Beit Bridge, África do Sul, 21 nov (Lusa) - As autoridades sul-africanas acionaram um plano de emergência para vigiar e tratar todos os refugiados do Zimbábue, país que registra uma epidemia de cólera. Quatro pessoas já foram mortas pela doença na África do Sul.
Brian Ramatshoala, um médico que trabalha em Musina, a localidade mais próxima do posto fronteiriço sul-africano de Beit Bridge, disse à Agência Lusa que há uma ameaça real de saúde pública com origem no Zimáabu, devido às pessoas que fogem do país em busca de alimentos e trabalho na África do Sul.
Um caminhoneiro zimbabuano morreu na cidade fronteiriça de Durban, onde deveria carregar mercadorias destinadas ao seu país.
Ramatshoala afirmou estar "desconsolado com a situação dos irmãos e irmãs" do Zimbábue. Na quinta-feira, viu uma zimbabuana morrer de cólera na África do Sul, "o porto seguro onde ela esperava encontrar alívio para a fome, para a doença e a indignidade de não ser capaz de alimentar os filhos".
Equipes de emergência estão monitorando uma média de 80 refugiados por dia na zona fronteiriça, um local onde os que passam a fronteira apenas demoram poucas horas, até pegarem transportes para as maiores cidades sul-africanas, onde esperam encontrar empregos e segurança.
O caminhoneiro afirmou ser "extremamente difícil manter a situação sanitária sob controle uma vez que aqueles que ainda têm forças para caminhar não se dirigem voluntariamente aos postos de controlo sanitário com receio de serem detidos pela polícia sul-africana e repatriados para o Zimbábue".
Epidemia
Em Musina e Beit Bridge, foram criados centros de emergência onde os doentes com cólera são tratados e reidratados, mas mais e mais continuam chegando diariamente e as autoridades estão seriamente preocupadas com a situação.
Em nove das dez províncias do Zimbábue, o cólera está se espalhando com grande intensidade, segundo números oficiais que calculam 90 mortos, sem mencionar os hospitalizados.
O embaixador norte-americano no Zimbábue, James McGee, disse que o número total de vítimas fatais da epidemia é de 297. Outros diplomatas dizem que os números de McGee são mais realistas do que os das autoridades.
"Com o sistema de saúde em colapso, os hospitais sem médicos, sem medicamentos, eletricidade ou água potável e com as atividades das organizações não-governamentais seriamente limitadas pelo governo de [Robert] Mugabe", disse à Lusa um diplomata europeu com base em Harare, que pediu para não ser identificado.
Em quase todo o país, a água potável deixou de ser fornecida há meses e em caráter permanente. A população é forçada a usar a água de rios, ribeiros e riachos muitas vezes seriamente poluídos e infectados com bactérias.
A Associação Médica do Zimbábue pediu ao governo para declarar o estado de desastre nacional para combater o cólera e o estado deplorável em que o sistema de saúde caiu.
Acordo
O governo do presidente sul-africano, Kgalema Motlanthe, embora não acusando Mugabe diretamente de ser responsável pela crise, exigiu novamente na quinta-feira que os negociadores da Zanu-PF (partido de Mugabe) e do MDC (oposição) cheguem rapidamente a acordo sobre a constituição do governo de unidade.
A medida seria a única forma de o poder passar à legitimidade, fazendo com que a comunidade internacional inicie programas de reabilitação da economia e de caráter humanitário.
Um pacote de ajuda à agricultura zimbabuana no montante de 300 milhões de randes (R$ 67 milhões), orçamentado pelo governo sul-africano não será disponibilizado até que as partes em conflito cheguem a acordo sobre a distribuição de pastas no novo governo.