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Curvados ao peso das roupas pesadas e do cansaço, escuros como troncos, três caçadores avançam afundando na neve, a caminho de casa.
O primeiro traz uma fieira de pássaros atados à cintura. Uma lebre desponta do bornal do segundo. Mas é o terceiro que traz pendente do ombro a caça mais rica, raposa vermelha que lhe incendeia as costas como uma labareda e com sua cauda morta traça um rastro no chão.
Outro rastro se desenha sobre a neve, de sangue. A mão do caçador está ferida, e goteja. No lago gelado abaixo da encosta, crianças brincam. Um tordo canta sobre um galho anunciando a chegada dos homens. Na aldeia, três portas se abrem para recebê-los.
- Aqui está, mulher - diz o homem da mão ferida, descarregando a raposa sobre a grande mesa da cozinha. - Carne por um bom tempo, e pele para nos aquecer.
Dura e longa foi a caçada nesse frio, floresta adentro, até encontrar um casal de raposas. Assim ele conta para a mulher.
- O macho é esse aí - pega a faca para começar a esfola. - A fêmea estava prenhe, deixei.
- E isso na tua mão?
- Foi ela que me mordeu.
A mulher enfaixa a mão num pano branco, logo manchado. E nos muitos dias que se seguem, lava a ferida com chás de ervas, tenta curá-la com emplastros de miolo de pão e teias de aranha. Mas nada aproxima um lado do talho ao outro lado. A ferida continua aberta e sangra.
Lá fora, a paisagem vai mudar nos meses seguintes. O lago irá beber sua casca de gelo, a neve se fará fina até deslizar em regatos, as nuvens se abrirão rendadas deixando penetrar o sol. O inverno passará adiante em busca de outras terras para esfriar.
E agora é primavera, e o tordo canta porque o caçador da mão ferida está saindo de casa a caminho da floresta.
Outra é a floresta quando a grama nasce e os galhos abrem suas brotações. O silêncio imposto pela neve foi substituído por tantos pequenos ruídos e tudo parece mover-se, asas, patas, folhas, talos, tocados pela luz e não por vento.
É nessa floresta, tão diferente daquela mesma que percorreu açoitado pelo frio, que o caçador avança devagar, quase farejando. Atento, pronto a reagir a qualquer presença, depara-se com uma trilha em que nunca havia reparado antes ou que nunca havia visto. E a segue.
A trilha parece recente, serpenteia entre as árvores. Logo, de tanto serpentear, o homem já não sabe ao certo onde se encontra. Sabe que quer tirar a jaqueta porque está com calor. E que tem sede.
Algumas voltas a mais, uma moita de arbustos altos. A trilha acaba atrás dela, tão súbita como começou, deixando o homem diante de uma casa pequena, quase uma cabana. À porta, uma mulher varre. É jovem, ruiva, e não se assusta quando ele chega.
- Bons ventos me trazem - diz o homem em saudação. Tira o chapéu, tenta um meio sorriso, diz que se perdeu, faz calor, e tem sede.
Poderia ela dar-lhe água?
A mulher encosta a vassoura, limpa as mãos no avental e, sem responder, entra na casa. Volta trazendo água num prato fundo.
Tão pobrezinha que nem copo tem, pensa o homem. E bebe sentindo nos lábios o frescor da louça.
- Quer mais? - pergunta ela. Os olhos sorriem.
- Não, obrigado.
O homem enxuga a boca com a mão enfaixada.
A mulher diz que ele deve estar cansado. E ele está. Diz que deve estar com fome. E ele está. Convida-o a entrar, comer alguma coisa. E ele entra.
Lá dentro, seis crianças pequenas, da mesma idade, estão sentadas ao longo da mesa, comendo. Seis cabecinhas ruivas se voltam para ele. O homem acaricia a mais próxima.
É nesse gesto, como se o completasse, que a mulher se achega. Colhe a mão, desfaz a atadura e docemente, muito docemente, começa a lamber a ferida.
Sobre o talho que aos poucos se fecha, pêlos vermelhos despontam e, como um arrepio que percorre o corpo, se alastram braço acima, tomam o peito, invadem toda a pele.
Ao redor da mesa, seis cabecinhas se debruçam sobre a comida, seis bocas pequenas voltam a mastigar sua carne crua.
Um dia de ausência não é coisa que surpreenda, na aldeia do homem. Nem dois dias, nem três. Mas passada uma semana sem que ele regresse, seus dois companheiros partem à procura.
Não precisam de trilha. No chão, o gotejar do sangue deixou rastro. Um rastro que serpenteia entre árvores, e que os leva até uma alta moita de arbustos. Atrás da moita, os dois companheiros de caçada deparam-se com uma cova escavada entre velhos troncos. Na cova, um casal de raposas defende seus seis filhotes.
"23 Histórias de um Viajante"
Autor: Marina Colasanti
Editora: Global
Páginas: 224
Quanto: R$ 49
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha