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Segunda-feira, 21 de maio de 2012

BOL Notícias

Onipresente nos enredos cotidianos, Clarice Lispector completaria 90 anos nesta sexta

PAULA DUME
colaboração para a Livraria da Folha

Em homenagem aos 90 anos que Clarice Lispector (1920-1977) completaria nesta sexta-feira (10), a reportagem da Livraria da Folha optou por falar em uma Clarice que está nas claras em neve, na solução que tira a mancha de suor da roupa e entre tantos enredos cotidianos que nos cercam.

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Clarice Lispector primava pelo mimetismo e hermetismo em seus romances e contos
Clarice Lispector primava pelo mimetismo e hermetismo em seus romances e contos


Portanto, esqueçam temporariamente Joana, em "Perto do Coração Selvagem", e sua dualidade existencial, "Lucrécia", de "A Cidade Sitiada", e sua dúvida entre a criação de cidades e pessoas, ou Macabéa, em "A Hora da Estrela", que virou estrela de mil pontas.

A narradora de "Só para Mulheres" também é Clarice Lispector, mas em conselhos, receitas e segredos caseiros.

O leitor pode se espantar ao vê-la falando em ovos sem dedicá-los à nação chinesa ou quebrá-los sem questionar se a galinha nasceu antes da existência deles. Aqui, a pressa e o jantar chegaram antes.

As preocupações em voga passam a permanecer no "repolho bossa-nova" e no "enredo-surpresa" que o damasco reservou para a sobremesa. Não que a autora deixe de lado por completo sua escrita invocada em sentidos miméticos e metalinguísticos, mas os pondera entre uma dica e outra, como se estivesse na casa das leitoras dos jornais "Correio da Manhã", "Diário da Noite" e "Comício".

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De receitas caseiras à modos para mocinhas, Clarice dá conselhos
De receitas caseiras à modos para mocinhas, Clarice dá conselhos


Sob os pseudônimos de Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares, ela ponderava comentários e modos de mocinhas e de futuras mulheres em suas colunas.

As figuras utilizadas no livro são partes de fac-símiles das aproximadamente 450 colunas que Clarice escreveu nesses jornais. Os traços adornam excertos de periódicos xilogravados, letras garrafais de receitas, moças limpando o rosto, experimentando trajes de gala e saias plissadas, e em passos musicais com rapazes.

Ao avançar das páginas, tem-se a sensação de que Lispector aparece e desaparece em cada agulha, em cada botão, em cada sofá movido de lugar.

Em "Honestidade", ela avia a seguinte receita: "As filhas de Eva são muito mais hábeis na arte de dissimular, do que os homens. (?) Esta interrogação é por minha conta".

Em meio ao receituário feminino, Clarice não deixa de sublinhar o perigo das meninas em seguir padrões de beleza e de comportamento aplicáveis somente na grande tela. As formosuras reproduzidas em série pela mídia --à base de Brigitte Bardot e Marisa Allasio-- são armas que a escritora utiliza para alertar as jovens a "sejam vocês mesmas!"

Ela deixa suas pegadas --outrora utilizadas em "Água Viva" ao interrogar a ausência como identidade e existência dela própria.

Reencontramos a "bruxa" num golpe de surpresa, com cremes, tira-odores e sorvetes. Há relatos de sensações corpóreas vulcânicas do universo feminino ao lado de simplicidades caseiras. Tudo com doses de limão, na maioria das vezes.

Fundação Casa de Rui Barbosa
Escritora Clarice Lispector em meados dos anos 1960; autora morreu um dia antes de completar 57 anos
Escritora Clarice Lispector em meados dos anos 1960; autora morreu um dia antes de completar 57 anos


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