O presidente hondurenho deposto, Manuel Zelaya, partiu na tarde deste domingo em um voo de Washington em direção a Honduras, informou a rede de TV Telesur, que tem um jornalista a bordo do avião. O presidente da Assembleia Geral da ONu (Organização das Nações Unidas), o ex-chanceler nicaraguense Miguel D'Escoto, também está no avião, mas, diferentemente do que o próprio Zelaya havia anunciado neste sábado, nenhum presidente o está acompanhando na viagem de volta ao país, uma semana depois de ter sido deposto e expulso do país pelo Exército, com apoio do Congresso e da Suprema Corte.
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O diretor da Aeronáutica Civil de Honduras, Alfredo San Martín, assegurou que o avião que transporta o presidente deposto aterrissará em El Salvador porque não tem autorização para pousar em território hondurenho. As novas autoridades hondurenhas, cujo governo não foi reconhecido por nenhum país, têm alertado que, se o presidente deposto voltar ao país, ele será imediatamente preso, acusado de abuso de autoridade, violação dos deveres dos funcionários e traição, entre outros crimes.
A deposição aconteceu nas primeiras horas do último domingo, dia em que Zelaya pretendia fazer uma consulta popular sobre mudanças na Constituição, que havia sido considerada ilegal pela Justiça.
Os adversários dizem que Zelaya, cujo mandato termina no início do próximo ano, pretendia derrubar a cláusula que impede a reeleição, sob inspiração de seu aliado Hugo Chávez, que na segunda tentativa conseguiu aprovar por voto popular o fim do limite para reeleições na Venezuela.
A derrubada de Zelaya foi repudiada internacionalmente, e neste sábado, após uma visita infrutífera de seu secretário-geral, José Miguel Insulza, a Honduras, a OEA decidiu suspender a participação de Honduras no órgão interamericano em resposta ao que considera ter sido um golpe de Estado, embora o governo interino insista que seguiu a Constituição do país.
Esta foi a primeira vez desde a assinatura da Carta Democrática Interamericana, em 2001, que os países-membros da OEA decidem pela suspensão. A única medida do tipo anterior a esta ocorreu em 1962, quando Cuba foi tirada do bloco. Apesar do apoio internacional, o presidente do Equador, Rafael Correa, a presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, e do Paraguai, Fernando Lugo, decidiram não acompanhar a tentativa de retorno de Zelaya. Juntamente com o secretário-geral da OEA, eles anunciaram que viajarão a El Salvador.
"Se Zelaya aterrissar e considerar oportuno, iremos", disse em Washington o presidente do Equador, dizendo que vai acompanhar de perto os eventos. "Há uma grande mobilização de pessoas em Tegucigalpa e nós não sabemos se o governo interino ou o alto escalão militar vão se atrever a reprimir essas pessoas. Então nós decidimos que o mais prudente era que o presidente da Assembleia Geral da ONU, Miguel D'Escoto, acompanhasse o presidente Zelaya na volta a Tegucigalpa."
Neste sábado, o cardeal Oscar Andrés Rodríguez, a mais alta autoridade católica de Honduras, reconheceu a legitimidade do novo governo e apelou ao "amigo José Manuel Zelaya" para que não retornasse ao país neste domingo.
"Pensemos se um regresso precipitado ao país, neste momento, poderia desencadear um banho de sangue. Eu sei que você ama a vida, eu sei que você respeita a vida. Até hoje ninguém morreu em Honduras. Por favor, medite, porque depois seria tarde demais", disse o cardeal.
Segundo a rede CNN, muitos dos líderes dos protestos contra o novo governo e em favor do retorno de Zelaya são padres católicos, o que sinaliza uma divisão entre a alta hierarquia da igreja no país e parte da base de religiosos, influenciada pela Teologia da Libertação, corrente de inspiração marxista que defende um papel ativo da igreja em questões sociais.
Golpe
Zelaya foi derrubado do poder no último domingo (28) em um golpe orquestrado pela Justiça e pelo Congresso e executado por militares, que o expulsaram para a Costa Rica. O golpe foi realizado horas antes do início de uma consulta popular sobre uma reforma na Constituição que tinha sido declarada ilegal pelo Parlamento e pela Corte Suprema.
"Fui retirado da minha casa de forma brutal, sequestrado por soldados encapuzados que me apontavam rifles", contou o presidente deposto, após chegar ao exílio na Nicarágua.
"Diziam: 'se não soltar o celular, atiramos'. Todos apontando para minha cara e o meu peito. [...] Em forma muito audaz eu lhes disse: 'se vocês vêm com ordem de disparar, disparem, não tenho problema de receber, dos soldados da minha pátria, uma ofensa a mais ao povo, porque o que estão fazendo é ofender o povo'."
De acordo com os parlamentares hondurenhos, a deposição de Zelaya foi aprovada por suas "repetidas violações da Constituição e da lei" e por "seu desrespeito às ordens e decisões das instituições". Segundo os seus críticos, com a consulta, Zelaya pretendia instaurar a reeleição presidencial no país. As próximas eleições gerais serão em 29 de novembro.
Depois da saída de Zelaya do país, no Congresso de Honduras, um funcionário leu uma carta com a suposta renúncia, o que ele nega. Zelaya diz ter sido alvo de "complô da elite voraz"; e seu sucessor, Roberto Micheletti, diz que o golpe foi um "processo absolutamente legal".
Com agências internacionais