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Terça-feira, 21 de outubro de 2014

BOL Notícias

A guerra do ferro entre siderúrgicas e mineradoras, encabeçadas pela Vale

Le Monde

Marcos Issa/Bloomberg News

Minério de ferro no terminal marítimo da Vale em Ponta da Madeira, Estado do Maranhão

Alain Faujas
Lana Lim

O julgamento, encerrado em Xangai na quarta-feira (24), de quatro executivos da mineradora Rio Tinto, acusados de “espionagem comercial” e de “corrupção”, é só um episódio da batalha que há mais de um ano ocorre entre as siderúrgicas de porte mundial e os três maiores produtores de ferro, a brasileira Vale e as anglo-australianas BHP-Billiton e Rio Tinto.

Na verdade, as siderúrgicas chinesas não são mais as únicas a denunciarem o monopólio dessas três gigantes e a pedir a intervenção de seu governo em suas negociações com as empresas mineradoras. Há alguns dias a associação das siderúrgicas europeias Eurofer pediu para que a Comissão Europeia a apoiasse diante desse “cartel” que pratica, segundo ela, um “abuso de posição dominante”, pois a Europa corre o risco de lhe ter imposta uma alta de 80% do preço do minério, em um mercado do aço que ainda sofre com a recessão.

Há décadas o ferro é alvo de um verdadeiro ritual. Todo outono siderúrgicas e mineradoras se encontram para discutir preços praticáveis durante um ano a partir de 1º de abril do ano seguinte. As negociações duram até que uma siderúrgica europeia ou japonesa entre em acordo com um fornecedor brasileiro ou australiano sobre as quantidades e os preços. Os outros participantes seguem esse contrato de referência. O mercado à vista, ou “spot”, até agora só representava 5% do bilhão de toneladas de ferro comercializado a cada ano no mundo. Esses preços garantidos têm a vantagem de dar uma visibilidade de um ano aos vendedores, que podem decidir os investimentos necessários, e aos compradores, que constroem sem riscos sua oferta comercial de aço.

“A China desequilibrou tudo”, comenta um analista europeu, “pois ela aumentou muito sua produção de aço em 2008-2009, em plena crise, e importou ferro em grande quantidade. As mineradoras não querem que o preço de referência continue sendo fixado contratualmente em US$ 60 a tonelada, sendo que o preço se aproxima dos US$ 140 no mercado spot, pois a China compra ali 70% de suas necessidades. Agora eles querem preços de mercado e, assim como para o carvão para caldeiras a vapor, eles querem trocar o preço anual por um preço trimestral indexado sobre o spot. A oferta é hoje limitada, pois as minas operam em capacidade máxima; a demanda de ferro continua forte. Em outras palavras, são as mineradoras que têm o controle, gostem os chineses e os europeus ou não”.

Estes últimos não veem as coisas dessa forma. “Nada justifica o aumento de preços em 80% apresentado pela Vale”, protesta Gordon Moffat, diretor-geral da Eurofer. “Nos cinco últimos anos, nossas empresas siderúrgicas sofreram aumentos anuais de 50% a 70%, devido à emergência da China e ao forte crescimento mundial. As mineradoras registraram então margens de 50%! Hoje, constatamos uma retomada de nossa produção de aço de somente 8,6% em relação a 2009, após uma queda de 35% no ano passado. Nossos preços ainda estão retraídos em 40%: a demanda das siderúrgicas é injustificada”.

A indústria siderúrgica europeia teme ainda mais pela relação de poder que se inicia, uma vez que a Rio Tinto e a BHP Billiton planejam compartilhar suas minas de ferro australianas. Esse novo conglomerado reforçado pela Vale, atual número um mundial, poderá se aproveitar de seu duopólio para impor seus preços a seus clientes. Gordon Moffat fala em “diktat”. Ele confirma que as negociações estão suspensas, e que a Eurofer apelou para Bruxelas a respeito da fusão Rio-BHP e seu acordo com a Vale - flagrante, segundo ele. Pequim escolheu uma via mais radical. Em 5 de junho de 2009, a chinesa Chinalco foi impedida definitivamente de subir para US$ 19,5 bilhões sua participação no capital da Rio Tinto. Em 30 de junho, as negociações sobre os preços entre a China Iron & Steel Association e as mineradoras australianas fracassaram. Em 5 de julho, o representante da Rio em Xangai, Stern Hu, além de três outros funcionários da Rio, foram detidos e acusados de terem roubado “segredos comerciais”. Em Pequim, negam que essa acusação tenha alguma relação com as decepções chinesas na área do ferro.

Entretanto, os laços não foram cortados. Primeiro, a justiça chinesa transformou a acusação de roubo de segredos de Estado – que poderia resultar na condenação à morte de Stern Chu – em acusação por “espionagem econômica” e “corrupção”, crimes que são punidos com “somente” vinte anos de prisão.

Em seguida, a Rio e a Chinalco assinaram, no dia 19 de março, um acordo para explorar conjuntamente (53%-47%) a jazida de ferro de Simandou (Guiné), uma das mais ricas do mundo. Os dois grupos teriam também um projeto comum na Mongólia. Por fim, Tom Albaneses, diretor-geral da Rio, participou, na segunda-feira (22), de um fórum durante o qual ele defendeu o “reforço da cooperação mundial para construir um futuro mutuamente rentável”. Ele esteve entre os presidentes de empresa recebidos pelo primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao. Os protagonistas do ferro continuam a brincar de gato e rato.

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