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Quarta-feira, 25 de NOVEMBRO de 2009

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03/11/2009 - 17h00

Há 55 anos morria o pintor francês Henri Matisse, líder do fauvismo

Divulgação
Henri Matisse
O francês Henri Matisse foi o grande revolucionário das cores na pintura


No dia 3 de novembro de 1954, aos 84 anos, morria o pintor francês Henri Matisse. Contemporâneo de Pablo Picasso, o artista era a expressão maior do fauvismo --de "fauves" (feras em francês)--, movimento artístico nascido em Paris por volta de 1905.

Considerado "o rei das feras", Matisse foi o grande revolucionário das cores na pintura. Ele utilizava tons fortes e ousados e era um dos únicos pintores modernos alegres, ao lado de Miró e Calder. Em seus quadros, as cores não eram mero instrumento de realidade, elas iam muito além, construindo mundos cheios de novos sentidos.

Organizado por Dominique Fourcade, o volume "Matisse" discute algumas das questões fundamentais da pintura do artista, como o conflito entre o desenho e a cor, e traz escritos, entrevistas e relatos de conversas que mostram como ele contribuiu para o desenvolvimento dos meios de expressão plástica.

Ainda apresenta ilustrações de obras do artista, além de um ensaio fotográfico realizado por Henri Cartier-Bresson.

A seguir, leia trechos do livro escritos pelo próprio a respeito do modernismo e da cor:

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"Matisse: Escritos e Reflexões sobre Arte" traz depoimentos do pintor
"Matisse: Escritos e Reflexões sobre Arte" traz relatos do pintor


Modernismo e tradição

É inegável que nestes últimos cinquenta anos Paris tem sido o centro de todas as iniciativas artísticas importantes. Nos demais lugares, os artistas se contentam em seguir a via aberta por outros, ao passo que em Paris há o espírito aventureiro e a coragem indispensáveis a todo trabalho de criação, o que faz dessa cidade um centro artístico.

Quando comecei a pintar, não estávamos em desacordo com nossos mestres e apresentávamos nossas opiniões com vagar e prudência. Os impressionistas eram os guias reconhecidos e os pós-impressionistas seguiam suas pegadas. Nós, os pintores jovens, percorríamos a rua Laffitte olhando as galerias que mostravam seus quadros, e ao trabalharmos eles estavam presentes em nossa mente. Quanto a mim, tenho saído da Escola de Belas-Artes, passava o tempo fazendo cópias no Louvre, submetendo-me à influência de mestres incontestáveis como Rafael, Poussin, Chardin e os flamengos. Eu sentia que os métodos dos impressionistas não me serviam. Queria enxergar além de suas sutis gradações de tons e de suas contínuas experimentações. Em suma, queria compreender a mim mesmo. Na saída do Louvre, atravessando o Sena pela ponte des Arts, eu via outros temas para minha arte.

"Então, o que é que você procura?", perguntou-me um dia meu mestre Gustave Moreau. "Alguma coisa que não está no Louvre, mas ali", respondi apontando as barcaças do Sena. "Você acha que os mestres do Louvre não as viram?", replicou Gustava Moreau. De fato, o que eu via no Louvre não atuava de modo direto sobre mim. Eu me sentia como numa biblioteca com as obras do passado, e queria criar alguma coisa a partir de minha experiência pessoal. Assim, comecei a trabalhar sozinho.

Foi então que conheci um rapaz alto e magro, que depois adquiriu uma gordura respeitável: era Derain. Moramos algum tempo juntos em Collioure, onde trabalhamos sem descanso, igualmente estimulados: os métodos empregados na pintura pelos mais velhos eram totalmente inadequados para transmitir a verdadeira representação de nossas sensações; portanto, fomos procurar novos métodos. De resto, cada nova geração sente essa necessidade. É verdade que naquela época o campo de ação era maior do que hoje, e não se tinha a tradição em conceito muito elevado (por ter sido tão longamente respeitada).

A simplificação da forma, sua redução a contornos geométricos fundamentais, que tinha seu defensor em Seurat, era a grande inovação daquela época. Essa nova técnica me causou uma profunda impressão: finalmente a pintura fora conduzida a uma fórmula científica; rompia-se com o empirismo anterior. Fiquei tão interessado nesse método extraordinário que estudei o pós-impressionismo, mas na verdade eu sabia muito bem que uma obra executada segundo os procedimentos desse método era limitada pela excessiva adesão a regras estritamente lógicas. Meu grupo conhecia esse sentimento. Diante de uma rela que eu acabava de concluir, Cross me disse: "Você não ficará muito tempo conosco".

Num quadro pós-impressionista, o tema ganha relevo por uma série de planos contrastantes que permanecem sempre secundários. Para mim, o tema e o fundo de um quadro têm o mesmo valor, ou, dizendo mais claramente, nenhum ponto é mais importante do que outro, e a única coisa que conta é a composição, o padrão geral. O quadro é constituído pela combinação de superfícies diferentemente coloridas, combinação esta que resulta na criação de uma expressão. Assim como numa harmonia musical cada nota é uma parte do todo, eu também queria que cada cor tivesse um valor contributativo. Um quadro é a coordenação de ritmos controlados, e é por isso que se pode transformar uma superfície que parece vermelha-verde-azul-preta em outra que parece branca-azul-vermelha-verde, é o mesmo quadro, a mesma sensação apresentada de maneira diferente, mas os ritmos mudaram. A diferença entre as duas telas é a mesma que existe entre dois aspectos de um tabuleiro durante uma partida de xadrez. A aparência do tabuleiro durante muda continuamente no decorrer do jogo, mas o objetivo dos jogadores que movem as peças continua o mesmo.

Então decidi afastar qualquer preocupação de verossimilhança. Copiar um objeto não me interessava. Por que eu retrataria o aspecto exterior de uma maçã, mesmo com a maior exatidão possível? Qual era o interesse de copiar um objeto que a natureza fornece em uma quantidade ilimitada e que sempre pode ser concebido com maior beleza? O que importa é a relação do objeto com o artista, com sua personalidade, e o poder que ele tem de organizar suas sensações e emoções.

Tenho grande amor pela cor pura, clara, brilhante, e sempre fico surpreso ao ver belas cores sujas e desbotadas sem necessidade.

Uma grande conquista moderna foi a descoberta do segredo da expressão por meio da cor, à qual se somou, com o chamado fauvismo e os movimentos que se sucederam a ele, a expressão por meio do desenho; o contorno, as linhas e sua direção. Em suma, a tradição foi prolongada por novos meios de expressão e enriquecida o máximo possível nessa direção.

Seria um engano pensar que houve uma ruptura na continuidade do desenvolvimento artístico desde o começo da pintura até os pintores contemporâneos. Abandonando a tradição, o artista conhecerá apenas um sucesso efêmero e seu nome logo será esquecido.

Hoje, parece-me que vivemos num período de fermentação que promete produzir obras importantes e duradouras. Mas, se não me engano, apenas a forma plástica tem um verdadeiro valor, e sempre considerei que grande parte da beleza de um quadro provém da luta entre o artista e seu limitado meio de expressão.

Um último comentário sobre o nome "fauvismo", que tanto tem intrigado e que suscitou tantos comentários mais ou menos apropriados. O autor da expressão foi o crítico de arte Louis Vauxcelles, que, entrando numa das salas do Salão de Outono, onde entre as telas dessa geração estava exposta um estátua ao estilo do Renascimento italiano -a obra do escultor Marque--, exclamou: "Vejam só. Donatello entre as feras (fauves)!". Isso mostra que não se deve atribuir grande importância às características que qualificam e distinguem tal ou tal escola, as quais, apesar de sua comodidade, limitam a vida de um movimento e operam contra o reconhecimento do indivíduo.

(...)

O caminho da cor

A cor existe em si mesma, possui uma beleza própria. Foram as estampas japonesas que comprávamos por alguns tostões na rua de Seine que nos revelaram isso. Então entendi que era possível trabalhar com cores expressivas que não são obrigatoriamente cores descritivas. Decerto, os originais eram decepcionantes. Mas a eloquencia não é ainda mais poderosa, mais direto, quando os meios são mais grosseiros? Van Gogh também era um fervoroso admirador das estampas.

Tendo as estampas japonesas desobstruído, limpado meu olhar, eu estava em condições de verdadeiramente receber as cores em função de seu poder emotivo. Se admirava instintivamente os primitivos do Louvre, e depois a arte oriental, sobretudo na extraordinária exposição de Munique, era porque via aí mais uma confirmação. As miniaturas presas, por exemplo, me mostravam toda a possibilidade de minhas sensações. Podia reencontrar na natureza a maneira como elas devem brotar. Com seus acessórios, essa arte sugere um espaço mais amplo, um verdadeiro espaço plástico. Isso me ajudou a sair da pintura intimista.

A revelação, portanto, veio do Oriente. Foi mais tarde que essa arte me tocou e compreendi a pintura bizantina, diante dos ícones em Moscou. A gente se entrega melhor quando vê os esforços confirmados por uma tradição, por antiga que seja. Ela ajuda a saltar o fosso.

Era preciso sair da imitação, mesmo da luz. Pode-se criar luz com a invenção de camadas de cores lisas, como se faz com os acordes em música. Usei a cor como meio de expressão de minha emoção, e não de transcrição da natureza. Utilizo as cores mais simples. Não sou eu quem as transformo, são as relações que se encarregam disso. Trata-se apenas de valorizar diferenças, de apontá-las. Nada impede compor com algumas cores, assim como a música que é construída tão-somente sobre sete notas.

Basta inventar signos. "Quando se possui um autêntico sentimento da natureza, pode-se criar signos que sejam equivalentes entre o artista e o espectador.

Nos primeiros balés russos, Bakst empregava as cores a rodo. Era magnífico, mas sem expressão. A única vantagem que resultou daquilo foi que a partir de então a cor adquiriu direito de cidadania por toda parte, até nas grandes lojas de departamento.

Essa escolha, nós a fizemos a despeito de nós. Era impossível escapar a ela, era uma fatalidade. Isso porque ela representa profundamente o espírito de uma época. Mas não precisamos nos entrincheirar nela: hoje é preciso prosseguir, ir mais longe.

Notas sobre a cor

Em pintura, as cores só mantêm seu poder e eloquencia se empregadas em estado puro, quando seu brilho e pureza não foram alterados, reduzidos por misturas adversas à sua natureza (o azul e o amarelo, que formam o verde fabricado pela indústria, assim como, para o alaranjado, a mistura do vermelho e do amarelo resulta apenas num tom sem pureza nem vibração). É evidente que as cores empregadas em estado puro ou graduadas com o branco podem render mais do que sensações retinianas: elas ganham com a riqueza mental de quem lhes dá a vida.

As cores podem ser multiplicadas pelo branco nas gradações ou quando adicionadas ao preto. Que diferença entre um preto tingido de azul-da-prússia e um preto tingido de azul-ultramar! O preto com o azul-ultramar tem o calor das noites tropicais; o tingido com azul-da-prússia, o frio das geleiras...

Assim como a modificação da expressão musical pode provir de algo ínfimo -entre os tons maiores e os tons menores há tanta diferença quanto entre o sol e a sombra--, da mesma forma, para a cor, a diminuição, num acorde de várias.

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"Matisse: Escritos e Reflexões sobre Arte"
Autor: Henri Matisse
Editora: Cosac Naify
Páginas: 400
Quanto: R$ 130,00
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

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