Há 20 anos, o Muro de Berlim foi aberto, e os acontecimentos se desenrolaram com tal rapidez que pareceram ter sido inevitáveis.
Mas será que foram?
A unificação da Alemanha é uma história de como líderes e diplomatas movimentaram-se rapidamente para transformar um terremoto político em uma nova ordem política e de segurança para a Europa. Mas ela é também a história de como essa política respondeu ao povo alemão e baseou-se nas ações deste. A diplomacia dos Estados Unidos pautou-se na necessidade de confiar no povo alemão como parceiro para se chegar à unificação.
O secretário de Estado James Baker e eu acreditamos que os alemães orientais seriam uma força propulsora rumo à unidade. Nós suspeitamos que o cidadão alemão oriental comum desejava aquilo que os seus primos tinham na Alemanha Ocidental - e que a maioria dos alemães orientais podia ver nas redes de televisão ocidentais.
O interessante é que não era esta a visão da missão dos Estados Unidos na Alemanha Oriental. Os diplomatas norte-americanos naquele país mantinham contato com os corajosos dissidentes que desafiaram o regime comunista; aqueles intelectuais desejavam encontrar uma "terceira via" intermediária entre o comunismo e o capitalismo. Mas a população não.
Me recordo de uma visita feita pelo secretário Baker a uma igreja luterana em Potsdam, em dezembro de 1989, apenas semanas após a queda do Muro de Berlim. Eu ouvi cuidadosamente os pastores e as lideranças leigas narrando tristemente que a congregação da igreja desejava a prosperidade do Ocidente, e não uma nova experiência na Alemanha Oriental.
Aquilo comprovou duas crenças importantes: primeiro, a Alemanha Ocidental era o Estado alemão legítimo aos olhos de todos os alemães; segundo, os acontecimentos poderiam criar um ímpeto que a Alemanha Ocidental e os Estados Unidos seriam capazes de usar para alcançar a unificação alemã.
Mas esse ímpeto também implicava em riscos: um processo diplomático paralisado poderia desencadear uma migração maciça a partir do leste; um processo que não fosse guiado poderia provocar uma resistência perigosa dos soviéticos ou dos europeus que temiam uma Alemanha unificada; e a oposição desses protagonistas, por sua vez, poderia desencadear manifestações incontroláveis contra autoridades locais e forças de ocupação enfraquecidas.
A fim de oferecer tranquilidade em meio ao tumulto de 1989, o conceito estratégico dos Estados Unidos foi o de que pessoas livres desfrutassem de governos baseados no consenso, em um processo que conduzisse a uma Alemanha unificada dentro de uma Europa mais integrada.
Essa Europa integrada e livre estaria vinculada aos Estados Unidos por meio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e de ligações mais profundas com aquilo que mais tarde se transformaria na União Europeia. Nós precisávamos também criar novas estruturas cooperativas com a então União Soviética.
Estávamos conscientes da necessidade crítica de comunicação com o povo - especialmente na Alemanha e na Europa. Nós desejávamos mostrar ao povo alemão que os Estados Unidos estavam ao lado da Alemanha naquele momento definidor da história. As chamadas negociações Dois-Mais-Quatro - nas quais o próprio nome reconhecia o papel de liderança das duas Alemanhas, juntamente com Reino Unido, França, União Soviética e Estados Unidos - foram iniciadas em fevereiro de 1990 para ajudar a conduzir os aspectos externos da unificação alemã.
Sempre houve o risco de que, embora aceitassem a unificação, os soviéticos pudessem postergar a consolidação internacional da Alemanha ou impor limites como preço pela unidade. Portanto, o secretário Baker sempre enfatizou o nosso apoio à unificação da Alemanha em termos de liberdade, e não de imposição à Alemanha de um tratamento discriminatório, incluindo limites às suas opções de alianças. Aquela postura impediu que gerações posteriores de alemães viessem a sentir que foram tratadas injustamente, e ao mesmo tempo alinhou os interesses norte-americanos àqueles de uma Alemanha soberana e democrática.
As autoridades dos Estados Unidos tiveram a felicidade de ver o povo norte-americano expressar forte apoio à unificação - algo que eu tenho orgulho de ter presenciado. Essa confiança pública na Alemanha permitiu que a diplomacia dos Estados Unidos fosse mais ágil. No início de 1990, quando o chanceler Helmut Kohl recusou-se a assumir um compromisso firme quanto à fronteira polonesa, o presidente George H.W. Bush pôde tranquilizar discretamente a Polônia, impedindo que Kohl enfrentasse uma crise.
Relações pessoais fortes entre líderes fazem uma grande diferença. O mais importante foi que o chanceler Kohl e o presidente Bush confiavam um no outro. A relação do secretário Baker com o ministro das Relações Exteriores, Hans-Dietrich Genscher, e a sua confiança no ministro das Relações Exteriores soviético, Eduard Shevardnadze, também possibilitaram um tipo de diplomacia incomum.
Antes da reunião de cúpula da Otan de julho de 1990, Baker descreveu a Shevardnadze as iniciativas que os Estados Unidos esperavam que fossem adotadas pela organização. O aviso antecipado permitiu que Shevardnadze aprovasse publicamente as aberturas quando estas foram anunciadas, prevenindo ações de oponentes soviéticos. Nós estávamos em um estágio no qual os ministros das Relações Exteriores norte-americano e soviético eram capazes de planejar secretamente como utilizar a linguagem experimental da Otan para persuadir a União Soviética a aceitar uma Alemanha unificada.
Em várias ocasiões, a confiança que os norte-americanos tinham em autoridades alemãs como Frank Elbe e Horst Teltschik nos permitiram agir em resposta a acontecimentos que se desenrolavam velozmente, colocando os dois países consistentemente à frente dos outros que tentavam resistir ao ímpeto dos fatos.
No decorrer dos últimos 20 anos, os alemães alcançaram realizações importantes. Ele ajudaram a integrar os países da Europa Central e Oriental à União Europeia e ao sistema de segurança transatlântica da Otan. E eles também ajudaram a construir de forma pacífica uma histórica União Europeia.
A crise econômica global foi o primeiro grande teste para esta nova Europa. Os Estados europeus, apesar de todos os seus debates internos, reconheceram a sua interdependência. Sob estresse, a Europa não se dividiu.
Robert B. Zoellick, presidente do Banco Mundial, foi o principal participante norte-americano das negociações "Dois-Mais-Quatro", em 1989. Tradução: UOL