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Sábado, 04 de JULHO de 2009

20/11/2008 - 23h38

Premiado e pesado, "Natal" de Selton Mello chega aos cinemas

O longa-metragem "Feliz Natal", que marca a estréia do ator Selton Mello na direção, começa nesta sexta-feira a passar pelo crivo do grande público com sua estréia nos cinemas. O filme já conseguiu uma carreira respeitável no circuito de festivais.

Apenas em Goiânia, "Feliz Natal" levou nove prêmios. No entanto, Mello confessou que não se sente certo sobre o comportamento do grande público em relação ao filme.

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Atriz Darlene Glória como personagem Mércia no longa-metragem "Feliz Natal", estréia do ator Selton Mello como diretor no cinema
Atriz Darlene Glória como personagem Mércia no longa-metragem "Feliz Natal", estréia do ator Selton Mello como diretor no cinema


Com uma boa trilha sonora, "Feliz Natal" abusa de sombras em um enredo pesado, que mostra um homem com fortes traumas reavaliando pontos de sua vida e seu contato com personagens do passado agora envoltos em sérios problemas. Nascido perto do Natal, em 30 de dezembro de 1972, o mineiro Mello disse que a data lhe parece melancólica e diz que fez uma espécie de "colagem" de experiências alheias para montar a história.

O ator-diretor também afirmou que gostaria de adaptar "O Alienista", de Machado de Assis, para o cinema, mas que certamente este não será seu segundo projeto como diretor.

Abaixo segue a íntegra da entrevista e confira no Guia da Folha Online onde assistir o filme em São Paulo.

Folha Online - Selton, você acredita que o público vai receber "Feliz Natal" tão bem quanto a crítica e as fatias mais seletivas da audiência (como os freqüentadores da Mostra de São Paulo)?

Selton Mello - Não sei. Sinceramente. Público de cinema é uma incógnita. Os festivais são nichos onde está o consumidor apaixonado de cinema, claro. Mas acho que funcionam para esquentar os tamborins. Meu filme é denso, mas não hermético. Tenho viajado por festivais pelo país e o público reage muito bem ao filme. Acabamos de levar nove prêmios no Festival de Goiânia, incluindo melhor filme, direção, atriz (para Darlene Gloria), roteiro, fotografia... Foi bem emocionante o reconhecimento. Eu tive ótimas críticas e outras nem tanto, ou até duras, e confesso que não tenho lido as críticas publicadas, boas e ruins. Li algo do Fernando Meirelles que não leu as críticas do "Blindness" ("Ensaio sobre a Cegueira", em português) e me identifiquei com isso e não estou lendo também. Se ela é ruim você se sente a pior pessoa do mundo, se ela é maravilhosa você acha que é a reencarnação do Orson Welles (risos). Para se manter vivo e alheio a isso tudo, você tem que estar em paz com o filme que realizou. E durmo tranqüilo, com a consciência de ter feito um belo primeiro filme, com qualidades e imperfeições, como a vida.

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Leonardo Medeiros interpreta o personagem principal Caio, que vai ao Rio e tenta acertar contas consigo e os outros em "Feliz Natal"
Leonardo Medeiros interpreta o personagem principal Caio, que vai ao Rio e tenta acertar contas consigo e os outros em "Feliz Natal"


Folha Online - Apesar do tema "natalino", o filme é bastante forte e foge do clássico que as famílias procuram perto da festa. Foi uma decisão estratégica a estréia cerca de um mês antes do Natal, para driblar a concorrência com os filmes-família típicos da época?

Mello - Acho que filmes típicos de Natal já têm aos montes. Todos muito felizes, animados e esperançosos. E acho ótimo. Mas o Natal tem várias vertentes. Quis filmá-lo porque é um momento que as pessoas estão no limite, qualquer comentário pode virar uma explosão de constrangimentos. Coisas que estavam guardadas há anos. Há uma espécie de jogo oculto, umas simulações de afeto, umas forçadas de barra, regadas a peru, arroz de forno e batatas. Acho o Natal bem melancólico. Não seria um filme meu se fosse uma festa de Papai Noel com presentes e renas de nariz vermelho.

Folha Online - Qual é a inspiração de "Feliz Natal"?

Mello - Aquela família do filme não é a minha. Mas poderia. Poderia ser a sua ou de alguém perto de você. É uma história que causa algum tipo de identificação, nem que seja por um momento, por algum fiapo da vida. Analisando os Natais e as pessoas, me inspirei para criar uma história em que um filho volta ao lar para juntar os cacos de uma família sucateada, em ruínas. E, normalmente, pensamos em juntar esses cacos em épocas assim. E o filme pode explodir a qualquer instante.

Folha Online - A trilha sonora já foi bastante premiada em festivais brasileiros, você acredita que ela possa ter uma "carreira solo" em relação ao filme?

Mello - O autor é o Plínio Profeta, amigo de muitos anos. O resultado ficou excelente mesmo. Me agrada na história do cinema as trilhas que ficam na cabeça, como as composições de Nino Rota, Enio Morricone, Angelo Badalamenti. Sou fã desses artistas todos.

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"Feliz Natal" ganhou nove prêmios em Goiânia e disputa competição em Huelva, na Espanha; filme chega nesta sexta-feira aos cinemas
"Feliz Natal" ganhou nove prêmios em Goiânia e disputa competição em Huelva, na Espanha; filme chega nesta sexta-feira aos cinemas


Folha Online - Foi uma escolha sua usar sombras e ambientes escuros em boa parte do filme? Para qual tipo de cinema você olhou e utilizou referências para montar as luzes de "Feliz Natal"?

Mello - John Cassavetes, ator e diretor como eu, foi o norte principal da levada do filme. Acho que a vida é cheia de som e fúria, de momentos solares e muita, muita escuridão. Nesse filme procuramos tratar as sombras com ternura. Nos momentos de trevas ninguém entra com um rebatedor para te dar uma força. Esse foi o pensamento meu e do Lula Carvalho, fotógrafo do filme. Percorrer a escuridão com delicadeza, existe uma beleza estonteante na lama.

Folha Online - Você pretende dirigir mais? Já tem algum projeto em vista? Você acredita que, em geral, atores podem se tornar bons diretores?

Mello - Fiquei fascinado com a direção. Quero dirigir muito mais. Acho que atores podem ser bons diretores sim, porque já têm experiência do outro lado. Olha o Matheus Nachtergaele, Sean Penn, Clint Eastwood. E quando dirigimos, passamos a compreender melhor o processo todo. Eu me sinto um ator muito mais consciente agora. Dirigir é visceral, doloroso, solitário e altamente apaixonante. Penso em filmar "O Alienista", de Machado de Assis. Mas, definitivamente não será meu segundo filme, mas já trabalho no roteiro com meu parceiro Marcelo Vindicatto. Me agrada a idéia de levar para as telas essa história que mostra o limite tênue da razão e da insânia.

Folha Online - Você acredita que a crise possa, a um curto prazo, afetar o mercado cinematográfico?

Mello - Acho que pode afetar tudo, inclusive as artes. Fiquemos atentos para o que está por vir...

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Mello em "Meu Nome não é Johnny"; mais de 2 milhões de espectadores é pouco para ator
Mello em "Meu Nome não é Johnny"; mais de 2 milhões de espectadores é pouco para ator


Folha Online - Quanto à meia-entrada, você é a favor de algum tipo de restrição em relação ao benefício?

Mello - Sinceramente, acho que a meia-entrada deveria ser revista. Os valores aumentaram depois que isso virou lei. E se formou um sistema vicioso: quem não é estudante não consome cultura tanto quanto gostaria. E qual foi a solução, para parte desse grupo? Falsificar carteirinha. Isso, para ter acesso a uma coisa que poderia pagar, se fosse mais barato. Mas, se for mais barato, nada de lucro para as empresas (porque tem a meia-entrada). Loucura, não? Tostines vende mais por que? Mas uma coisa é certa, os ingressos de cinema são muito caros e afastam o publico. "Meu Nome não é Johnny" é o grande sucesso do ano, com 2,5 milhões de espectadores. Muito? Acho pouco. Se custasse mais barato faríamos 12 milhões de espectadores. Alguma coisa tem que ser revista.

Folha Online - E a pirataria? Qual é a sua posição a respeito?

Mello - Tem a ver c a resposta anterior. Sendo mais barato, ninguém precisaria de ver um filme com a qualidade debilitada.

Folha Online - Quanto à nudez, por quê você acha que o filme gerou tal polêmica? A discussão já está resolvida?

Mello - Não sei o motivo da polêmica, meu nome e meu filme não foram citados diretamente. Foi tudo uma série de suposições.E não me interesso por suposições, e sim por cinema como uma forma de poesia. Mas penso que esse assunto é passado, assim como o a morte de Kennedy e o desaparecimento do menino Carlinhos (risos).

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