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Segunda-feira, 28 de julho de 2014

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Droga no trabalho: "eu fumo maconha para não estrangular meu patrão"

Le Monde

Roberto Assunção/Folhapress - 5.março.2004

Maioria para com a droga ao mesmo tempo que deixa o cargo ou a empresa que os levou a começar

Judith Duportail
Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Quem encontra Samira* pela primeira vez não tem a menor dúvida: é uma mulher de sucesso. Na direção de sua própria empresa em excelente saúde financeira, ela suporta a quarentena com grande elegância. Seus gestos, assim como suas palavras, são seguros, controlados, diretos. É muito calmamente, sem se deixar submergir pela emoção, que ela conta como caiu na dependência.

"Comecei com a cocaína aos 30 anos. A droga veio com o sucesso social. Eu havia montado minha empresa, ganhava muito dinheiro, convivia com pessoas elegantes, vestia-me com grandes costureiros, pensava que podia controlar tudo." Primeiro foi uma linha de cocaína uma vez por semana, para ficar acordada durante os longos fins de semana de trabalho. Depois uma outra durante a semana. Uma terceira. E depois quatro por dia. "Eu não conseguia me levantar de manhã sem minha carreira, tinha muita necessidade disso para aguentar o tranco no trabalho. E depois a coca me dava a ilusão de segurança, eu ousava dizer coisas um pouco duras para a 'pequena árabe de apenas 30 anos' que eu era."

Depois de alguns anos o pó branco não bastava mais. "À noite eu não conseguia dormir, então usava heroína." A mulher de negócios acabou no hospital, não conseguia mais se levantar nem mover o corpo de apenas 35 quilos.

Samira não é um caso excepcional. Ela faz parte dos 10% de trabalhadores (segundo a Missão Interministerial de Combate à Droga e à Toxicomania) que têm necessidade de drogas para enfrentar o trabalho. Hoje a jovem tem acompanhamento e deixou de se drogar há dois anos, apesar de algumas recaídas. E desacelerou bastante no lado do trabalho.

"Uma Volta da França todos os dias"

Michel Hautefeuille, psiquiatra no centro Marmottan, dá consultas a esses viciados em trabalho. "Os pacientes são dopados, e não toxicômanos. Eles são como esportistas, exceto que a Volta da França [principal competição do ciclismo mundial e que acontece na França] acontece todos dias." O toxicômano consome o produto pelos efeitos que ele produz: é um fim em si mesmo. O dopado consome a droga como um meio para ser eficaz. "Eu nunca quis fazer festa, nunca tomei droga para ficar maluca", explica Samira. A maior parte deles para com a droga ao mesmo tempo que deixa o cargo ou a empresa que os levou a começar.

Cocaína, anfetaminas e maconha não são um problema só para modelos, corretores da bolsa ou publicitários. Os setores mais afetados são os motoristas de caminhão, marinheiros, garçons e profissionais da área médica. "Eu também atendo empregados do correio", conta o médico. "O correio oferece cada vez mais serviços com cada vez menos pessoal. Os usuários ficam muito tempo na fila e se vingam nos atendentes. Eles são submetidos a uma grande violência."

"Meu chefe me segue até o banheiro"

Mãe de quatro filhos, Béatrice foi entregadora de cartas durante dez anos antes de trabalhar em um centro de triagem: "O ambiente no trabalho se degradou consideravelmente. Meu chefe, por exemplo, quando acha que eu faço pausas demais para ir ao banheiro no mesmo dia, me segue até o banheiro, espera atrás da porta e anota quanto tempo eu passo lá. Comecei a tomar ansiolíticos em junho. Antes de ir para o trabalho, às vezes eu telefono para meu médico, de tanto medo que tenho de ir."

O marido dela, também funcionário do correio, está tomando ansiolíticos: "Nós trocamos nossos comprimidos conforme o humor do dia", brinca a jovem. "Quando um dos meninos volta da escola com uma nota ruim, temos um exemplo concreto para lhe mostrar: 'Estude bastante, se não você vai acabar como o papai e a mamãe! Terá de tomar pílulas todos os dias!'"

Evolução do estresse no trabalho

A violência, a hostilidade entre os colegas ou com os superiores também conduz os funcionários à droga. Paul era paisagista, e respondia a um chefe que hoje qualifica como "lixo". "Eu fumava baseados de manhã antes de ir para o trabalho para não ficar nervoso, para não estrangular meu patrão! Fumava outro ao meio-dia para que a tarde passasse mais depressa e para me refugiar em uma reflexão interior, não me confrontar com ele." Hoje ele mudou de emprego e não toca mais em droga.

Por que tantos assalariados chegam a correr riscos para cumprir sua missão? Para Michel Hautefeuille, o estresse e a insegurança evoluem: "O estresse é mais intenso pois o risco de perder o emprego não depende mais de resultados". Com a crise e as dificuldades que ela acarreta para as empresas, não basta mais fazer bem o trabalho para conservar o emprego.

Como explica Nicole Aubert, autora de "Culte de l'urgence" [O culto da urgência]: "A gestão do pessoal é calcada na gestão dos estoques chamada de 'just in time': todo empregado deve ser imediatamente eficaz, sendo qualquer tempo de adaptação considerado não rentável, portanto, tempo perdido".

Café pode causar danos

Com o estresse, avança o sentimento de não estar à altura. Mesmo sem tomar drogas fortes, alguns adoecem de tanto tomar café e bebidas energizantes do tipo Red Bull. Diretora de comunicação em uma empresa parisiense, Mauve tem 25 anos. Para "se aguentar de pé" durante um período de esgotamento, ela toma mais de um litro de café por dia. Ou seja, cerca de 15 "espressos". Teve insônia, problemas cardíacos, e precisou ser acompanhada para parar, como "uma drogada", ela conta. "Eu tremia, tinha crises de pânico, de angústia. Hoje só tenho direito a um café por dia, e o saboreio!"

Ao lado dos viciados em café, também há os fanáticos por refrigerantes. Charlotte trabalha na mídia. Todos os dias às 16 horas em ponto seus colegas sabem onde encontrá-la. Ela pega uma lata de Coca Light na máquina. "Não posso passar sem ela, senão fico realmente muito contrariada. Se não houver mais na máquina, saio para comprar. Para mim, a Coca Light é sinônimo de pausa, é bom, refrescante. Estou simplesmente viciada."

O vício em Coca-Cola não é uma fantasia, segundo Bruno Journe, estudioso de dependências: "A Coca-Cola é rica em sal, o que pode provocar uma espécie de dependência. Ela é acompanhada de um hábito psicológico, como o ruído de abrir a lata, as bolhas, a cor da embalagem. Os riscos para a saúde estão ligados principalmente ao açúcar contido nos refrigerantes. A Coca Light, mesmo que não faça engordar diretamente, tem um sabor doce. E como o açúcar atrai açúcar, ela leva a comer."

Os chefes de empresas se preocupam com isso? Alguns grandes grupos tentam implementar uma política de prevenção, como nas empresas públicas de transportes, que apelam para os "policiais formadores" antidrogas, que antes só atuavam nos colégios e escolas. Mas para Michel Hautefeuille as empresas funcionam um pouco como federações esportivas: "Enquanto um escândalo não estoura, elas mantêm silêncio. Consumo de substâncias e desempenho e rentabilidade não são mais, pelo menos em curto prazo, opostos - muito pelo contrário".

Uma análise que é compartilhada por Sidonie, garçonete em um clube noturno na Córsega. A jovem, estudante durante o resto do ano, recorreu à cocaína para aguentar o pique do trabalho à noite: "Nosso patrão sabe que usamos cocaína, ele vê os empregados irem ao banheiro a cada meia hora. Ele não diz nada, para ele é bom que os empregados sejam sobre-humanos".

* Os nomes foram modificados

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