O general da reserva Alvaro Valencia Tovar, uma das principais autoridades em defesa e segurança da Colômbia, avisa que o objetivo do governo Alvaro Uribe "não é destruir as Farc, é acabar com a guerra". Ele tem duas certezas: a vitoriosa ação de resgate da ex-senadora Ingrid Betancourt, três norte-americanos e 11 policiais e militares do próprio país foi planejada e executada exclusivamente pelo Exército colombiano é "totalmente falso, uma absoluta mentira" que o governo tenha comprado guerrilheiros.
Na ativa, Valencia foi instrutor dos atuais comandantes das três Forças, Freddy Padilla, e do Exército, Mario Montoya, e garante que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) estão cercadas, grampeadas, sem comunicação e sem abastecimento e só têm duas alternativas: negociar ou se auto-destruir "numa agonia lenta e inevitável". O principal fator para a negociação é o perfil do novo comandante das Farc, Alfonso Cano, que estudou antropologia, tem maior nível intelectual do que os outros líderes e, portanto, "a compreensão necessária" de que, sem negociar, não há salvação. Aos 80 anos, Valencia é um misto de consultor, colunista e mentor informal de gerações militares. Demonstra uma lucidez invejável e uma memória capaz de ditar números, datas e nomes sem titubear. Segue a entrevista, concedida na sua casa em Bogotá:
FOLHA - O que vai acontecer com as Farc a partir de agora, depois de tantas derrotas?
ALVARO VALENCIA TOVAR - Elas não acabaram. Este foi um golpe muito duro, que as debilita ainda mais, mas não sabemos qual será a reação do atual comandante delas, Alfonso Cano. Quando das conversações com Andrés Pastrana, em 2002, ele era guerreiro, queria a guerra de qualquer jeito. Entretanto, ele é tem uma formação acadêmica, universitária. Estudou Antropologia, não se graduou, mas tem um nível intelectual mais alto do que os demais líderes das Farc. Ou seja, ele tem condições de ter a compreensão necessária para aceitar que estão derrotados e anseia negociar. O objetivo do governo não é destruir as Farc, é acabar com a guerra. Pode-se fazer com uma negociação, mas dentro das condições que dite o governo, o Estado colombiano. Ele quer negociar, o que não quer é o que ocorreu na negociação de 2002, na presidência de Pastrana. Aquilo foi uma burla interminável, em que se rompem as negociações por qualquer coisa, recompõe, rompe. Foram três anos de burla, com um acréscimo de poder das Farc.
FOLHA - O que o governo poderia oferecer como negociação às Farc, com que condições?
VALENCIA - Já há a Lei de Justiça, Paz e Reparação, já do governo Alvaro Uribe, que permite lhes dar um tratamento especial. Foi feita para os narcotraficantes, mas pode ser aplicada para essas forças revolucionárias. Mas eles teriam a obrigação de reparar, com o dinheiro que têm, e as Farc têm muito dinheiro, as famílias que foram mais prejudicadas neste período de guerra. Teriam que se submeter à Justiça, mas com termos de sentença bastante favoráveis e com condições de reingresso à vida normal num tempo relativamente curto.
FOLHA - Quais seriam as condições especiais, excepcionais?
VALENCIA - Essas condições se podem negociar, não há um formato rígido e tudo depende do desenrolar das negociações. Veja bem, estamos falando em negociação, não em rendição, que não obrigaria ninguém a nada.
FOLHA - O sr. falou que as Farc estão derrotadas, mas admitiu que elas têm muito dinheiro ainda. Estão mesmo derrotadas, ou podem ter sobrevida de muitos anos?
VALENCIA - Praticamente sim. Uma guerrilha está derrotada quando não pode cumprir seu propósito revolucionário, e eles já não podem cumpri-lo. Pensar que podem chegar ao poder pela violência já não é possível. Quando uma guerrilha chega ao ocaso, já não tem mais condições de almejar o poder. Há também as condições objetivas: eles estão dispersos, têm fortes dificuldades de abastecimento, suas comunicações estão destruídas. O comandante Alfonso Cano simplesmente não pode mais falar com seus comandantes de frente, porque todas as comunicações estão rastreadas pela inteligência militar. Isso, aliás, foi decisivo para a operação de agora [de resgate de 15 reféns, inclusive Ingrid Betancourt]. O comandante que tinha a responsabilidade pelos reféns não conseguiu comprovar se a ordem recebida era verdadeira ou não. A pessoa que lha deu imitou perfeitamente a voz de Alfonso Cano, e o comandante não tinha como checar. Por isso, obedeceu fielmente as instruções e isso garantiu o êxito de toda a ação. Num território tão grande quanto o da Colômbia, com tantas facilidades para a guerra irregular, as comunicações são indispensáveis. Como eles vão coordenar suas ações, se não podem abrir a boca porque o Exército se inteira de tudo? Até as palavras de código que eles usam estão bem conhecidas.
FOLHA - Então, eles estão cercados e imobilizados?
VALENCIA - Até pelos depoimentos de Ingrid, vê-se que eles estão muito mal. Um pequeno exemplo: nunca conseguiram lhe dar botas novas, só surradas. Tinham que consertar as que tinham e usar de novo, sem condições de repor. A comida é péssima e muito escassa. E não é falta de dinheiro. A comandante 'Karina' [Nelly Ávila Moreno], se entregou, destruída. Sobraram-lhe três ou quatro combatentes. Quando eles a abandonaram, ela se entregou e confessou: "Estou perdida. Não tenho como entrar em contato com meus chefes, pedir apoio, instruções, saber o que fazer".
FOLHA - Muita gente se pergunta no mundo todo como o chefe responsável pelos reféns foi tão ingênuo de juntar justamente os mais importantes e embarcá-los candidamente num helicóptero desconhecido.
VALENCIA - Porque pensou que estava recebendo ordens de Alfonso Cano e estava impossibilitado de checá-las, para não ser captado pela inteligência militar. E a história fazia sentido, porque era que eles iriam participar de uma conferência com organizações internacionais independentes. Se você pensar nas circunstâncias, havia uma lógica, porque estavam acontecendo muitas conferências de países que serviam como facilitadores. Vinham suíços, franceses, espanhóis. De maneira que, para eles, não era tão estranho receber instruções para se encontrar com um deles. Então, reuniram os três grupos e deu certo. Tudo foi muito bem calculado. A inteligência militar sabia exatamente onde eles estavam e como estavam repartidos os reféns, porque há infiltrações muito bem feitas. O mais importante era resgatar os três norte-americanos e a Ingrid, e os militares e policiais estavam divididos entre eles.
FOLHA - Por que os norte-americanos eram tão importantes? Por uma decisão de Washington?
VALENCIA - Porque, internacionalmente, eles e a Ingrid tinham uma significação muito grande. Eram as principais cartas na manga das Farc, para jogar, para pressionar. Por isso, mesmo quando ela estava muito enferma, não quiseram soltá-la.
FOLHA - As centenas de reféns, inclusive os chamados 'reféns políticos', são considerados uma moeda de troca insignificante numa negociação?
VALENCIA - Há muita gente ainda, mas sem a importância internacional que tinham três americanos e a Ingrid, colombiano-francesa. As Farc sabem disso.
FOLHA - Uma rádio suíça divulgou que foram pagos US$ 20 milhões para o resgate deles.
VALENCIA - Isso é totalmente falso, absoluta mentira, não tem nenhuma base que possa ser comprovada. Isso é negar que o presidente e o Exército da Colômbia fizeram uma operação perfeita, e eles fizeram. O general Freddy Padilla, que é um homem de enorme credibilidade, me deu sua palavra de honra de que não se deu um só peso, nem um só centavo, para libertar os reféns. A prova é que os dois comandantes entraram também no helicóptero, não receberão nenhum benefício legal e serão extraditados para os EUA, porque são reclamados pelo seqüestro dos três norte-americanos. Nenhum chefe guerrilheiro se entrega para ser enviado para os EUA e ali pagar seus delitos.
FOLHA - E o infiltrado, onde está neste momento? Ele continua com as Farc? Não está correndo sério perigo?
VALENCIA - Possivelmente, o que corre mais perigo é o que vigiava os seqüestrados. Os infiltrados dentro dos aparatos das Farc correm muito pouco risco, porque não estão identificados, e o serviço de inteligência está convencido de que nem o serão, porque estão em posições importantes. Risco sempre há. Os espiões estão sempre em perigo, podem ser fuzilados em qualquer lugar, a qualquer hora. Mas é um risco calculado, e eles estão trabalhando numa missão importantíssima como essa.
FOLHA - Há uma polêmica sobre a participação militar dos EUA. Afinal, foi uma ação do Exército colombiano, uma ação conjunta ou o cérebro foi da inteligência norte-americana?
VALENCIA - A realidade é esta: o nosso serviço de inteligência era muito precário, até que os comandantes militares se deram conta de quão importante era a inteligência e passaram a formar uma escola específica com essa finalidade, há nove anos, com cooperação dos britânicos. Contrataram-se instrutores, além do Reino Unido, também de Israel e dos EUA e chegou-se a um enorme grau de profissionalização. Tenho muito contato com eles, dou aulas e palestras para a escola e para o Centro de Inteligência e acompanhei esse progresso imenso. Então, não há como, nem por que negar que essas três missões ajudaram a formar o corpo de inteligência da Colômbia, mas eles não participaram dessa operação, muito menos lideraram, como se fala por aí. Em absoluto. A missão militar dos EUA na Colômbia é acessória, quando a chamam, ela atua. Nosso serviço de inteligência já adquiriu capacidade própria, não precisa de ajuda para operações assim.
FOLHA - O sr. disse que o Cano é mais preparado e mais passível de abrir negociação. E se não? O que vai acontecer?
VALENCIA - A opção das Farc fora a negociação, neste momento, é prosseguir a guerra de guerrilha, mas nesse passo estão se desintegrando e não há perspectiva de sobrevida. Podem seguir guerrilhas pequenas, isoladas, mas presas ao narcotráfico. Até quando? Isso é uma agonia lenta e inevitável. Eles vão se encarregar da própria destruição, se insistirem na guerra. O melhor é negociar, e rápido, quando ainda têm algum poder de negociação.
FOLHA - Se não, pode haver um ataque definitivo contra elas?
VALENCIA - Não um ataque único, definitivo, como numa guerra convencional, porque eles estão muito dispersos. Mas pode haver, sim, uma série de ataques pequenos e precisos, para ir destruindo um grupo, depois outro... E não se pode descartar que o que aconteceu com 'Karina' vai se repetir com outros, na medida em que o Exército for fechando o cerco, cortando a comunicação e o abastecimento.
FOLHA - Sem falar na delação, na traição, como o guarda-costas fez com Ivan Ryos.
VALENCIA - É muito possível que sim, não necessariamente com detalhes macabros como cortar as mãos [como ocorreu com Ryos], mas com delações contra os próprios chefes, ou para escapar, ou para receber recompensas. Há uma desconfiança enorme entre eles, principalmente depois do caso Ryos, que pode muito bem se repetir. Há também outro fator: os campesinos têm dado informações cada vez mais ricas, mais importantes, inclusive por causa do atrativo das recompensas, que pode chegar a milhares de pesos. Além disso, a população está odiando a guerrilha. A guerrilha virou uma praga, a população civil quer acabar com essa praga.
FOLHA - Diante desse quadro, é possível que a guerrilha se refugie além-fronteiras, como no Equador?
VALENCIA - Possível é, mas eles não têm perspectiva de êxito em nenhum país, não vai adiantar nada. Por toda a parte já se sabe que as Farc não são mais guerrilha política, são guerrilha do tráfico. Até Fidel Castro já diz que guerrilha não tem mais sentido de ser. Isso é certo. O regime comunista não deu resposta ao povo, o exemplo de Cuba não atrai mais. Tinha significação em outra época, hoje não tem mais, entre outras coisas porque as condições mudaram. A revolução cubana foi contra um ditador, e um ditador corrupto, com um Exército que não passava de guarda pretoriana do ditador. Hoje, os países latino-americanos têm democracias que podem ser mais ou menos perfeitas, mas já não há mais um ditador que justifique tomar o poder pelas armas. Fazer uma revolução contra Michelle Bachellet, no Chile? Ou contra Cristina Kirchner, na Argentina? Não faz o menor sentido. No Brasil, por exemplo, aquilo tudo de Marighella etc já não existe, nem tem como existir.
FOLHA - Como o sr. vê o regime de Chávez na Venezuela?
VALENCIA - Num determinado momento, ele quis transformar as Farc num instrumento para mudar o poder na Colômbia e completar uma zona de influência e de governos do seu projeto bolivariano, que já tem Raphael Correa [Equador], Evo Morales [Bolívia] e Daniel Ortega [Nicarágua]. Mas ele viu que as Farc estão se desintegrando e é um prejuízo muito grande para ele apoiá-las. Quando vieram os computadores de Raul Reyes [líder morto das Farc], comprovando que ele, sim, as apoiou, ele temeu que Uribe o denunciasse na ONU como governo delinqüente. Ele apoiou as Farc dentro de uma perspectiva de poder, que elas não mais têm. O mesmo vale para Corrêa, que está numa posição tão radical contra a Colômbia.
FOLHA - Por que Uribe está tão isolado no continente?
VALENCIA - Porque os países, sobretudo andinos, estão muito influenciados por Chávez. Foram eleitos com dinheiro de Chávez e viraram governos chavistas. Uribe é o contrário de Chávez.
FOLHA - E a excessiva dependência dos EUA?
VALENCIA - A posição da Colômbia é de aliada dos EUA, o que para muitos governos não é atrativa, porque hoje se busca é independência dos EUA. A esquerda latino-americana sempre tem sido anti-gringa. Um presidente 'gringófilo' não merece maior apoio dos demais.
FOLHA - E o Brasil? Ele também votou contra a Colômbia na OEA no caso do Equador.
VALENCIA - Sim, porque há o princípio da soberania e a Colômbia de fato violou esse princípio, mas há um artigo na Carta da ONU que ressalva a legítima de defesa, em caso de se sentir ameaçado por outros países que apoiam no terrorismo. O Equador já tinha sido avisado várias vezes da presença das Farc e nunca fez nada.
FOLHA - E o Brasil?
VALENCIA - O Brasil é neutro. Não apoia o governo da Colômbia manifestamente, mas tampouco é hostil. Lula mantém excelentes relações conosco, mas não quer se imiscuir de nenhuma maneira no nosso problema. Pode ser que tenha razão.
FOLHA - Lula é mais amigo de Chávez do que Uribe?
VALENCIA - Também é neutro com a Venezuela, é já deu limites para as investidas de Chávez no Brasil e estabeleceu certas condições para a entrada do país no Mercosul. Ele sabe que Chávez quer ser amigo para tirar vantagens, não para ser amigo. Lula é muito inteligente para cair nessa.
FOLHA - O sucesso do resgate de Ingrid Betancourt vai impulsionar a tese do terceiro mandato de Uribe?
VALENCIA - Sem dúvida, mas não se sabe se ele vai de fato buscar o terceiro mandato. Até porque muitos partidários dele na Colômbia não são partidários do terceiro mandato. No meu caso, pensando nele, a quem prezo muito, acho que um terceiro mandato pode lhe fazer perder politicamente muito do que já ganhou. O desgaste do segundo mandato já é real, a tendência do terceiro é ainda pior.
FOLHA - Se ele não disputar, quem será o candidato dele?
VALENCIA - Não creio que já tenha um, mas o que ele veria com mais gosto hoje seria o ministro da Defesa, Juan Manuel Santos, sobretudo depois desse êxito do resgate de Ingrid Betancourt.