
| David Michalek/Reprodução |
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| O crítico musical e escritor norte-americano Alex Ross, que participa da Flip 2009 |
Alex Ross parte 1
Folha Online - O senhor acredita que teve sucesso nessa empreitada?
Ross - Acho que sim, tive algumas respostas interessantes de leitores. O que eu mais gosto de ouvir é que alguém que tinha muito pouco contato com música clássica pegou o livro e conseguiu ler, entender, foi absorvido pela narrativa e, depois de terminar, começou a colecionar alguns livros, a ir a alguns concertos e ficou absorvido pela música em si. Isso é simplesmente fantástico, e em última instância eu não me preocupo se as pessoas leem todas as páginas do livro, eu quero mesmo é que as pessoas se animem com a música, pois acho que o público poderia ser muito maior. Há tantas pessoas com as quais cresci, com que fui educado, pessoas da minha geração que entendem de literatura, de artes visuais, de filmes, de história, mas que sabem tão pouco de música clássica --e a música deveria ser parte da educação de todo mundo, do dia a dia de todo mundo.
Folha Online - Como o senhor se tornou crítico musical?
Ross - Na verdade foi um pouco por acidente. Eu nunca tive o sonho de me tornar um crítico, não acho que muitas pessoas sonhem com isso. Mas quando percebi que não tinha talento para compor, percebi que aquilo não tinha futuro, e imaginei que me tornaria professor. Eu me formei em literatura inglesa na faculdade, e planejava estudar as relações entre música e literatura. Depois da faculdade escrevi alguns artigos para revistas, e isso era muito bom, mas não era algo que, na minha cabeça, pudesse se transformar em uma carreira - afinal, poucas pessoas conseguem fazer uma carreira como críticos musicais. Mas o que aconteceu foi que o jornal "The New York Times" me ligou um dia e me perguntou se eu teria interesse em me tornar o mais novo crítico lá. Foi a primeira vez que me ocorreu que eu poderia ganhar a vida com a minha crítica! Depois de alguma hesitação eu aceitei, e é o que eu tenho feito desde então.
Folha Online - O senhor também mantém um blog que tem o mesmo nome do livro, "O Resto é Ruído". Como vê o papel dessas novas mídias para a construção da informação?
Ross - Acho que a internet assumiu um papel tão grande na vida das pessoas, então não há razão para que a música clássica não faça parte deles. O blog também foi algo que aconteceu meio acidentalmente: eu comecei o site com a ideia de ter algum material extra relacionado ao livro quando este saísse, e eu também o utilizei como arquivo para meus artigos da "The New Yorker". Mas eu também me senti tentado a começar a escrever algum material novo em pequenos "posts", e isso acabou adquirindo vida própria, e eu me vi escrevendo quase que diariamente! Recentemente tive que diminuir o ritmo, porque era coisa demais, escrever um blog, as colunas e um livro, tudo ao mesmo tempo --e as colunas é que realmente pagam as contas, então são a coisa mais importante! Mas é muito interessante como há coisas interessante, há vários blogs de música clássica agora, alguns escritos por críticos ou amantes de música, outros por músicos, maestros, compositores, administradores. Assim, há blogs para ver todos os lados do negócio musical, para fazer o ouvinte casula ver as vozes humanas, os sentimentos por trás de fazer música-- uma atividade que pode parecer remota e exotérica na cultura de hoje. Então acho que os blogs ajudam a humanizar a música clássica. Há também a possibilidade de colocar música na internet, criar páginas com amostras de músicas, amostras de áudio para completar os diferentes capítulos do meu livro, e isso é algo que não se podia fazer antes e que é extremamente valioso. E, claro, temos transmissões ao vivo, eu coloco vídeos de músicos e de organizações de todo o mundo. Há coisas demais espalhadas por aí para que se possa ver e acompanhar, é incrível a quantidade de informação que há na internet. Mas acho que isso realmente ajudou a reposicionar a música clássica, fazendo-a parecer menos intimidadora, menos remota.
Alex Ross segunda parte
Folha Onlilne - O senhor acredita que o fato de o jornal "The New York Times", para o qual o senhor já escreveu, ter se tornado uma plataforma aberta de conteúdos é um indicador de que as mídias estão irreversivelmente se transformando?
Ross - Acredito que sim. O "New York Times" foi uma organização que disponibilizou todo o seu conteúdo na internet, e que agora existe tanto on-line como fisicamente, talvez até mais on-line, com os vídeos e etc. "The New Yorker", para a qual eu escrevo agora, tem alguns de seus conteúdos na internet, alguns artigos. Mas muito disso não está disponível e só pode ser lido por aqueles que tiverem a revista. Eu não sou nenhum especialista no funcionamento da mídia, no seu avanço na época da internet, mas acho que é sábio, no nosso caso, estar envolvido com a internet mas não ter tudo disponível. Porque se você dá tudo de graça, chega um ponto em que as pessoas vão parar de assinar a revista e a circulação vai começar a cair. É o que aconteceu com alguns jornais que disponibilizaram todo o seu conteúdo. Acho que os jornais estão revendo essa filosofia e contemplando a possibilidade de limitar o acesso cobrando pelos artigos. Fico feliz que na "The New Yorker" tenhamos sempre seguido a política de não entregar tudo gratuitamente, pois isso pode ser arriscado e talvez tenha trazido um bocado de prejuízo a longo prazo, já que todo mundo lucrou com sua parcela de informação.
Folha Online - Para o senhor, qual é o papel da música clássica num mundo de celebridades instantâneas e reality shows?
Ross - Uma das coisas mais surpreendentes da música clássica é que tenha persistido por tanto tempo, que tenha mantido sua tradição ininterruptamente por m,ais de mil anos. Sobreviveu uma série de catástrofes: a peste negra, a guerra dos 30 anos, as duas guerras mundiais, o holocausto. Ela mostrou uma resistência extraordinária e se transformou mantendo sua aparência, a sua forma, resistiu às mudanças ao longo do tempo. Acho que a música clássica está perfeitamente posicionada para prosperar, se não para se tornar imensamente popular na nossa cultura. Porque é uma cultura que oferece muitos contrastes: somos diariamente bombardeados por informação, temos celulares, e-mails, vídeos, somos instantaneamente atualizados pelo Twitter e todas essas coisas. Mas você entra em uma sala de concertos e de repente tudo aquilo se torna muito remoto, você está em um outro universo muito distante no qual a música se move em uma cadência completamente diferente --muitas vezes os clássico num concerto começam lentamente, a música emerge do silêncio. Acho que isso é uma qualidade muito preciosa, é quase uma força espiritual que a música clássica possui na sociedade. Acho que cada vez mais pessoas vão se voltar para isso simplesmente porque oferece uma possibilidade tão diferente, um tempo tão diferente das suas vidas cotidianas. Acho que esse ritmo não vai desaparecer, muito pelo contrário, ele perdurará.
Alex Ross terceira parte
Folha Online - O senhor se preocupou com a qualidade literária dos seus livros?
Ross - Ah sim, eu o revisei muitas e muitas vezes! Quando eu escrevo meus artigos para a revista, eles são muito curtos comparados ao livro e eu sempre tenho tempo de voltar e polir a escrita diversas vezes. Com o livro isso é muito mais difícil de fazer, você tem que colocar uma frase depois da outra, e se tentar trabalhar cada uma até a perfeição você não chega a lugar nenhum. Então, quando eu olho para o livro agora fico um pouco ansioso, não acho que algumas coisas estão tão boas ou tão graciosas como gostaria. Mas livros são sobre contar histórias, e para contar uma história às vezes você tem que falar numa linguagem mais crua e simplesmente dizer o que acontece de um jeito muito direto. Tento alternar passagens mais expositivas com trechos mais diretos com passagens um pouco mais poéticas, nas quais tento exercitar uma veia um pouco mais literária. Mas espero que atinja uma certa qualidade de estilo, pois é algo com que eu me preocupo muito profundamente como escritor, e sempre me inspiro naqueles escritores que são maravilhosos narradores, e que fazem da linguagem um certo tipo de música.
Folha Online - Como o senhor recebeu o convite para a Flip, e por que decidiu aceitá-lo?
Ross - Eu recebi um e-mail um dia e fiquei terrivelmente animado, porque parece ser um lugar maravilhoso. Eu fiz uma curta visita ao Brasil há muitos anos, mas de jeito nenhum por tempo o suficiente para conhecer o país. Eu fui apenas para Salvador, na Bahia, por alguns dias. Estava escrevendo um artigo sobre a cantora e compositora Björk, que me fascina muito. Eu queria voltar, não hesitei nada. Quero conhecer mais o Brasil e conhecer os outros autores do festival, ouvir o que eles têm a dizer. Viajar dessa forma é tremendamente enriquecedor, de formas que a gente nunca espera. Estou realmente muito ansioso.
Folha Online - Quais são as suas expectativas?
Ross - Eu não tenho muitas, para falar a verdade! Apenas espero poder falar sobre o meu livro que uma forma que as pessoas achem interessante e animadora. No mais, só quero sentar e aproveitar a atmosfera, ouvir os outros escritores e vivenciar o que parece ser uma incrível cidade.
Folha Online - O que você diria aos pais que querem interessar seus filhos em música?
Ross - Acho que deveriam incentivar seus filhos a ouvir tipos diferentes de música, mas sem forçá-los caso eles não queiram. Descubram do que eles gostam: gostam de Mozart? De Gustav Mahler? De Stravinsky? E, se tiver a oportunidade de levar seus filhos para um concerto ao vivo, acho que isso é muito mais interessante do que ouvir uma gravação. Não importa quão bonito um disco seja, ver os músicos tocando e ver suas ações, os movimentos que fazem para produzir aqueles sons incrivelmente complicados, e sentir a beleza e o poder do som ao vivo... Acho que é muito impressionante. Pode parecer muito simples, mas quando uma orquestra está tocando em volume máximo no final de uma sinfonia de Mahler (1860-1911), é um som muito alto, mas é um volume que é atingido sem amplificação, é o total do trabalho que as pessoas fazem com seus instrumentos. Eu me lembro que, quando tinha dez anos, me levaram para assistir a segunda sinfonia de Mahler, a "Ressurreição". Eu me lembro de ter ficado tão impressionado pelo volume e riqueza do som, todas as suas texturas diferentes, a forma como todos esses sons se alinhavam lado a lado e a sensação de que Mahler havia criado esse imenso mundo musical que era quase um substituto para uma paisagem natural. Então acho que se você consegue achar esse tipo de concerto e levar seus filhos, talvez você não precise fazer mais nada depois disso, se você conseguir encontrar a experiência correta. E, claro, tocar um instrumento ajuda imensamente a se apaixonar pela música. Sentir o que é, sentir a alegria de dominar um instrumento de alguma forma, ajuda a criar ouvintes para a vida inteira, não importando se eles terão carreiras como músicos.
Alex Ross parte 4
Folha Online - O senhor ainda toca?
Ross - Na verdade, não! Eu não tenho mais um piano. Às vezes consigo tocar pianos de outras pessoas, e eu sempre me divirto com isso, mas na maior parte das vezes eu me contento em ser um ouvinte e deixar que os especialistas toquem... Mas algum dia eu quero ter uma casa que seja grande o suficiente para um piano --o que é algo bem difícil em Nova York!
Folha Online - O senhor gosta de alguma coisa em particular na música brasileira?
Ross - Eu ouço bastante música brasileira, me interesso e espero poder comprar alguns discos durante a viagem. Gosto de [Heitor] Villa-Lobos (1887-1959), [Mozart] Camargo Guarnieri (1907-1993)... Há muitos compositores brasileiros avant-garde aqui em Nova York, como Felipe Lara... E claro que sou enfeitiçado pelo som sofisticado da música popular brasileira. Sou um grande fã de Caetano Veloso, João Gilberto... São parte de um grupo maravilhoso de músicos. Recentemente tenho ouvido muito Pixinguinha (1897-1973), um músico fantástico do início do século 20 que parece misturar elementos populares e clássicos, o que é uma coisa que eu encontro com certa frequência na música brasileira. É muito saudável, é maravilhoso ver músicos clássicos e populares falarem quase a mesma língua, acho que coisas grandiosas podem ser esperadas nessas composições.