As eleições regionais do próximo domingo na Venezuela estão sendo consideradas como um termômetro que medirá os resultados da "revolução bolivariana", em curso há quase uma década sob a liderança do presidente Hugo Chávez.
O tom da disputa foi colocado pelo próprio presidente venezuelano. No lugar de discutir problemas locais, como a criminalidade crescente, saneamento, saúde e educação, Chávez converteu a campanha em um plebiscito, cujo resultado colocaria em risco o "futuro da revolução".
"Nós estamos jogando o futuro da revolução, o futuro do socialismo, o futuro da Venezuela, o futuro do governo revolucionário e também o futuro de Hugo Chávez", afirmou o presidente venezuelano em um comício de campanha.
| Folha Online |
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Para o governo, o que está em jogo é o poder político e a capacidade de avançar ou não com o projeto socialista, na avaliação do cientista político Javier Biardeau, da Universidade Central da Venezuela (UCV).
"As eleições são um termômetro que avaliará o andamento da revolução e a capacidade de recuperação do governo da derrota sofrida no referendo do ano passado", afirmou Biardeau à BBC Brasil.
"Dependendo do número de Estados e de votos favoráveis ao chavismo, o governo avaliará até onde pode avançar e quais devem ser suas prioridades", acrescentou.
O desafio do governo será reconquistar cerca de 3 milhões de eleitores que não votaram no referendo da reforma constitucional do ano passado, fator determinante para a primeira derrota do governo em quase 10 anos de gestão.
Plebiscito
Para alcançar este objetivo, Chávez teria optado por utilizar sua popularidade, que supera 50% de aprovação, para transformar o pleito que contou com o uso explícito da máquina do governo em uma espécie de plebiscito.
"Se é chavista, está com Chávez, se não, está contra Chávez", disse o presidente em um comício.
De acordo com a consultoria Datanalisis, a estratégia do presidente venezuelano pode influenciar os eleitores na hora do voto. No início da campanha, pesquisas apontavam uma provável vitória da oposição em entre seis e oito Estados dos 23 em disputa. Agora, às vésperas das eleições, o panorama mudou.
Os opositores mantêm vantagem nos Estados de Zulia, Nova Esparta --já governados por opositores-- e Carabobo, onde o candidato do governo é o animador de um programa na TV estatal.
Nos Estados de Miranda (onde está a capital Caracas), Táchira, Barinas e Guárico, houve recuperação dos candidatos do governo e a disputa se acirrou nos últimos dias.
"O governo ganhará na maioria dos Estados, mas para a oposição o triunfo é mais simbólico que numérico", afirma o analista Vicente León, da Datanalisis
Disputa no Parlamento
Para Biardeau, o balanço final das eleições determinará a curto prazo a correlação de forças para as eleições à Assembléia Nacional, atualmente de maioria chavista, que serão realizadas em 2010.
"Se a oposição alcançar uma vitória significativa, começará imediatamente a campanha para conquistar maioria no parlamento. Se alcançarem esse objetivo, o projeto de Chávez enfrentará sérias dificuldades", afirma.
A oposição, por sua vez, acredita que depois das eleições o governo vai tentar aprovar a emenda constitucional que permitiria a reeleição presidencial indefinida.
Para Julio Borges, coordenador nacional do partido opositor Primeiro Justiça, uma vitória significativa da oposição poderia barrar o projeto.
"Isso é uma maratona rumo à liberdade. Quem parar, perde. São eleições regionais, mas são eleições nacionais (...) porque o contrapeso que surgir do 23 de novembro (dia das eleições) será essencial para frear a reeleição presidencial", afirma Borges.
Biardeau diz apenas uma vitória "arrebatadora", com mais de 60% do total de votos, permitiria ao governo apresentar, já no próximo ano, o projeto de reeleição.
Apesar de ter evitado o tema durante a campanha, Chávez não descartou a possibilidade de reeleição.
"Quatro anos é o que me falta (de governo) Não discutamos isso agora, conversamos depois de novembro (...) Deus é quem sabe", afirmou Chávez em um ato público de campanha.
Polarização
À frente da campanha, o presidente radicalizou o tom de seus discursos e ameaçou colocar seus adversários na cadeia, acusando-os de corrupção à frente dos governos regionais.
Manuel Rosales, atual governador de Zulia e candidato à prefeitura de Maracaibo, foi convertido no principal adversário da "revolução" durante a campanha.
Se as pesquisas se confirmarem, Rosales será eleito no domingo e manterá o reduto da oposição neste Estado.
Chávez também advertiu os meios de comunicação e ameaçou "retirar do ar e cancelar a concessão" daqueles canais que divulgarem resultados antes do boletim oficial do Conselho Nacional Eleitoral (CNE).
De acordo com o CNE, 134 observadores internacionais acompanharão o pleito.
Cerca de 17 milhões de venezuelanos deverão comparecer às urnas neste domingo para escolher 23 governadores e 328 prefeitos, além de 233 legisladores regionais. O voto na Venezuela é facultativo.