Deu pau? Antes de reclamar, saiba que tem gente por aí tentando transformar os malquistos erros informáticos em intervenção estética e até movimento artístico. É a
"glich art" (algo como "arte do tilt").
Embuste para alguns, vanguarda para outros, o termo designa obras audiovisuais alteradas em seu código-fonte (linguagem de programação que faz o software rodar). Não vale, portanto, distorcer a imagem em programas como Photoshop. As obras são frutos de erros de programação aleatórios ou forçados.
"A 'glitch art' explora os limites do formato digital", filosofa o norte-americano Benjamin Berg, 31, que vive no estado de Indiana (EUA). Apesar de pagar as contas revisando livros, Berg se autodenomina um "artista das novas mídias". Para ele, a estética do acidental --bastante presente em algumas vanguardas do século 20-- faz parte agora de um "movimento pós-digital, de superação dos bits".
Em 2003 a corrente sonora da "glich art" ganhou popularidade entre internautas. Trocar arquivos de áudio era até então mais interessante do que imagens --filhotes do compartilhador de música Napster pipocavam pela rede.
Sem uma plataforma eficiente de divulgação, a "glitch art" visual só conseguiu engrenar com a popularização de portais como Flickr. Hoje, o site conta com cerca de 1.500 adeptos do "tilt" e quatro fóruns dedicados ao assunto. São mais de
3.000 imagens corrompidas à exposição.
"A 'glitch art' já era embrionária em algumas expressões, como no trabalho dos VJs, que manipulam e corrompem imagens e sons de improviso", diz o artista plástico romeno Mircea Turcan, 29, colaborador do site.
Há, no entanto, visões menos entusiasmadas. Para o escritor brasileiro Jesus de Paula Assis, autor de "Artes do Videogame" (ed. Alameda), vale a citação do pintor francês Marcel Duchamp (1887-1968), de que arte é tudo aquilo que você consegue convencer as pessoas a aceitarem como tal.
"No caso do Duchamp, tudo bem. Já em muitos outros casos, as portas da picaretagem ou do amadorismo ingênuo ficaram escancaradas", alfineta.
Há ainda um grupo de internautas que encara tendência como hobby. Caso do estudante de design dinamarquês Steffen Bygebjerg, 23. "É uma diversão para mim", diz. Bygebjerg utiliza um
navegador on-line que distorce e quebra as imagens dos sites visitados.
Outra forma de conseguir "bugs" semelhantes é utilizando câmeras digitais com baterias fracas. As últimas fotos, sobretudo se tiradas com flash, costumam sair corrompidas. No entanto, o instrumento mais popular da "glitch art" é o programa hexplorer, um um editor de arquivos binários de visual futurista. Basta abrir uma foto no programa e mexer em seus códigos à esmo. Mas não se esqueça de gravar uma cópia do arquivo antes de se arriscar. O processo é irreversível.