
| Divulgação |
|
| Capa do livro "Chico Buarque", de Fernando de Barros e Silva |
*
"NEM TODA A LOUCURA É GENIAL"
Com um grão de sal, pode-se afirmar que Roda Viva é o momento tropicalista na carreira de Chico Buarque. Tal como foi encenada, a peça acabou sendo muito mais uma obra de José Celso Martinez Corrêa e do Teatro Oficina do que de seu autor. Chico, porém, deu sua chancela - acompanhou todo o processo e não desaprovou o resultado. A ele interessava de alguma maneira ver seu nome ligado à selvageria cênica que resultou da montagem. Funcionava um pouco para confundir a imagem apolínea, de bom moço e jovem gênio, que havia cristalizado em torno de si sobretudo depois do sucesso de "A Banda". "Antes que brigassem com o Chico, já briguei com ele", disse mais tarde, numa entrevista do início dos anos 70.
Extraído de sua experiência pessoal recente na forma de uma paródia farsesca, o tema da peça não poderia estar mais próximo do universo pop ao qual o tropicalismo se filiava: a impostura envolvendo a trajetória de um ídolo da música popular, desde a sua ascensão até seu aniquilamento pelas mesmas engrenagens do showbiz que o tinham fabricado. O próprio Chico reconheceria que o texto, escrito em 25 dias no final de 1967, era frágil e trazia as marcas de um desabafo juvenil. A consciência de que talvez não tivesse uma peça capaz de andar pelas próprias pernas, mas no máximo um roteiro, o fez concluir pelo risco que representava a parceria com Zé Celso. Dito e feito.
Levando adiante a guinada que dera no ano anterior com a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, o diretor do Oficina fez de Roda Viva um espetáculo antes violento e anárquico do que propriamente político. O texto da peça, alterado sem pudores, passava a ser quase um pretexto e apenas um elemento entre tantos outros mobilizados com a finalidade de desconcertar e incomodar, no limite da violência física, o público. "Você já matou seu comunista hoje?", interrogavam os atores dirigindo-se a qualquer um das cadeiras, escolhido aleatoriamente.
Ficou famosa a cena em que os integrantes do coro do espetáculo, no papel de fãs em transe, simulavam a devoração do corpo do cantor despedaçando um fígado de boi cru, fazendo freqüentemente com que o sangue respingasse sobre a platéia. Entre as outras muitas provocações e deboches havia ainda uma cena em que Nossa Senhora rebolava de biquíni em frente a uma câmera de TV, enquanto esta simulava movimentos fálicos de ir e vir.
Depois de ter estreado em janeiro no Rio, o espetáculo fazia temporada em São Paulo quando foi vítima de um ataque do CCC - o Comando de Caça aos Comunistas. Na noite de 17 de junho de 1968, um grupo invadiu o Teatro Galpão e esperou o público se retirar para destruir os cenários e espancar os atores nos camarins. Não ficou por aí. Em Porto Alegre, no dia seguinte à estréia, em 3 de outubro, agentes da repressão invadiram o hotel onde o grupo Oficina estava hospedado e seqüestraram dois atores, abandonando-os no mato, na periferia da cidade. A trajetória da peça terminaria assim, com todos os atores retirados do hotel e embarcados de volta para São Paulo. Tais fatos, que já prenunciavam o terror do AI-5, contribuíram para deixar Roda Viva inscrita na história do país.
É curioso que tanto a direita como a esquerda se empenharam em salvar Chico de sua própria obra - o que não deixava de ser um desdobramento involuntário dela mesma para além do palco. Enquanto Nelson Rodrigues vinculava em suas crônicas "o verdadeiro Chico" ao lirismo de "A Banda", a intelectualidade engajada atribuía exclusivamente ao diretor os excessos de deboche, os ápices de violência e a opção irracionalista.32 A mídia, no entanto, não perdeu a oportunidade. Uma reportagem da época perguntava: "Chico Buarque: Anjo ou Demônio?". E o crítico do Jornal do Brasil afirmava logo após a estréia carioca: "Nunca vi um público mais desorientado e perdido que o fã-clube de Chico Buarque de Hollanda, que lotava completamente o teatro Princesa Isabel".
Caetano Veloso é preciso ao observar que Zé Celso, "mais identificado com o artista pop que o texto criticava do que com a crítica que o texto lhe fazia, mas, ao mesmo tempo, levando essa crítica aos seus extremos, fazia da peça de Chico Buarque ela própria um ritual pop e uma oportunidade de revelar os conteúdos inconscientes do imaginário brasileiro - e do Zeitgeist".
Estando no centro de um curto-circuito que envolvia o que de mais vivo havia na cultura brasileira, Roda Viva representou tanto um encontro como a contraprova da distância entre Chico e os tropicalistas. O que para o primeiro havia sido concebido como uma discussão dos aspectos kafkianos do showbiz e suas conseqüências, para os tropicalistas representava uma espécie de happening, um terreno a ser explorado, que eles deveriam não apenas incorporar como tema de suas canções, mas vivenciar por dentro.
"Folha Explica Chico Buarque"
Autor: Fernando de Barros e Silva
Editora: Publifolha
Páginas: 184
Quanto: R$ 22,00
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha