
12/02/2012 - 06h00 | do UOL Notícias
Reuters
Príncipe William (esq) participa de missão nas Ilhas Malvinas
Fernanda Calgaro
Do UOL, em Londres
A crescente tensão entre a Argentina e o Reino Unido sobre a disputa pelas Ilhas Malvinas (chamadas de Falklands pelo Reino Unido), que recentemente voltou a ocupar a agenda política e diplomática dos dois países, deve arrefecer tão logo passe o 30º aniversário da guerra, em abril, segundo Francisco Panizza, professor da London School of Economics e especialista em política na América Latina.
"Trata-se de uma questão política pela soberania do arquipélago e o Reino Unido aproveita a data para reafirmar o seu controle sobre a região, mas nenhum dos dois governos tem interesse real em ir para a guerra novamente", opina.
A avaliação do historiador Andrew Thompson, professor da Universidade de Cambridge, é semelhante. "O Reino Unido usa a ocasião para demonstrar o seu poderio na região, mas não deve passar disso. É também uma maneira de assegurar a sua identidade nacional, num momento em que a Escócia define se conduzirá um referendo sobre a sua independência, e até distrair a opinião pública diante de um cenário interno de crise econômica." Ele ressalta ainda que a exploração de petróleo na costa do arquipélago também ajudou a reavivar a disputa pelo território, sob controle britânico desde 1833.
O Reino Unido chegou a enviar recentemente um moderno submarino de guerra à região e, desde o início deste mês, o príncipe William, segundo na linha de sucessão do trono britânico, está no arquipélago para exercícios de rotina como piloto de helicóptero.
As medidas foram duramente criticadas pela presidente argentina, Cristina Kirchner, que as classificou como "militarização" do Atlântico Sul. Nesta sexta-feira (10), o ministro de Relações Exteriores da Argentina, Héctor Timerman, chegou a apresentar uma reclamação formal à Organização das Nações Unidas (ONU).
O Reino Unido nega a militarização da região e diz que mantém a sua "postura defensiva" em relação às ilhas. O governo britânico se recusa a negociar com a Argentina sobre a posse do território, alegando que a maioria dos 3.000 moradores da região prefere continuar sob controle inglês.
Para Robert Jobson, historiador especializado na monarquia britânica, era desnecessária a presença do príncipe William nas ilhas. "O Reino Unido está no direito de preservar a legitimidade do seu território, mas não era preciso enviar um futuro rei em seu uniforme para lá."
Panizza também vê certo exagero. "A Argentina reduziu os seus gastos de defesa e dificilmente teria condição de montar uma operação nas ilhas. Do ponto de vista do governo britânico, que vive um momento de crise econômica, a reivindicação das ilhas dá certo capital político para o Partido Conservador, o mesmo que estava no poder quando aconteceu a guerra."
O conflito armado teve início no dia 2 de abril de 1982 e terminou após 74 dias de guerra com a rendição das tropas argentinas. No total, morreram 255 britânicos e 649 argentinos.