Nacho Temiño
Varsóvia, 20 ago (EFE).- A secretária de Estado americana,
Condoleezza Rice, e o ministro de Assuntos Exteriores polonês,
Radoslaw Sikorski, assinaram hoje o acordo que permitirá aos Estados
Unidos posicionar seu escudo antimísseis na Polônia, um projeto que
a Rússia considera uma "ameaça direta".
Moscou sempre se mostrou contra a instalação de dez bases
balísticas americanas na Polônia, que tradicionalmente esteve na
zona de influência russa e que hoje mostrou, mais uma vez, ser um
dos principais aliados de Washington, como destacou a própria Rice
antes da assinatura do documento.
As plataformas de lançamento de mísseis, para cuja instalação foi
dado hoje o primeiro passo, ficarão no norte de país, perto do Mar
Báltico, funcionarão plenamente a partir de 2012 e atuarão junto com
um potente radar que ficará na República Tcheca, outro país da zona
de influência russa que agora se volta para a Casa Branca.
O Executivo da Polônia defende que o acordo assinado reforça a
segurança do país, enquanto os críticos afirmam o contrário e
sustentam que, a partir deste momento, o território polonês passará
a estar no ponto de mira em caso de conflito, como Moscou já havia
advertido.
"Este compromisso garante a segurança da Polônia, já que obriga
os EUA a defender os poloneses", disse hoje o primeiro-ministro
polonês, Donald Tusk, que nos últimos dias reiterou esta mensagem a
seus compatriotas.
"A Polônia e os Estados Unidos atuarão conjuntamente contra
qualquer ato militar e não militar de ameaça causado por terceiros,
e procurarão reduzir suas conseqüências", acrescentou Tusk.
No entanto, Moscou interpreta de maneira diferente o acordo
assinado hoje por americanos e poloneses, e vê no escudo antimísseis
uma ameaça contra seu território, o que deu lugar a sérias
advertências contra a Polônia.
Rice tentava apaziguar o Kremlin antes da assinatura, e disse que
o sistema balístico é "meramente defensivo e não aponta contra
ninguém", uma mensagem que até agora não serviu para tranqüilizar o
Governo russo, que, além da complicada situação na Geórgia, enfrenta
agora o estabelecimento de bases de mísseis na vizinha Polônia.
As ameaças russas se concretizarão inicialmente em um rearmamento
de seu Exército em Kaliningrado, território russo europeu entre solo
polonês e lituano, onde, segundo a imprensa polonesa, poderia chegar
a instalar armas nucleares nos próximos meses.
A proximidade de Kaliningrado é, justamente, uma das causas pelas
quais Varsóvia exigia uma grande ajuda militar americano em troca de
permitir a instalação de componentes do escudo antimísseis,
exigências que fizeram as negociações durarem 18 meses.
Finalmente, a Administração do presidente americano, George W.
Bush, cedeu às pretensões polonesas e aceitou instalar na Polônia
uma bateria de mísseis de médio alcance tipo Patriot, que será
operada por militares americanos.
Para muitos analistas militares, apenas uma plataforma de
lançamento de mísseis Patriot não é nada mais que um símbolo
político, já que, tecnicamente, são necessárias mais armas deste
tipo para conseguir uma proteção efetiva do país frente a ataques
aéreos.
Além disso, os especialistas duvidam da confiabilidade do escudo
antimísseis para detectar, interceptar e destruir eventuais mísseis
inimigos de longo alcance, provenientes de países como Irã e Coréia
do Norte.
No entanto, as dúvidas técnicas parecem ter ficado de lado
durante a assinatura do acordo, que só terá total validade quando
for ratificado pelo Parlamento polonês e pelo presidente do país,
Lech Kaczynski.
Por enquanto, o Executivo de Tusk prefere falar de "acordo
histórico" e adiar a ratificação até o resultado das eleições
americanas, já que uma eventual vitória do candidato democrata à
Casa Branca, Barack Obama, poderia jogar por terra o pacto assinado
hoje em Varsóvia.