Paris, 6 jul (EFE).- Ingrid Betancourt tem a intenção de escrever
uma obra de teatro sobre sua experiência como refém das Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e voltará ao território
colombiano "dentro de alguns dias", afirma a franco-colombiana, em
uma entrevista ao francês "Le Journal du Dimanche" publicada hoje.
"Escreverei uma obra de teatro", disse a ex-refém de 46 anos, ao
ser perguntada se pretende se voltar à literatura.
"Não tenho a pretensão de escrever demais, mas quero deixar um
testemunho do que vivi", para que as pessoas "compreendam" que
"todos podemos ser anjos ou demônios para os outros".
"Cada um de nós em seu interior pode ser extraordinariamente bom
e extraordinariamente mau" e "todos podemos cair nesse horror de ser
lobos para o outro", disse.
Durante o seqüestro, ela principalmente viu o "lobo", mas também
viu "o anjo de vez em quando", o que era "muito desconcertante",
disse Betancourt, que foi libertada na quarta-feira passada junto
com mais 14 reféns das Farc em uma operação militar colombiana após
passar quase seis anos e meio retida na selva.
A ex-refém, que chegou à França na sexta-feira com a família para
agradecer os esforços realizados neste país para obter sua
libertação, disse que voltará à Colômbia "dentro de alguns dias".
Enquanto isso, quer "ver a França" e ficar com os filhos,
"dedicar tempo" à família.
Betancourt reiterou sua "alegria total" pelos resultados dos
exames médicos que fez neste sábado no hospital militar
Val-de-Grâce, em Paris, que descartaram os temores de que tivesse
câncer.
Também disse que deverá fazer mais exames para saber se continua
com o vírus da hepatite.
Os médicos "concluíram que o corpo resiste de maneira
extraordinária a muitas coisas. É mágico", acrescentou.
Também contou que, quando tomava banho no hotel, na sexta-feira,
o filho Lorenzo apagou a luz, porque achava que não havia ninguém no
banheiro, e, ao se ver na escuridão total, entrou em "pânico".
"Perdi durante o espaço de meio segundo a noção de onde estava e
disse a mim mesma, como em um pesadelo: 'são as Farc, vêm me
levar'", disse.