PAULA DUME
colaboração para a Livraria da Folha
Em homenagem aos 90 anos que
Clarice Lispector (1920-1977) completaria nesta sexta-feira (10), a reportagem da
Livraria da Folha optou por falar em uma Clarice que está nas claras em neve, na solução que tira a mancha de suor da roupa e entre tantos enredos cotidianos que nos cercam.
Portanto, esqueçam temporariamente Joana, em
"Perto do Coração Selvagem", e sua dualidade existencial, "Lucrécia", de
"A Cidade Sitiada", e sua dúvida entre a criação de cidades e pessoas, ou Macabéa, em
"A Hora da Estrela", que virou estrela de mil pontas.
A narradora de
"Só para Mulheres" também é Clarice Lispector, mas em conselhos, receitas e segredos caseiros.
O leitor pode se espantar ao vê-la falando em ovos sem dedicá-los à nação chinesa ou quebrá-los sem questionar se a galinha nasceu antes da existência deles. Aqui, a pressa e o jantar chegaram antes.
As preocupações em voga passam a permanecer no "repolho bossa-nova" e no "enredo-surpresa" que o damasco reservou para a sobremesa. Não que a autora deixe de lado por completo sua escrita invocada em sentidos miméticos e metalinguísticos, mas os pondera entre uma dica e outra, como se estivesse na casa das leitoras dos jornais "Correio da Manhã", "Diário da Noite" e "Comício".
Sob os pseudônimos de Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares, ela ponderava comentários e modos de mocinhas e de futuras mulheres em suas colunas.
As figuras utilizadas no livro são partes de fac-símiles das aproximadamente 450 colunas que Clarice escreveu nesses jornais. Os traços adornam excertos de periódicos xilogravados, letras garrafais de receitas, moças limpando o rosto, experimentando trajes de gala e saias plissadas, e em passos musicais com rapazes.
Ao avançar das páginas, tem-se a sensação de que Lispector aparece e desaparece em cada agulha, em cada botão, em cada sofá movido de lugar.
Em "Honestidade", ela avia a seguinte receita: "As filhas de Eva são muito mais hábeis na arte de dissimular, do que os homens. (?) Esta interrogação é por minha conta".
Em meio ao receituário feminino, Clarice não deixa de sublinhar o perigo das meninas em seguir padrões de beleza e de comportamento aplicáveis somente na grande tela. As formosuras reproduzidas em série pela mídia --à base de Brigitte Bardot e Marisa Allasio-- são armas que a escritora utiliza para alertar as jovens a "sejam vocês mesmas!"
Ela deixa suas pegadas --outrora utilizadas em
"Água Viva" ao interrogar a ausência como identidade e existência dela própria.
Reencontramos a "bruxa" num golpe de surpresa, com cremes, tira-odores e sorvetes. Há relatos de sensações corpóreas vulcânicas do universo feminino ao lado de simplicidades caseiras. Tudo com doses de limão, na maioria das vezes.