A primeira mesa da Flip (Feira Literária Internacional de Paraty) deste sábado, Guerra e Paz, foi composta por dois africanos, o angolano Pepetela e a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.
Em sua leitura, Pepetela escolheu trecho em que homenageia Jorge Amando, cujo trabalho disse ter causado grande influência em sua vida e sua carreira. Adichie apresentou trecho de seu primeiro livro publicado no Brasil, "Meio Sol Amarelo" (Cia. das Letras, 2008).
A discussão dos dois escritores abordou temas como guerras, guerrilhas e violência e a forma como esses temas influenciam a literatura africana.
Pepetela, que foi guerrilheiro e lutou para a libertação de Angola na Guerra de Biafra (guerra civil na Nigéria, entre 1967 e 1970, que deixou mais de 1 milhão de mortos), disse que numa guerra os homens ficam em situação limite, pois causa uma radicalização de sua personalidade. "É muito difícil esconder o medo, mas depois esses mesmos homens com medo viram heróis. É um medo que vem da barriga, que tolhe. O curioso é que todo mundo tem medo e finge que não tem", disse.
Ele explicou que um comandante só era realmente respeitado se tivesse o corpo "blindado", o corpo "fechado", como se diz no Brasil [referindo-se à sorte ou à resistência de não morrer em ataques]. Questionado se ele próprio possuía o corpo fechado, Pepetela disse que não se pode revelar uma informação dessas.
Sobre o fato de a literatura africana poder torna-se pessimista devido à influência da guerra nos textos, Chimamanda disse que quando se escreve sobre a África é possível que sim, mas que para ela, particularmente, é importante que escreva apenas o que quer escrever.
"Como escritora, sou atraída a falar sobre o lado humano. Mais do escrever sobre matador e morto, estou interessada em como as guerras mudam a vida das pessoas, como falta comida e como as mães criam seus filhos de modos diferentes. Estou mais interessada no fato de o general, por dentro, ser um menino assustado", explicou.
Questionada sobre a forma como aborda a guerra, já que diferentemente de Pepetela, Chimamanda não viveu o conflito de Biafra, por exemplo, ela disse que ouvindo o angolano contar as histórias do que fizera, sentia-se triste por não ter vivido o mesmo.
"Eu cresci ouvindo histórias de perdas. Meus avôs morreram na guerra, meu falava sempre em guerra, minha mão dizia: antes da guerra nós também tínhamos louças tão bonitas quando as de tal pessoa. Cresci sabendo que eles perderam bens e pessoas. Portanto, meu livro é menos sobre guerra e mais sobre seres humanos e amor."
Pepetela disse que não se arrependia de ter sido guerrilheiro e de ter participado de conflitos, muito pelo contrário, que se orgulhava de ter ajudado a libertar seu país. "A guerra na África tem cinco séculos. Nós, fatalmente, somos guerreiros, pois a guerra sempre esteve na nossa história. Talvez a própria história faça com que as pessoas dêem mais importância à paz."
Pepetela disse que a primeira vez que teve contato direto e pessoal com a guerra foi como jornalista. Ele trabalhava para uma rádio que necessitava de sons dos conflitos para pôr de fundo nos relatos. Ele, então, foi com um grupo guerrilheiro para o norte de Angola para um ataque a um quartel. Na ânsia de captar melhores sons, disse que avançou tanto que, quando percebeu, já estava no lado do quartel narrando como um jogo de futebol o que deveriam fazer os guerrilheiros. "Foi aí que acabou a carreira de jornalista e começou a de guerrilheiro."
Sobre o papel dos escritores africanos hoje, Chimamanda disse sua geração [ela nasceu em 1977] é diferente, temos o privilégio da multiplicidade. Ela disse que escritores africanos falam sobre mitologia cubana, sobre os EUA, sobre a Inglaterra. "As pessoas dizem que como africana tenho de escrever sobre coisas da África, mas como se define o que são coisas africanas? Acho que temos de escrever as melhores histórias. Vejo-me mais como uma contadora de histórias e espero contá-las da melhor maneira possível.
Questionado sobre a pouca divulgação da literatura africana, Pepetela disse que, em nível literário, ele vê um problema sério: a falta de domínio do idioma para escrever. Segundo ele, os angolanos querem escrever em português, mas a maioria, mesmo talentosos e criativos, não domina a escrita, o que prejudica no surgimento de uma nova geração de escritores.