Vizinho do bairro novaiorquino de Manhattan, Queens é cenário de passeios multiculturais

Seth Kugel
New York Times Syndicate

Você se lembra da velha Nova York, cidade onde os imigrantes ralavam, as culturas entravam em choque, a coragem superava o glamour e os restaurantes étnicos ficavam lotados de membros de etnias diversas e não gourmets tirando foto de comida no Instagram? Aquela que existia antes de o comércio de Manhattan se diluir com a H&M e o Starbucks e o Brooklyn virar meio playground hipster e meio substituto de subúrbio?

Pois essa cidade ainda existe no Queens, onde a força da valorização imobiliária mal chegou aos limites desse distrito enorme, que abriga 2,2 milhões de pessoas vindas de 2,2 milhões de lugares diferentes - ou, pelo menos, é o que parece. Embora só agora a área litorânea tenha começado a se recuperar da destruição deixada pela tempestade Sandy, a maior parte da região não foi afetada e continua cheia de sons e visões bem diferentes de qualquer coisa que existe "na cidade", que fica a um pulinho de metrô.

Sexta-feira

17h - Hollywood? Não, Astoria
Hollywood leva a fama, mas um dos bairros mais dinâmicos do Queens abriga o estúdio Kaufman Astoria, onde os irmãos Marx rodaram "Os Galhofeiros", em 1930, e onde ainda mora o Garibaldo. Num dos prédios funciona o recém-reformado e agora autônomo Museu da Imagem em Movimento (36-01 35th Ave.; 718-777-6888; movingimage.us), que tem entrada grátis às sextas, das 16h às 20h (nos outros dias o ingresso custa US$ 12). Ele não só oferece entretenimento oriundo da TV (como o suéter do Dr. Heathcliff Huxtable e a roupa espacial do Mork, de Ork) e do cinema (telegramas enviados por Orson Welles, as próteses usadas por Winona Ryder em "Cisne Negro"), mas também no formato digital, incluindo máquinas (que funcionam) de Donkey Kong, Space Invaders e Ms. Pac Man.

20h - Um pedaço do Egito
Conhecido como bairro grego, o Astoria agora está bastante diversificado, com colombianos, brasileiros e eslavos e um centrinho comercial árabe enorme do lado norte da rua Steinway, conhecido como Little Egypt. É difícil encontrar peixe mais bem preparado e mais gostoso que na Sabry's Seafood (24-25 Steinway St.; 718-721-9010), uma casa de frutos do mar informal e muito popular onde o caranho, o robalo ou a tilápia são grelhados, fritos ou assados no melhor estilo egípcio. Comece com uma porção de lula grelhada e a limonada egípcia. Jantar para dois sai, em média, US$ 50. O lugar não serve bebidas alcoólicas.

22h - Hora do narguilé
Little Egypt é cheio de bares informais; se quiser uma experiência mais sofisticada, suba a escadaria do Layali Dubai (24-17 Steinway St.; 718-728-1492), versão luxuosa dos lounges de narguilé no nível da rua. Os frequentadores, quase todos muçulmanos, se vestem das maneiras mais variadas, desde o estilo mais conservador até o quase escandaloso. Grupos de homens e mulheres (sempre separados) bebericam chá de hortelã (US$ 3) e suco de fruta (US$ 5), fumam narguilé (de US$ 10 a US$ 25) e curtem música ao vivo e apresentações de dança do ventre (US$ 10 de couvert) até tarde.

  • No Queens, os turistas podem visitar a casa em que viveu o músico Louis Armstrong

Meia-noite - Momento de decisão
Beber feito hipster ou dançar feito dominicano? Aí vão duas opções para a balada. Opção 1: vá ao Dutch Kills (27-24 Jackson Ave.; 718-383-2724; dutchkillsbar.com), bar da moda que fica em Long Island City, para beber um Rum Buck Bloody Knuckle ou - por que não? - um Manhattan (com preços que variam entre US$ 8 e US$ 11, os drinques da casa são pelo menos US$ 4 mais baratos que os equivalentes em qualquer boteco de Manhattan). Opção 2: dance ao som do merengue e da bachata no Jubilee (23-04 94th St.; 718-335-1700; granrancho.com), mistura de restaurante e clube que fica num prédio que mais parece um restaurante caribenho de beira de estrada. Dá para escolher entre a banda ao vivo do restaurante (mais informal, de graça) ou a clientela mais jovem do clube noturno no térreo (US$ 10 o couvert).

Sábado

10h30 - Comer, beber, comprar
Saindo do metrô pela Roosevelt Avenue-Jackson Heights, você entra numa terra de diversidade que achava que só pudesse existir nas metáforas. Só assim para explicar a placa de uma farmácia onde se lê "Bangladesh Farmacia" (para atrair os sul-asiáticos e sul-americanos, talvez?) ou um lugar onde uma loja guatemalteca fecha para dar lugar a uma delicatessen russa. Suba a Rua 74 e pare no supermercado Patel Brothers para comprar verduras e legumes exóticos; ou no India Sari Palace para levar uns sáris e no Al Naimat para comprar doces do sul da Ásia. Vire à direita na Avenida 37, a principal de Jackson Heights, e pegue um salpicón colombiano (metade salada de fruta e metade suco) na confeitaria La Paisa (37-03 82nd St.; 718-779-2784) para aguentar chegar a La Gran Uruguaya (85-06 37th Ave.; 718-505-0404) e saborear um cafezinho com doces uruguaios/colombianos (não deixe de provar os "vigilantes": apesar da aparência sem graça, são saborosos e docinhos e só custam US$ 0,75 cada um).

13h - Chez Satchmo
Quando a casa de gente famosa vira museu, geralmente os curadores têm dificuldade em recriar a decoração de época, o que não é o caso do Louis Armstrong House Museum (34-56 107th St.; 718-478-8297; satchmo.net), que ficou mais ou menos parado no tempo desde que o mestre do jazz morreu dormindo em 1971 (a cama ainda está lá). Sua mulher, Lucille, viveu ali até 1982, mas deixou quase tudo intocado, desde os gravadores do estúdio/escritório de Satchmo, o frasco de sua colônia de barbear até as louças douradas do banheiro. Por que uma celebridade como Armstrong preferiu passar as últimas três décadas de vida numa casa modesta no bairro industrial de Corona? A pergunta é discutida durante o passeio com guia (US$ 10).

  • Julie Glass­berg/The New York Times­

    Localizado no Queens, o Dutch Kills é um bar da moda que serve coquetéis com bons preços

15h - Vista panorâmica
Pegue o trem Nº 7 a duas paradas para baixo do museu, na direção de Flushing Meadows-Corona Park, e explore o maior parque do bairro, que abriga eventos esportivos como o tradicional Aberto de Tênis dos EUA até partidas de críquete das comunidades imigrantes. Caminhe rumo à escultura Unisfera, criada para a Feira Mundial de 1964, e procure a obra de granito ali ao lado na qual o artista Matt Mullican reconta a história do parque. A seguir, vá ao Museu de Arte do Queens (718-592-9700; queensmuseum.org), onde fica o Panorama da Cidade de Nova York, uma maquete impressionante dos cinco distritos da cidade, com 895 mil casas e prédios (tem até aviões decolando do Aeroporto de La Guardia). O museu (doação US$ 8) continua funcionando, embora a reforma que vai dobrar o seu tamanho só deva ser concluída no fim do ano que vem.

20h - Culinária uzbeque
É claro que no Queens há um restaurante especializado em cozinha judaica do Bukhara, no Uzbequistão - precisava perguntar? O Cheburechnaya (92-09 63rd Drive; 718-897-9080) é uma casa com cara de lanchonete em Rego Park com pratos diferentes de tudo o que você já provou. A comunidade "russa" da região é, na maioria, da Ásia Central, de onde são também as especialidades como o chebureki (a partir de US $ 1,65), que até parecem os bolinhos/pastéis/empanadas de inúmeras outras culturas, mas cujo nível de pimenta pode fazer muita gente chorar. Melhor ainda é o samcy, triângulos de massa recheados de abóbora (US$ 1,65) ou carne de carneiro (US$ 2). Peça uma bebida típica e você pode acabar saboreando o bom e velho guaraná brasileiro com rótulo escrito em russo.

22h - Gosto caseiro
Apesar do clima internacional, para quem esqueceu, o Queens está situado nos EUA. A duas estações de metrô para baixo de Queens Boulevard fica Forest Hills, um bairro com jeitão de subúrbio onde o maior agito noturno acontece, acredite se quiser, numa padaria, lotada tanto de madrugada como no brunch do fim de semana. A Martha's Country Bakery (70-30 Austin St.; 718-544-0088; marthascountrybakery.com) serve cappuccino (US$ 4,75) com sobremesas deliciosas, desde cheesecake até torta de maçã com creme azedo (US$ 5,50/fatia).

  • Julie Glass­berg/The New York Times­

    Ao percorrer o Queens, em Nova York, o visitante tem tudo para se sentir em um país asiático

Domingo

10h - Massagem chinesa
A Chinatown mais vibrante de Nova York - a de Flushing, no Queens - é lotada de casas de massagem, sendo que algumas (só algumas) servem de fachada para negócios mais escusos. Vale a pena conferir a Winnie Foot & Spa (135-05 40th Road, 2º andar; 718-961-3599), onde uma massagem agressiva de meia hora nos pés sai por US$ 22, comparada com os olhos da cara que custaria em Manhattan. Esses profissionais manjam tudo do pé humano, mas não espere muito bate-papo (a não ser que você seja fluente em mandarim). Em vez disso, melhor apreciar a música tranquila enquanto relaxa nas poltronas reclináveis como se fosse Archie Bunker, aquele do seriado "All in the Family" (se bem que ele teria feito piada com as almofadas Hello Kitty).

11h30 - Para cima, para baixo
É difícil ver um cliente não asiático no Grand Restaurant (136-20 Roosevelt Ave.; 718-321-8258), um verdadeiro palácio do dim sum, gigantesco, que fica no terceiro andar do New World Mall, inaugurado no ano passado. Saboreie os delicados bolinhos de camarão, os rolinhos de arroz e frango em folhas de lótus e tofu recheado com carne de porco e cogumelos sem pagar nem US$ 15 por pessoa. Se quiser mais variedade e até preço mais baixo, dê um pulo na praça de alimentação do térreo, onde uma verdadeira multidão de asiáticos saboreia diferentes versões de noodles, sopas e bolinhos não só da China continental, mas também de Hong Kong, Taiwan, Coreia do Sul e mais além (entradas a partir de US$ 5).

Se você for

A maioria dos hotéis fica perto dos aeroportos JFK ou La Guardia e longe das atrações; vale mais a pena ficar em Midtown Manhattan e tomar o metrô. Porém, há várias exceções em Long Island City, como o estiloso Z NYC Hotel (11-01 43rd Ave.; 877-256-5556; zhotelny.com), cujos quartos têm janelões até o teto para se apreciar a vista de Manhattan. Diárias a partir de US$ 170.

O Marco LaGuardia (137-07 Northern Boulevard; 718-445-3300; marcolaguardiahotel.com) fica ainda mais perto da muvuca. Considerado hotel de aeroporto, está a apenas algumas quadras da estação do trem Nº 7, em Flushing. Diárias a partir de US$ 139.


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