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Segunda-feira, 21 de maio de 2012

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Exposição mostra como psicanálise transformou Louise Bourgeois

FABIO CYPRIANO
DE SÃO PAULO

"Arte é uma forma de sanidade" está escrito em uma das 112 obras que compõem a mostra "Louise Bourgeois: o Retorno do Desejo Reprimido", a maior já dedicada à artista no país.

Por meio de desenhos, objetos, pinturas, esculturas e instalações, concebidas por Bourgeois (1911-2010), entre 1942 e 2009, o curador Philip Larratt-Smith traça um perfil da obra da artista em sua relação com a psicanálise.

A tese central da mostra é como "seu afastamento do mundo da arte e imersão na análise resultaram em um completo novo corpo de trabalhos, no início dos 1960", escreveu o curador à Folha.

Louise Bourgeois Trust/Divulgação
Obra "Couple IV", de 1997, da artista francesa Louise Bourgeois
Obra "Couple IV", de 1997, da artista francesa Louise Bourgeois


Leia abaixo a íntegra da entrevista com o curador:

Folha - Você organizou uma mostra, no ano passado, sobre Andy Warhol, na Estação Pinacoteca, e agora Louise Bourgeois. São dois artistas bem diferentes, não?
Philip Larratt-Smith - Warhol e Bourgeois são muito diferentes de forma geral, mas eles têm em comum uma patologia singular e uma abrangência de invenções formais, que são as questões que mais me interessam.
Assim como Warhol, Bourgeois foi uma grande criadora de mitos, especialmente os da sua própria família. Ambos trabalharam com os grandes temas de sexo, amor, beleza, morte e tempo. Mais, ambos foram artistas muito intuitivos, apesar das aparências apontarem o contrário.

Folha - Como você preparou a mostra de Bourgeois?
Assim como Warhol, eu escolhi oferecer uma pesquisa de tamanho médio, uma minirretrospectiva, organizada em torno de uma tese curatorial com um tema preciso. Assim, existem trabalhos representativos de todos os períodos de sua carreira. Ao mesmo tempo, a história que estou contando na mostra é a relação de Bourgeois com a psicanálise e, em particular, como seu afastamento do mundo da arte e imersão na análise, nos anos 1950, resultaram em um completo novo corpo de trabalhos, que ela apresentou no início dos 1960. O retorno invencível do desejo reprimido e de traumas passados em obras ficcionais e formas inesperadas fornecem a chave para a compreensão de sua produção tão heterogênea. Sua escultura é o conteúdo manifesto ou o sintoma neurótico do incurável trauma subjacente.

Folha - Como é organizar uma exposição de alguém com quem você conviveu, como Bourgeois, e com um artista morto, como Warhol?
Warhol morreu quando eu tinha 8 anos. No momento que eu me tornei consciente de seu trabalho, ele já tinha sido canonizado na cultura popular, sem falar em seu posicionamento no mercado e sua recepção crítica. Inicialmente, eu resisti ao trabalho dele, como muitos ainda o fazem, precisamente por conta dessa ubiquidade. Isso ocorreu um pouco antes de eu "pegar" Warhol em toda sua complexidade, em grande parte por conta de suas pinturas "Death e Disaster" e seus primeiros filmes.
Enquanto isso, eu convivi com Bourgeois nos últimos nove anos de sua vida, trabalhando como seu arquivista na maior parte desse período até sua morte. Desse lugar, a exposição é mais um negócio pessoal. Eu acredito que se possa dizer que preparar ela foi uma forma de lamentação.

Folha - O que o levou a escolher a relação com a psicanálise para a mostra de Bourgeois?
O coração da mostra são os escritos descobertos em dois momentos (2004 e 2010) por Jerry Gorovoy, assistente de Bourgeois por muito tempo. Esses escritos, realizados enquanto ela estava passando por sua mais intensa fase de análise, de 1952 a 1967, consistem em sonhos recordados, notas e relatos. Esses escritos vão recalibrar radicalmente nossa compreensão da obra de Bourgeois e da importância da psicanálise mantida por ela como um campo de exploração para sua arte e vida. Mais tarde em vida, ela buscou defender que sua arte foi sua forma de psicanálise e garantia de sanidade. Bourgeois estava enfronhada na literatura psicanalítica, lendo Freud, Jung, Lacan, Melanie Klein, Wilhelm Reich, Karen Horney e outros.
Os surrealistas exploraram as possibilidades plásticas do imaginário dos sonhos e os abstrato-expressionistas desejavam mergulhar na inconsciência, mas de fato é Bourgeois quem mais, dentre todos os artistas do século 20, esteve engajada com a teoria psicanalítica e sua prática. Eu acho até surpreendente que essa mostra seja a primeira a apresentar esse foco.

Folha - Você chegou a discutir isso com ela?
Ela estava totalmente consciente da natureza dessa mostra e a publicação que a acompanha e me deu todas as benções para prosseguir com ambos pouco antes de sua morte, em maio do ano passado.

Folha - A Louise Bourgeois pode ser vista como uma artista feminista extremista?
"Feminista extremista" não é como eu a caracterizaria. Sua mãe, Joséphine, se apresentava como feminista e, de fato, Louise recebeu seu primeiro nome parcialmente em homenagem a Louise Michel, heroína da Comuna de Paris.
O marido de Bourgeois, Robert Goldwater, também era um feminista. Mas ela nunca se sentiu confortável com esse termo, e apesar dela sempre ter dado apoio ao que agora se chama igualdade de gêneros, em termos políticos e econômicos, ela não queria que seu trabalho foi visto como "feminista". Isso pois ela sentia que isso seria unidimensional e reducionista, além dela também não achar que tinha muito em comum com artistas que encampavam essa nomenclatura. A Bourgeois acreditava que estava abordando temas que eram pré-gênero, pré-sexuais, como o medo do abandono, agressão e ansiedade. Que ela se tornou um ícone feminista é indiscutível, mas ela não tem responsabilidade por isso.

Folha - Como você trabalha usando um tema tão forte da biografia da artista sem transformar a obra dela numa ilustração disso?
A própria Bourgeois apresentou a biografia como uma forma hermenêutica para sua obra quando ela publicou o encarte "Abuso Infantil", em 1982, por ocasião de sua retrospectiva no MoMA de Nova York. Nesse foto-ensaio ela relacionou a história, hoje bastante conhecida, de seu pai que dormiu com sua tutora inglesa Sadie (seis anos mais velha que Bourgeois quando ela iniciou a trabalhar em sua casa) e de sua mãe inválida que aquiesceu com esse arranjo.
Desde então, inúmeros críticos e acadêmicos se basearam nesse episódio como o momento "rosebud" da carreira de Bourgeois. Como os textos psicanalíticos revelam, contudo, sua real situação psicológica era muito mais complexa e suas atitudes para com seus pais mais ambivalentes.
Além disso, as próprias formas esculturais são constituídas por muitas camadas simbólicas, que não podem ser reduzidas a uma leitura biográfica simplista. O tanto que nos sabemos sobre a história de vida dela --em parte o que dá a seu trabalho tanta complexidade, riqueza e mistério--, é simplesmente o quão radicalmente ela transformou os episódios de sua vida que motivaram a inspiração inicial para sua escultura. A instalação "A destruição do pai"(1973) é um caso exemplar. Síntese da sua obra a partir dos anos 1960, ela condensa e reúne seus elementos heterogêneos como num sonho, ou melhor, como num "tableau vivant" que é um pesadelo.

Folha - Numa mostra recente do Leonilson, em São Paulo, os curadores trabalharam bastante com a ideia de que os arquivos de um artista também podem ser vistos como seu trabalho. De que maneira você trabalha com os textos de Bourgeois na mostra?
Os textos psicanalíticos de Bourgeois, assim como suas escritas em geral, são distintos por sua alta qualidade literária, sua extensão linguística, seu candor descomprometido e seu poder emocional bruto. Uma seleção de fac-símiles dos textos originais será apresentada no Instituto Tomie Ohtake e um segundo volume do catálogo da mostra reúne uma seleção comentada de 92 desses textos.
Eu estou nesse momento preparando uma publicação com todos os seus textos psicanalíticos para 2013.
Pode-se dizer que os escritos demarcam as coordenadas para minha seleção de obras assim como para os textos críticos que estão incluídos no primeiro volume do catálogo, no qual especialistas como Mignon Nixon, Donald Kuspit, e Elisabeth Bronfen, após visitarem os arquivos, no último verão, oferecem interpretações novas da obra de Bourgeois à luz desses textos.

Folha - Você acha que eles podem ser considerados como obras dela?
Os textos devem ser vistos como um corpo de trabalhos paralelo às suas esculturas. Certamente, as interseções desses textos com seus desenhos são numerosos e sugestivos.

Folha - De certa forma, Bourgeois sempre esteve incluída entre artistas que mesclaram arte e vida. Após visitar a essa mostra vamos seguir com essa ideia?
A Bourgeois pode ter colocado em primeiro plano sua própria biografia para fornecer as motivações de sua criação artística e os escritos psicanalíticos confirmam a importância do processo criativos para o funcionamento pleno de sua economia psíquica, mas os trabalhos que ela criou são formas simbólicas complexas que não podem ser reduzidas a meras ilustrações desse ou daquele episódio de sua vida. Suas obras devem permanecer como inovações formais do mais alto nível, mesmo para aqueles que nada conhecem da mulher que os fez.

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