13 dos 14 suspeitos de tortura para obter confissão de estupro estão presos no Paraná; falta o delegado

Rafael Moro Martins
Do UOL, em Curitiba

  • Reprodução/CGN

    Exame de contraprova confirma que suspeitos presos não abusaram de Tayná (foto)

    Exame de contraprova confirma que suspeitos presos não abusaram de Tayná (foto)

Treze dos 14 suspeitos de torturar os quatro rapazes que confessaram ter estuprado e matado Tayná Adriane da Silva, 14, já estão presos em Curitiba. O único que ainda não se entregou é o delegado Silvan Rodney Pereira, que comandou a delegacia do Alto Maracanã, em Colombo  (região metropolitana de Curitiba), onde foi responsável por prender os jovens e afirmou que eles confessaram o crime. A prisão deles foi decretada no final da tarde desta quarta-feira (17) pela Justiça de Colombo (região metropolitana de Curitiba), onde Tayná foi encontrada morta no último dia 28.

"Ele vai se apresentar à Corregedoria da Polícia Civil. Não posso dizer quando, por resguardo da defesa. Neste momento, o delegado Silvan está se atualizando do decreto de prisão", disse o advogado Claudio Dalledone Junior, que defende Pereira. "O decreto [de prisão] foi embalado pela voz dos principais suspeitos de um dos crimes que mais abalou a opinião pública do Paraná", criticou o advogado. Não tenha dúvida [de que vou pedir a revogação]."

Segundo Dalledone, Pereira "nega de forma veemente as acusações de tortura". "Ele é inocente. Vou provar que isso não ocorreu na delegacia do Alto Maracanã." Já foram presos nove policiais civis, um soldado da Polícia Militar, um auxiliar de carceragem, um guarda municipal de Araucária (também na região metropolitana) e um preso "de confiança" da delegacia do Alto Maracanã, em Colombo.

As prisões, por tempo indeterminado, ocorrem a pedido do MPE (Ministério Público Estadual). Além delas, a Justiça também acatou pedido para que outros seis policiais civis sejam afastados de seus cargos. "A prisão de todos é preventiva, por tempo indeterminado, conforme a necessidade do processo. Serve, principalmente, para que não interfiram na investigação", informou o coordenador do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate Ao Crime Organizado), o promotor Leonir Batisti.

Justiça pede a prisão de policiais acusados de tortura

As prisões dos policiais civis foram feitas pela Corregedoria da instituição. Todos foram levados à Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos, na Vila Izabel (região Oeste de Curitiba). "Os policiais do Alto Maracanã não praticaram tortura nenhuma. Fizeram um louvável trabalho de investigação e foram os maiores mantenedores da integridade física dos suspeitos, que foram ameaçados pela população, que ameaçou invadir a delegacia", afirmou o advogado Marluz Dalledone, que defende oito dos nove policiais presos.

"Temos robustas provas de que eles saíram da delegacia sem lesões", falou, sem entrar em detalhes. A prisão preventiva do "preso de confiança" suspeito de também torturar os rapazes serve para que ele permaneça detido caso seja posto em liberdade no outro processo que responde. O MPE não soube informar por qual crime ele está preso.

"Inocentes"

Adriano Batista, 23 anos, Sérgio Amorin da Silva Filho, 22 anos, e Paulo Henrique Camargo Cunha, 25 anos, segundo o inquérito da Polícia Civil, "mataram Tayná depois de terem mantido relações sexuais à força com ela. Ezequiel Batista, 22 anos, irmão de Adriano, também está preso por ter acompanhado tudo que ocorreu de maneira muito próxima e nada ter feito para evitar".

À OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e ao MPE, porém, eles disseram ter confessado sob tortura. "Eles são inocentes, não têm relação nenhuma [com a morte de Tayná]. Ninguém tem dúvida disso, nem os delegados que estão conduzindo o caso. Não têm relação nenhuma", disse nesta quarta o procurador-geral da OAB-PR, Andrey Salmazo Poubel, que assumiu a defesa dos quatro.

Também na quarta (17) à noite, a OAB-PR informou que a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos e à Polícia Federal aprovaram a inclusão dos "jovens vítimas de tortura na investigação do caso Tayná" no Programa Federal de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas. Segundo a Ordem, os quatro já estão sob proteção do programa federal, fora do Paraná.

O caso

Tayná desapareceu na terça-feira (25 de junho) quando voltava para casa. Os quatro rapazes foram presos por volta das 13h da quinta (27). No dia seguinte, o corpo da jovem foi encontrado submerso num poço na região. Segundo a polícia, os suspeitos confessaram ter estuprado e assassinado a garota. Os quatro trabalham num pequeno parque de diversões instalado na cidade, que foi incendiado e depredado por moradores revoltados com o crime.

Na terça (9), porém, a Secretaria da Segurança Pública admitiu que o sêmen encontrado nas roupas íntimas de Tayná não é de nenhum deles. Na quarta-feira (10), integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) ouviram dos suspeitos que a confissão do estupro e da morte de Tayná ocorreu mediante tortura de policiais em delegacias.

Por conta das denúncias de tortura, a Polícia Civil afastou na quinta (11) que foram afastados temporariamente de suas "funções policiais" os delegados Agenor Salgado Filho e Silvan Rodney Pereira. Salgado era o chefe da corporação na região metropolitana de Curitiba, e Pereira prendeu os suspeitos e afirmou que eles confessaram o crime.

No domingo (14), a polícia comunicou que "está afastando temporariamente todos os policiais da Delegacia do Alto Maracanã, localizada em Colombo." Nesta segunda (15), a Justiça determinou a soltura dos supeitos, que devem ficar sob proteção do Estado. O MPE deu prazo de 30 dias à polícia para que apresente um novo inquérito sobre o caso. Em nota, a Polícia Civil confirma apenas que "toda a investigação do caso Tayná está sendo refeita". 


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