Um senhor de 71 anos, alto, cabeludo, com jeitão de holandês, embora seja tcheco naturalizado inglês, e com sapatos combinando com a roupa. Esse é Tom Stoppard, que foi apresentado de forma encantadora ao público nesta noite na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) por Luis Fernando Veríssimo.
Autor de inúmeras peças, no Brasil --como ele próprio disse-- Stoppard é mais conhecido por um de seus roteiros para o cinema: "Shakespeare Apaixonado", filme de 1998, vencedor de sete estatuetas do Oscar. Mas sua estréia se deu mesmo com "Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos" (1966), peça em que questiona duas personagens de uma das mais conhecidas obras de William Shakespeare, "Hamlet".
| Amie Stamp/Divulgação |
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| O escritor Tom Stoppard, que participa da Flip-2008, em Paraty |
De sua produção mais recente, a montagem americana da trilogia "The Coast of Utopia" (algo como "A Costa de Utopia", de 2002) lhe rendeu sete prêmios Tony --o Oscar do teatro--, e talvez a consagração definitiva como um dos maiores dramaturgos da atualidade
Na Flip, na noite deste sábado, Stoppard pediu para falar em pé. Elogiou Veríssimo, a cidade de Paraty, a cordialidade com que foi recebido e tratado. Disse ter percebido que no Brasil é mais conhecido pelo cinema e fez uma brincadeira quando um telefone tocou na platéia: "Se for par mim, diga que estou ocupado", disse.
Stoppard falou sobre o diálogo no cinema, da qualidade da escrita, do uso das palavras comuns. Disse que quando um texto é bem escrito, duas coisas podem ser observadas: a manipulação da linguagem que leva à construção de um pensamento brilhante, como a arquitetura da linguagem, e a arte da localização perfeita das palavras comuns. A arte de usar palavras de maneira natural.
Conservador em seu pensamento político e artístico, como ele mesmo se classificou, usou cenas simples do cinema blockbuster para dar exemplos do que considera genial na construção com o uso da simplicidade. Stoppard citou "Indiana Jones", com Harrison Ford, em uma cena em que ele cai de uma altura incrível, volta vivo, mas sem o chapéu. E o que aparece ali, é que nada poderia continuar sem aquele chapéu, pelo menos não no filme. Mas o chapéu é recuperado e tudo continua.
"Será que podemos ir um pouco mais além quando falamos de uma boa escrita? Não de forma explosiva, mas do diferente, de algo que ninguém escreveu?", perguntou.
Veríssimo disse que acreditava que escritores que escreviam em uma língua que não era a sua materna conseguiam ser mais criativos e ter mais liberdade na hora de escrever. Em seguida disse que pensava isso sobre Stoppard, mas que sua tese tinha sido destruída porque descobrira que o dramaturgo sempre falou inglês. O escritor rio e disse achar que a tese de Veríssimo era sólida no nível da subconsciência, mas que, realmente, só falara tcheco até seus cinco anos de idade.
Sobre o fato de ser conservador, levantado por Veríssimo numa brincadeira, Stoppard disse que concordava, mas alertou que para uma pessoa se definir politicamente era difícil. "Eu sei que tenho um comportamento conservador, mas acho que é um condicionamento. Se você é um refugiado e é levado para viver em um outro país por seu padrasto, você adquire um tipo de comportamento. Mas posso dizer que com 20 e poucos anos eu era pouco confiável", contou.
Questionado sobre o que gostava no teatro e que nomes poderia citar, Stoppard respondeu dizendo que acredita na hierarquia de qualidade, e não na hierarquia de categoria, acrescentando que prefere ver um western a um medíocre filme de arte.
Ele ainda devolveu a Veríssimo os elogios feitos na apresentação, e disse que ganhara da mulher do escritor gaúcho um livro em inglês que o obrigou a passar a noite acordado lendo, pois não conseguira deixar o livro de lado, e falou bem da obra. Veríssimo, então, disse que agora precisaria pedir mais uma cadeira no palco apenas para colocar o seu próprio ego.