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11/02/2010 - 12h31

Poema épico é a primeira obra traduzida direto do turco no Brasil

Divulgação
Obra mostra o período no qual a etnia turca ainda se formava
Obra mostra o período no qual a etnia turca ainda se formava


"O Livro de Dede Korkut" é mais importante poema épico em língua turca. A obra, que teve trechos encontrados no século 19 e 20, é também o primeiro livro traduzido diretamente do turco a ser publicado no Brasil. O livro mistura prosa e verso, dando um tom coloquial característico aos períodos entre as declamações.

"Dede Korkut", ou "Vovô Korkut", mistura de curandeiro, profeta e narrador, é um personagem recorrente nessas 12 histórias épicas da época dos oguzes, povo nômade que foi um dos formadores da etnia turca. Dede Korkut representa um líder, conselheiro ou sábio mais velho que resolvia as dificuldades com as quais se confrontam os membros da tribo e estátuas de Dede Korkut podem ser encontradas até hoje na Turquia e Azerbaijão.

O tradutor da obra Marco S. de Pinto, Mestre em Língua, Cultura e Literatura Árabes na USP, conversou com a Livraria da Folha sobre a importância cultural do livro, dificuldades encontradas e o motivo da grande falta de traduções diretas do idioma turco para o português.

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Livraria da Folha - Qual é o papel de "O Livro de Dede Korkut" para a formação da identidade dos povos turcos?

Marco S. de Pinto - "O Livro de Dede Korkut" é um memorial da maneira como os turcos, ou melhor, os oguzes, que eram somente uma das várias tribos turcas existentes no passado, viviam seus costumes, tradições e quais eram seus valores morais. Apesar de as histórias terem sido elaboradas numa época em que os turcos não se viam como descendentes dos oguzes e já haviam se sedentarizado, elas servem como um elo a um passado do qual os turcos, e principalmente os azeris, se orgulham, pois, afinal, se trata de suas próprias raízes. Ademais, as referencias históricas, geográficas, políticas, sociais e linguísticas fazem dessa obra um rico repositório que ainda está longe de ser esgotada pelos estudiosos do mundo. É interessante mencionar, ademais, que o Livro --e os demais épicos, ou destans, entre os quais o famoso Alpamysh--, por ser um livro que poderia incitar o nacionalismo dos azeris, foi banido no Azerbaidjão. Assim como ocorreu nos outros países turcos dominados pelos soviéticos durante o período Stalinista ou nos ataques ideológicos perpetrados de 1950 a 1952.

Livraria da Folha - Quais são as principais diferenças e semelhanças entre outras narrativas épicas como, por exemplo, a "Odisséia", "Gilgamesh" e "Beowulf"?

Marco S. de Pinto - O que distingue o Livro dos demais épicos produzidos no Ocidente é justamente a quantidade de estudos que existem a respeito desses. Apesar de o Livro ser antigo --estudiosos discordam quanto à data de elaboração das histórias, mas vários afirmam ter sido no séc. 9--, os manuscritos foram somente descobertos, respectivamente, no séc. 19 e no séc. 20 e, para piorar a situação, o segundo, descoberto na Biblioteca do Vaticano pelo orientalista italiano Ettore Rossi, contém somente a metade das histórias, ou seja, 6, do primeiro manuscrito. Como é comum ocorrer em manuscritos, há erros de cópia, de distração, etc. e vários desses não podem ser contrastados com o outro, pois não há.

No mais, há diversos paralelismos entre as referidas epopéias; me deterei somente a alguns exemplos: No "Beowulf", por exemplo, há essa mescla de elementos pagãos e cristãos ao passo que no Livro elementos xamanistas e islâmicos co-existem. Naquele, há várias menções a acontecimentos bíblicos, como o dilúvio, o julgamento final, do verdadeiro Deus e do diabo e do assassinato de Abel por Caim e, ao mesmo tempo, rituais pré-cristãos também são descritos, como o enterro de acordo com rituais pagãos (no Livro há a menção da "refeição fúnebre" e de cortar o rabo do cavalo de um herói, neste caso Beyrek, quando esse morre). Ademais, há menções no Beowulf a um Deus monogâmico e cristão ('Holy God decided the victory') e que encontram claros paralelismos com o discurso do herói Kan Turali "Deus altíssimo guiou os meus passos, fui e matei as três bestas,/Ganhei a princesa Seldjan das vestes amarelas e cheguei aqui."

Um aspecto ainda mais gritante de semelhança entre a "Odisséia" e o Livro se encontra na história do gigante Depegöz e o do contido no canto X da Odisseia, no episódio em que o herói Ulisses cega o gigante Polifemo. No Livro, o herói Basat também cega o gigante, se esconde numa caverna e o gigante, parado à entrada da caverna, começa a chamar suas ovelhas por nome. Basat, assim como Ulisses, mata uma ovelha e se disfarça com a pele dessa, fugindo por entre as pernas do gigante. Muitos estudos se seguiram à descoberta desse paralelismo, mas os estudiosos ainda discordam de qual seja a história original (ou pelo menos mais antiga).

Há interessantes paralelos e tópicos de reflexão no papel da mulher nessas duas obras.Tomemos Ninsun, mãe do herói Gilgamesh, que era uma mulher afetuosa e amorosa, mas que também dava conselhos e direção. Alguns discursos dela lembram em vários aspectos as declamações emocionadas da mãe de Bogatch ou de Borla, a Alta, a seu filho.

Um aspecto formal distintivo das demais epopeias é que o "O Livro de Dede Korkut" não é composto somente em verso, mas sim de prosa, para a narração, que se utiliza de um registro um tanto coloquial de linguagem, e reserva cerca de 35% para verso rimado (o soylama), ou seja, onde ocorrem ápices de emoção por parte dos personagens. Tal característica é comum nas epopeias (destans) dos vários povos turcos.

Livraria da Folha - Vivemos em um momento no qual o ocidente tem uma relação de medo e incompreensão com os países islâmicos devido ao terrorismo moderno. Qual é a importância da tradução de uma obra central da cultura turca nesse contexto?

Marco S. de Pinto - O Livro contribui de certa forma para ver com outros olhos os turcos guerreiros do Império Otomano, o mais duradouro império islâmico que já houve. Aquele ar místico, exótico, tão oriental é somente um aspecto da história desse povo que, por assim dizer, foi uma história de sucesso: de seu habitat original, os arredores da Mongólia, as várias tribos turcas migraram por vários séculos rumo ao Ocidente até que, uma delas, a representada no Livro, chega ao extremo oeste da Ásia (Lembremo-nos que Istambul, antiga capital da Turquia, possui uma porção de seu território na Ásia e a outra na Europa), onde se instalaram. O fato de, a partir da derrocada de um grande Império na Primeira Guerra Mundial, construírem uma República soberana e laica (embora 90 e tantos por cento da população seja muçulmana) e de estarem na lista de países que aderirão à UE já basta para que a denominemos como um sucesso.

Apesar de tudo, a Turquia, desde a proclamação de sua república, sofre de uma crise de identidade aguda: nesses 86 anos de vida, houve recrudescimento do islã, com uma consequente adoção de nomes de origem islâmica (ou simplesmente árabes), outros em que o nacionalismo turco predominou, e, recentemente, com uma suspeita cada vez maior em relação à UE e aos Estados Unidos e seus aliados (sendo a própria Turquia aliada desses dois países), notadamente Israel, como se pôde observar recentemente nos noticiários. Isso faz com que a Turquia se aproxime cada vez mais do Oriente (uma posição contrária à de Atatürk, fundador da república), buscando alianças com países islâmicos (vide a Comitê para a Cooperação Econômica e Comercial (COMCEC) da Organização da Conferência Islâmica ocorrida em novembro passado, da qual participaram o Irã, Síria e Afeganistão - países considerados inimigos pelos EUA).

Apesar desses contratempos, essa dualidade, sempre presente na vida dos turcos, como o próprio "O Livro de Dede Korkut" já mostrava, pode nos ensinar o que somente a Turquia pode: a convivência pacífica do islâmico com o ocidental, algo que alguns países, como os EUA, tem tido dificuldade de praticar.

Livraria da Folha - Quais foram as principais dificuldades encontradas na tradução?

Marco S. de Pinto - Esforcei-me ao máximo para trazer ao leitor brasileiro uma edição atualizada de acordo com as mais recentes pesquisas de turcólogos no tocante ao "O Livro de Dede Korkut". Para isso, utilizei a preciosa edição crítica de Semih Tezcan, que conta com 424 páginas de comentários sobre a obra. Ademais, procurei corrigir os erros encontrados em edições europeias (como a francesa e inglesa), além de cotejar com a famosa edição turca de Muharrem Ergin. Além disso, utilizando como base o manuscrito de Dresden, que é o mais completo, deixei o leitor a par das diferenças entre esse e o manuscrito do Vaticano através das mais de 250 notas de rodapé. Tal cotejo não consta das edições europeias que consultei, por exemplo. Outras novidades em relação às outras traduções incluem a rigorosa transcrição dos antropônimos e topônimos e uma introdução para situar o leitor no contexto histórico, linguístico, etc. da obra, a fim de que obtenha um melhor aproveitamento de sua leitura.

No plano linguístico, a maior dificuldade que tive foi na tradução de conceitos bastante específicos ao contexto da época, como as diversas palavras encontradas no texto para distinguir tipos de tenda.

Livraria da Folha - Por que a grande falta de traduções diretas de obras turcas no Brasil, apesar do país possuir uma expressiva comunidade de origem turca?

Marco S. de Pinto - Ao contrário, há um número exíguo de imigrantes turcos no Brasil, que só recentemente descobriram o Brasil (trocadilho com a obra de Jorge Amado não intencional). Sabe-se que, por exemplo, os árabes que habitavam nos domínios otomanos (1299-1923) ao chegarem aos países da América Latina, ficaram conhecidos por turcos devido à designação em seus passaportes da nacionalidade do Império do qual emigraram. Trata-se, contudo, de etnias e línguas diversas, embora possuam vários aspectos em comum, tais como a religião (Islã), culinária, palavras em comum, etc. Quanto à tradução, sabe-se que no Brasil, é um ofício significativo para a cultura. Segundo a Abrates (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes), mais de 80% das publicações em formato de livro são traduções. Isso para dizer que o Brasil não traduz pouco! Pode-se dizer que há dois períodos principais em que se divide a literatura turca: pré- e pós-Pamuk. Antes de ele receber o prêmio Nobel de literatura em 2006, o Brasil desconhecia qualquer representante da literatura turca (com a exceção, talvez, de Yaşar Kemal). Com a tradução e publicação de suas obras para o português (através de línguas como inglês e francês), o público veio a conhecer, ainda que a ponta do iceberg, essa tradição e, com tal conhecimento, uma curiosidade foi despertada. Devo acrescentar também a falta de especialistas nessa língua no nosso país, em que nem existe um curso oficial dessa língua, muito menos uma cátedra em qualquer universidade, e, surpreendentemente, tampouco conta com um consulado em São Paulo.

Por fim, a publicação do "O Livro de Dede Korkut" em português contribui, ainda que de forma mínima, para que essa língua seja um veículo, através da tradução, de grandes obras literárias dos diversos países que até então não faziam parte do contexto literário no nosso país.

Apesar disso, o público que está sedento de informação a respeito de uma região do mundo tão mal-compreendida, pode esperar que em breve serão publicados outros ilustres representantes da literatura turca contemporânea - traduzidas do original turco.

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