Brasileiros lideram pesquisa que busca causa e tratamento para alzheimer

Lilian Ferreira*
Do UOL, em Montreal

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    Pesquisadores buscam peça do quebra-cabeça que fará entender causa da doença que afeta 35,6 milhões de pessoas no mundo, segundo a OMS

    Pesquisadores buscam peça do quebra-cabeça que fará entender causa da doença que afeta 35,6 milhões de pessoas no mundo, segundo a OMS

"Pesquisas sobre o tratamento de alzheimer tiveram resultados negativos nos últimos anos", afirma Paulo Caramelli, especialista em alzheimer e um dos organizadores do congresso Cérebro, Comportamento e Emoções, que acontece de 7 a 9 de abril em Montreal, no Canadá. O consultor da Organização Mundial da Saúde aponta pesquisas feitas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, por Fernanda De Felice e Sérgio T. Ferreira, como uma das mais promissoras na área.

Ferreira conta que seu grupo estuda a origem da doença para a partir desta identificação, poder tratá-la. "Durante muitos anos pensou-se que as placas amiloides que se formam nos neurônios eram as causas do alzheimer, mas hoje já sabemos que ela não está presente em quem apresenta os primeiros sinais de comprometimento cognitivo". Ele explica que as placas impedem as sinapses, ou seja, a comunicação entre os neurônios.

Caramelli explica que hoje as pesquisas têm se voltado mais para um estágio anterior da doença, quando alguns sinais de comprometimento começam a aparecer, uma vez que novos tratamentos depois da demência surgir não têm apresentado bons resultados. "Estamos em uma entressafra de medicamentos, os últimos têm cerca de dez anos".

Assim, o grupo da UFRJ estuda os oligômeros, grupos de dois a quatro moléculas de proteínas tóxicas que são solúveis e por isso têm maior facilidade para se mover no cérebro do que as placas. Para atacar os oligômeros também é feito um estudo com anticorpos na Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, pelo neurocientista William Klein.

Oligômeros são a causa do Alzheimer?

Para investigar se os oligômeros são mesmo os responsáveis pelo Alzheimer, o grupo da UFRJ fez estudo com mais de 200 camundongos, injetando oligômeros no cérebro dos animais e monitorando a perda de memória. A conclusão foi que havia perda de memória persistente por semanas. "Pensamos então que talvez as placas sejam uma defesa do organismo. Os oligômeros são depósitos de lixo no cérebro. As placas seriam uma maneira de juntar todo o lixo em um só lugar para tentar minimizar os danos", diz Ferreira.

Agora, em uma segunda fase da pesquisa feita em parceria com Universidades do Canadá, o grupo estuda a reação de macacos às injeções de oligômeros, já que os primatas têm um cérebro mais parecido com o humano do que roedores. "Fizemos um modelo com 8 a 10 macacos injetando grande quantidade de oligômeros e não vimos a formação de placa nestas primeiras semanas. Agora, o próximo passo que deve começar em até 2 meses é ver se houve perda de memória. Espero ter resultados em 1 ou 2 anos", conta o pesquisador da UFRJ.

Anticorpos para atacar

A pesquisa com anticorpos para atacar os oligômeros teve um resultado negativo inicialmente, mas Ferreira atribui isso ao foco errado do anticorpo, que iria combater a proteína, que também se encontra isolada no cérebro e nas placas. "Os oligômeros representam menos de 1% da proteína no cérebro, então, acredito que o anticorpo acabou "desperdiçado", atacando a placa e as moléculas isoladas e não os oligômeros que acreditamos ser a causa do alzheimer".

A equipe de Klein desenvolveu um anticorpo que ainda está em estudo para atacar apenas os oligômeros. O anticorpo é usado pela equipe da UFRJ entre outras instituições de pesquisa e também em uma pesquisa clínica, com pessoas que possuem a doença, patrocinado por uma empresa farmacêutica.

Outros tratamentos em pesquisa 

Outro tratamento em estudo é o uso de remédio para diabetes. O alzheimer tem sido chamado de diabetes tipo 3 porque pesquisa com participação do grupo do Rio de Janeiro, de 2009, descobriu que os oligômeros também influenciam na recepção de insulina no cérebro. "O Alzheimer seria um tipo de diabetes cerebral", explica.

Agora, estudos em todo o mundo têm sido feitos para determinar se o uso de remédio para diabetes e até de insulina nasal fazem melhorar também a memória. Os resultados preliminares são positivos, mas ainda é necessário mais pesquisas neste sentido.

Caramelli, que também é professor da Universidade Federal de Minas Gerais, lembra de outro estudo, do professor Andres Lozano, da Universidade de Toronto, que usou estimulação cerebral profunda para tratar a perda de memória em seis pacientes com a doença em 2011: dois deles apresentaram pequenas melhoras após um ano de tratamento. Agora, ele vai ampliar a pesquisa para 40 pacientes. "Mas é bom lembrar que este é o início da pesquisa, é um método invasivo no cérebro, que tem que comprovar sua eficácia e segurança. Até chegar a uso clínico ainda vão muitos anos", destaca Caramelli, que lembra que hoje a prevenção é o melhor caminho.

"Temos evoluído no diagnóstico da doença, com biomarcadores e fisiopatologia. Então estamos entendendo como a doença funciona e evolui. Buscamos agora antecipar o diagnóstico com segurança para começar o tratamento o quanto antes. E a solução talvez não seja medicamentosa, mas de mudança de hábito", conclui.

*A jornalista viajou a convite da organização do congresso Cérebro, Comportamento e Emoções


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