Trocar o certo pelo duvidoso exige mais reflexão do que coragem

Heloísa Noronha
Do UOL, em São Paulo

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    Antes de fazer uma mudança radical, pergunte-se: eu posso aguentar as consequências da minha escolha?

    Antes de fazer uma mudança radical, pergunte-se: eu posso aguentar as consequências da minha escolha?

Continuar no emprego que oferece um bom salário e plano de carreira ou partir para um cargo diferente, numa empresa menor, mas com possibilidades de desenvolver antigos projetos? Terminar o último ano da faculdade ou trancar a matrícula para viajar pelo mundo? Carteira assinada ou autonomia? Marcar casamento ou namorar mais? Insistir em amizades que não são lá muito recíprocas ou se aventurar em conhecer pessoas diferentes?

Não tem jeito: certas decisões cruciais na vida implicam ganhos e perdas e, por isso, devem ser muito bem pensadas. Mais do que pesar os prós e contras dos fatores práticos da questão, é importante ter em mente de que algumas escolhas nem sempre são definitivas ou irreversíveis como parecem.

Obras de ficção, de modo geral, transmitem a ideia de que é possível tomar resoluções por impulso ou movidas por sinais tidos como mágicos –um acidente trânsito, um sorriso de alguém passando na rua, uma canção que toca na hora certa no rádio... E lá se vão os personagens para os braços de um novo amor, uma mudança de país ou para um emprego maravilhoso que os farão felizes para sempre.

Na vida real, o final feliz exige muito esforço. "A precipitação pode render muita dor de cabeça, e não o resultado feliz de Hollywood. Para trocar uma situação certa por uma duvidosa, primeiro é preciso analisar as motivações internas. O que te faz tender para um caminho ou ou para outro?", pergunta Suzana Contieri, docente do curso de Psicologia da Universidade Metodista de São Paulo. 
 

Segundo Suzana, é bom observar a sensação de enfado, tédio ou insatisfação com a situação atual. "Ela pode ser sintoma de um fato pontual ou de uma fase mais difícil. Nesse caso, é bom dar um tempo para que esse período passe antes de tomar qualquer atitude. Se o incômodo não for passageiro, é hora de repensar o que escolheu e partir para outra", diz.

E quando o certo inclui circunstâncias que têm proporcionado pouco prazer, como um emprego chato ou um casamento que caiu na rotina, e o duvidoso oferece a possibilidade de muita alegria, mesmo que os benefícios práticos como salário sejam menores, vale a pena pensar em fazer a mudança, de acordo com a psicóloga Roseana Ribeiro. Mas antes de tomar qualquer atitude radical pergunte-se: suportarei as consequências se tudo der errado?
 

O que é importante para você?

 
Quando não existe nenhum tipo de insatisfação concreta com o momento atual, a não ser o peso da dúvida sobre mudar ou não, vale a pena usar os próprios valores pessoais como critério para escolher.

 
Alexandre Bortoletto, instrutor da Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística, ensina uma técnica bastante produtiva: faça uma lista sem número de itens definido com tudo aquilo que é importante na vida para você, como família, liberdade, aventura, segurança financeira, convívio com outras pessoas etc. Depois, selecione dez que considera primordiais e os hierarquize.

"Essa ordem de prioridades define bem quem você é e pode apontar qual rumo tomar. Se você colocou família em primeiro lugar e está em dúvida se passa ou não um ano sabático em um país distante, é provável que a decisão de viajar não seja uma boa escolha, pois provocará sofrimento", diz o ele. 

Do mesmo modo, alguém que coloca "aventura" antes de "segurança material" certamente se sentirá mais realizado ao trocar uma carreira consolidada por um projeto profissional iniciante.

Se perceber a necessidade de ouvir a opinião de alguém antes de optar, procure quem tenha valores parecidos com os seus. "Isso abre espaço para a ajuda, em vez de confundir ainda mais", diz Alexandre. 
 
A psicóloga Roseana Ribeiro afirma que nenhuma mudança é tão eterna quanto parece à primeira vista e lembra que ninguém se mantém do mesmo jeito ao longo da vida. Todo mundo passa por modificações internas provocadas pela idade, pelas experiências, pelo convívio com outras pessoas. Por isso, optar pelo que parece confortável em vez de partir para o incerto não significa que a pessoa decidiu ficar estagnada ou parada no tempo, mas, sim, que aquela escolha foi a melhor para sua vida naquele momento.


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