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O Muro de Berlim, 20 anos depois, pelo filósofo Slavoj Zizek
O 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro, deveria ser um momento de reflexão.
Tornou-se um lugar comum enfatizar a natureza "miraculosa" dos acontecimentos de duas décadas atrás: eram como um sonho realizado, como se algo inimaginável tivesse acontecido, algo que não se poderia considerar possível nem mesmo dois meses antes --eleições livres, a desintegração dos regimes comunistas que caíram como castelos de cartas.
Quem, na Polônia, teria imaginado eleições livres com Lech Walesa como presidente?
No entanto a esse devemos acrescentar um "milagre" ainda maior, acontecido apenas dois anos mais tarde: o retorno dos ex-comunistas ao poder por meio de eleições livres e democráticas, Walesa completamente marginalizado e ostentando popularidade muito inferior à do general Wojcieh Jaruzelski, que uma década e meia antes havia esmagado o Solidariedade por meio de um golpe militar.
A explicação padrão para essa segunda reviravolta evoca as expectativas "imaturas" de povos que simplesmente não tinham uma imagem realista do capitalismo: queriam os benefícios do mercado, mas a proteção de um sistema fechado, a liberdade e abundância material do capitalismo democrático sem pagar o preço da vida em uma "sociedade de risco" --ou seja, sem abrir mão da segurança e da (precária) estabilidade garantida pelos regimes comunistas.
Como muitos comentaristas ocidentais sarcásticos apontaram na época, a realidade da nobre luta pela liberdade e justiça se transformou em uma simples mania de bananas e pornografia.
Na manhã seguinte ao entusiasmo despertado pela embriaguez da vitória, as pessoas tinham de encarar a ressaca e passar pelo doloroso processo de aprender as regras de uma nova realidade, isto é, o preço que é preciso pagar pela liberdade política e a econômica.
Quando a inevitável decepção se instalou entre elas, deu origem a três reações (ocasionalmente opostas, ocasionalmente sobrepostas): (1) nostalgia pelos "velhos e bons" tempos do comunismo; (2) populismo nacionalista de direita; (3) uma renovação "tardia" da paranoia anticomunista.
As duas primeiras reações são fáceis de compreender. A nostalgia pelo comunismo não deve ser levada a sério: longe de expressar desejo real de retorno à cinzenta realidade do socialismo, ela representa uma forma de luto, de abandono gentil do passado.
A ascensão do populismo de direita não é especialidade da Europa oriental, mas traço comum a todos os países apanhados no vórtice da globalização. O mais interessante é o ressurgimento do anticomunismo, quase duas décadas mais tarde; ele oferece uma resposta simples è pergunta "se o capitalismo é tão melhor que o socialismo, por que nossas vidas continuam miseráveis?"
Isso acontece porque não vivemos realmente no capitalismo; os comunistas continuam a governar, disfarçados agora como proprietários e executivos de empresas.
É um fato evidente que, quando as pessoas protestavam contra os regimes comunistas na Europa oriental, a vasta maioria delas não estava pedindo capitalismo.
Queriam solidariedade e uma forma rápida de justiça; queriam a liberdade de viver sem o controle do Estado, de se reunir e conversar o que preferissem; queriam uma vida de honestidade e sinceridade, liberada de doutrinação ideológica primitiva e da hipocrisia cínica então prevalecente.
Como muitos observadores perspicazes perceberam, os ideais que orientavam os manifestantes eram em larga medida extraídas da ideologia socialista dominante --as pessoas aspiravam a algo que pode ser mais adequadamente descrito como "um socialismo com face humana".
Mas será que o realismo capitalista é de fato a única resposta à utopia socialista? Será que aquilo que se seguiu à queda do Muro foi de fato a era da maturidade capitalista, que deixou para trás todas as utopias? E se essa era mesma dependesse de uma utopia que lhe é própria? O 9 de novembro de 1989 anunciou "a feliz década de 90", a utopia do "fim da história" proposta por Francis Fukuyama, a crença de que a democracia liberal havia, em princípio, vencido, que a busca estava encerrada, que o advento de uma comunidade mundial liberal e globalizada estava a caminho, e que os obstáculos a esse final feliz muito hollywoodiano eram simplesmente empíricos e contingentes (bolsões locais de resistência nos quais os líderes ainda não tivessem percebido que sua era havia chegado ao fim).
Em contraste, o 11 de Setembro é o principal símbolo do final dos felizes anos 90 de Clinton e sinaliza uma era incipiente que em muralhas recomeçam a emergir em toda parte --entre Israel e a Cisjordânia, em torno da União Europeia, na fronteira entre os Estados Unidos e o México--, mas também no interior dos Estados.
Ao que parece, portanto, a utopia de Fukuyama que prevaleceu nos anos 90 tinha de morrer duas vezes: o colapso da utopia liberal-democrata no 11 de Setembro não afetou a utopia econômica do capitalismo mundial de mercado.
E se o colapso financeiro de 2008 tem significado histórico, é como sinal de que o aspecto econômico da utopia de Fukuyama também acabou.
Embora o liberalismo se retrate como antiutopia incorporada, e o neoliberalismo atual como sinal de uma nova era da humanidade que deixou de lado os projetos utópicos responsáveis pelos horrores totalitários do século, está se tornando claro agora que o momento de verdadeira utopia aconteceu nos anos 90, quando prevalecia a crença de que a humanidade enfim havia encontrado a fórmula ideal para a ordem socioeconômica.
A experiência das últimas décadas claramente demonstra que o mercado não é um mecanismo benigno que funciona melhor caso possa operar sem interferência. Uma boa dose de violência extramercado é requerida para criar as condições necessárias ao seu funcionamento.
A maneira pela qual os fundamentalistas do mercado reagem aos resultados destrutivos da implementação de suas receitas é típica dos "totalitários" utópicos: imputam a culpa pelo fracasso aos compromissos aceitos por aqueles que implementaram suas visões (a intervenção estatal continua excessiva etc.), e exigem implementação ainda mais radical da doutrina do livre mercado.
Portanto, onde estamos, hoje? O destino de Victor Kravchenko, diplomata soviético que desertou em Nova York, em 1944, e depois escreveu um livro de memórias que se tornou um best seller, "I Choose Freedom" [Escolho a Liberdade], é digno de menção.
Seu livro é o primeiro relato substancial em primeira pessoa sobre os horrores do stalinismo e começa por uma narrativa detalhada da coletivização forçada da agricultura e da fome em massa que afligiu a Ucrânia, onde Kravchenko mesmo, nos anos 30 ainda um adepto fervoroso do sistema, participou da coletivização forçada.
A história que se conhece sobre ele publicamente acaba em 1949, quando saiu triunfante de um grande julgamento contra seus acusadores soviéticos, em Paris, no qual estes levaram ao tribunal até mesmo a sua ex-mulher, para depor sobre sua corrupção, alcoolismo e violência doméstica.
Menos conhecido é o fato de que, embora Kravchenko fosse louvado no mundo inteiro como herói da Guerra Fria, a caça às bruxas anticomunista promovida por McCarthy nos EUA o preocupava muito, e ele alertou que essa forma de combater o stalinismo acarretava o risco de tornar os norte-americanos parecidos com os seus oponentes.
Ele também se conscientizou mais e mais sobre as injustiças do mundo ocidental e desenvolveu uma quase obsessão por promover mudanças críticas nas sociedades democráticas do Ocidente.
Assim, depois de escrever uma continuação muito menos conhecida para "I Choose Freedom", com o significativo título "I Choose Justice" [Escolho a Justiça], ele se envolveu em uma cruzada para desenvolver modos de produção novos e menos exploratórios.
Isso o conduziu à Bolívia, onde investiu (e perdeu) dinheiro na organização de novos coletivos para lavradores pobres. Deprimido pelo fracasso de seus esforços, ele deixou a vida pública e se matou com um tiro em sua casa, em Nova York.
Hoje há novos Kravchenkos surgindo em toda parte, dos Estados Unidos à Índia, China e Japão, da América Latina à África, do Oriente Médio à Europa Ocidental e Oriental.
São pessoas distintas que falam diferentes idiomas, mas seu número não é tão pequeno quanto pode parecer _e o maior medo daqueles que continuam a governar é que as vozes dessas pessoas comecem a ecoar e a se reforçar mutuamente em solidariedade.
Conscientes de que a probabilidade de catástrofe é grande, essas pessoas estão dispostas a agir apesar de todas as desvantagens. Iludidas pelo comunismo do século 20, elas estão dispostas a recomeçar do zero e reinventar a busca por justiça, em bases novas. Desdenhados pelos inimigos como utópicos e perigosos, são as únicas pessoas que na verdade despertaram do sonho utópico que ainda domina a maioria de nós.
São essas pessoas, e não aquelas que sentem nostalgia pelo "socialismo realmente existente" do século 20, que representam a verdadeira esperança da esquerda.
Tradução de Paulo Migliacci.