uma pressão por ajuste após meses de desvalorização, na fuga de recursos externos e na posição comprada de bancos e investidores que operam os mercados futuros. Foi neste cenário que o dólar paralelo, com alta de 5,88%, encerrou agosto como melhor investimento do mês.
Um elemento já recorrente no noticiário teve maior influência sobre os negócios: commodities. Vindos de recente disparada, os contratos de matérias-primas, em especial as metálicas e energéticas, desta vez cederam à correção. Em decorrência, a queda no investimento especulativo neste mercado favoreceu a valorização do dólar frente outras divisas de referência. Os investidores passaram a vislumbrar perspectivas de arrefecimento inflacionário e as bolsas globais, com exceção daquelas com maior exposição às commodities, encontraram espaço para breve recuperação, como é o caso de Wall Street.
E foi justamente este movimento de queda das commodities que, por penalizas as principais blue chips brasileiras, guiou o Índice Bovespa ao terceiro mês consecutivo de perdas. No acumulado do ano, o saldo chegou a 12,84% negativos.
Commodities, resultados corporativos e dados econômicosJá no primeiro dia do mês o Employment Report trouxe, mais uma vez, um retrato do deteriorado mercado de trabalho norte-americano. Os dados de inflação no país também vieram piores do que esperavam analistas, assim como os do setor varejista. Mas as referências opostas do segmento imobiliário, bons números no lado industrial e um surpreendente avanço do PIB (Produto Interno Bruto), sinalizado pela prévia do segundo trimestre, deixaram no ar as dúvidas quanto ao real impacto da crise subprime na economia dos EUA.
Mas se os índices econômicos trouxeram algumas referências positivas, não faltaram ocorrências no setor financeiro para apagar qualquer possibilidade de melhora de ânimo dentre os investidores. Morgan Stanley, JP Morgan, Goldman Sachs e Lehman Brothers receberam novas projeções de baixas contábeis; o último ainda esteve envolvido em rumores de venda para o banco público sul-coreano Korea Development Bank. Foram fortes os rumores de resgate pelo Tesouro norte-americano das agências de financiamento hipotecário Freddie Mac e Fannie Mae, arrefecidos após uma captação via emissão de dívida em US$ 3 bilhões. A seguradora AIG levou projeções de perdas e perspectiva de redução de rating pela agência de risco Fitch.
Ainda no âmbito externo, agosto contou com manutenção do juro básico na zona do euro, na Inglaterra e nos EUA. Aguardada com ansiedade pelo mercado, a ata do encontro do Comitê de Mercado Aberto do Federal Reserve, liderado por Ben Bernanke, mostrou que o próximo movimento da Fed Funds Rate será de alta, em busca de combater a alta da inflação nos EUA. Contudo, deixou obscuro se tal movimento virá no curto prazo, dado que as menções à fragilidade da economia norte-americana também tiveram grande peso na minuta.
A temporada de resultados corporativos teve seqüência com publicações de grande destaque tanto na esfera internacional quanto internamente. Lá fora, os balanços de Carrefour, MBIA e Cisco foram bem recebidos pelos investidores, ao contrário de UBS, Freddie Mac e AIG. Por aqui, o desempenho negativo das ações das principais blue chips não reflete o desempenho destas empresas no segundo trimestre, mas sim a queda das commodities energéticas e metálicas. Os balanços de Gerdau, Vale e Petrobras surpreenderam, assim como a receita líquida recorde da CSN; por sua vez, os balanços trimestrais dos bancos deixaram a desejar. Destaque ainda para os desdobramentos das discussões em torno da possibilidade de criação de nova estatal para administrar o pré-sal.
Do lado econômico, o grande destaque de agosto ficou por conta dos indícios de moderação no comportamento dos preços. Ao longo do mês, vários indicadores de inflação mostravam variações menores, com destaque ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), medida oficial da inflação doméstica, que em sua medição de julho registrou variação dos preços inferior ao resultado do mês anterior e ficou abaixo das estimativas de analistas. O relatório Focus do Banco Central passou a mostrar menores perspectivas para a inflação, contudo, a percepção de evolução mais moderada dos preços não veio acompanhada de revisões de expectativas para a taxa Selic.
Friboi e Embraer nas pontas do IbovespaEntre suspensão das exportações de carne bovina industrializada brasileira para o mercado norte-americano e um mal recebido pedido feito aos detentores de notas seniores com vencimento em 2011 e 2016 para retificar ou até mesmo eliminar algumas das obrigações contratuais restritivas destes ativos, as ações da JBS-Friboi (JBSS3) apresentaram a maior baixa entre os 66 ativos que compõem o Ibovespa. A desvalorização em agosto foi de 21,07%, com os papéis valendo R$ 6,63.
No extremo oposto apareceram as ações da Embraer (EMBR3), liderando as alta do índice com valorização de 15,73%, cotadas a R$ 13,83. Além da valorização do dólar e do recuo do barril de petróleo no período, a empresa anunciou novos contratos e corte em seu quadro de funcionários.
Mercado vendido e fuga de capital sustentam alta do dólarDevolvendo parte da desvalorização acumulada ao longo dos últimos meses, o dólar, além de vir de tendência global de valorização, contou ainda com a ajuda de fatores internos para encerrar agosto com alta face ao real.
O fraco desempenho da renda variável doméstica estimulou a fuga de capital estrangeiro do mercado brasileiro, enquanto os resultados mais modestos das exportações geravam menor ingresso de moeda externa. Com perspectiva de que a tendência do dólar se reverteria ao menos no curto prazo para valorização, bancos e investidores que operam em mercados futuros aumentaram suas posições compradas.
Neste contexto, o dólar comercial acumulou em agosto valorização de 4,42%, maior variação desde maio de 2006, encerrando a R$ 1,635.
Renda fixaOs CDBs pré-fixados de 30 dias apresentaram retorno de 1,02% em termos nominais, ou retorno de 1,34% em termos reais.
Já o CDI apresentou ganhos de 0,96% no mês. A evolução, descontando a inflação, foi positiva em 1,29%.
| Investimento |
Agosto |
Real* |
Julho |
Real** |
| Ibovespa |
-6,43% |
-6,13% |
-8,48% |
-10,06% |
| CDI*** |
+0,96% |
+1,29% |
+1,01% |
-0,74% |
| CDB **** |
+1,02% |
+1,34% |
+0,97% |
-0,78% |
| Poupança |
+0,66% |
+0,98% |
+0,69% |
-1,05% |
| Ouro |
-5,38% |
-5,07% |
-1,06% |
-2,77% |
| Dólar Paralelo |
+5,88% |
+6,22% |
-6,08% |
-7,70% |
| Dólar Ptax |
+4,33% |
+4,66% |
-1,59% |
-3,29% |
| Dólar Comercial |
+4,42% |
+4,76% |
-2,07% |
-3,76% |
| IGP-M |
-0,32% |
|
+1,76% |
|
* Deduzida a inflação pelo IGP-M que ficou em -0,32% em agosto
** Deduzida a inflação pelo IGP-M que ficou em 1,76% em julho
*** Taxa Efetiva Andima
**** Taxa pré 30 dias