Roque Jr. relembra briga com Galvão e diz que mídia também deve ser cobrada

Vanderlei Lima e Vinicius Mesquita
Do UOL, em São Paulo

O ex-zagueiro Roque Júnior gostaria de se aventurar como técnico de futebol. Para isso, o camisa 4 da seleção campeã mundial em 2002 estudou bastante, como fazem os treinadores na Europa. Mas Roque sabe também que ser um profundo conhecedor de estratagemas táticos não garante estabilidade a nenhum treinador. Para ser técnico no Brasil é preciso paciência e, principalmente, personalidade.

"A imprensa forma a opinião, então eu acho que quando se cobra de um treinador, a imprensa também tem que ser cobrada, porque ela tem que ter a consciência que ela forma opinião", diz Roque.

O ex-jogador já mostrou as garras para a imprensa em 2005, durante a Copa das Confederações. Insatisfeito com as críticas feitas pelo narrador Galvão Bueno durante a vitória do Brasil sobre a Alemanha por 3 a 2, Roque reagiu. No dia seguinte ao jogo, Roque esperou pelo final do aquecimento, deixou o gramado em direção a Galvão, e cobrou "mais respeito" do narrador.

Nessa entrevista exclusiva ao UOL Esporte, Roque falou sobre sua vida pessoal, sua amizade com o técnico Luiz Felipe Scolari, questionou a organização da Copa no Brasil e apresentou os próximos desafios da sua carreira.

UOL Esporte: Qual a sua opinião do calendário do futebol brasileiro? Você acompanha o movimento Bom Senso? Concorda com o Alex, que a CBF serve de sala de reunião, quem manda mesmo é a TV Globo?

Roque Júnior: O que a gente sempre teve aqui no Brasil é a TV com um poder muito grande. Eu gosto de fazer comparações: se você pegar a Itália, por exemplo, a Federação Italiana sempre que vai discutir alguma coisa, ela também envolve todos aqueles que fazem parte do processo. Tem o representante do árbitro, dos atletas, do treinador, da federação, da TV. Todos aqueles que fazem parte disso estão decidindo.  Aqui no Brasil nós não temos isso, a decisão é unilateral. Eu acho que já é passada a hora de você reunir todos esses representantes que fazem parte deste contexto pra qualquer decisão que fosse tomada. Todas as partes têm de participar.

UOL Esporte: Por que na sua época não acontecia esse movimento em prol de uma calendário melhor?

Roque Júnior: Acho que são momentos diferentes. A minha geração ficou muito mais tempo fora. Nós tivemos toda essa movimentação também no Brasil, não só no futebol, mas também do país, com as caminhadas, com os protestos, isso se espalhou. O momento também é propício pra isso. Nós estamos na véspera da Copa do Mundo e todo mundo está debatendo vários assuntos. Já era passada a hora de ter feito isso.

UOL Esporte: Tem algo que o incomoda muito no futebol? O que seria?

Roque Júnior: É não ter todas as partes na mesa para discutir o que é de interesse de todo mundo. Você não pode decidir unilateralmente sendo que tem outras partes que fazem parte disso. Todo o resto é consequência. A partir do momento que se sentar os representantes de cada classe a decisão será de todos, que vão estar cientes daquilo. Sem isso eu acho que já parte errado.

UOL Esporte: O que você pensa do campeonato estadual?

Roque Júnior: Tem espaço, mas tem que mudar. Você não pode depender só dos grandes para o campeonato estadual. Tem que tentar criar outra forma. Tem time que disputa somente três meses e depois fica parado os outros nove. Então é buscar uma forma onde esse clube possa se manter durante todo ano. No ano passado, a Copa do Nordeste foi muito bem aceita e foi muito bem falada, e esse ano parece que até já vai ser melhor que o do ano passado. A gente não vai conseguir em cinco, dez minutos encontrar uma solução, não será nada de um dia para o outro. De repente se torna mais fácil os estaduais sem os grandes, mas tem que quebrar a cabeça.

UOL Esporte: Você acompanhou jogos do Palmeiras na Série B e defende a permanência do treinador Gilson Kleina?

Roque Júnior: Eu acompanhei alguns jogos, agora é difícil falar assim de longe. O Palmeiras tinha o objetivo de subir, subiu e sabe o como é difícil na Série A. As pessoas que estão lá dentro já tinham que estar pensando no ano que vem porque não é só o treinador, tem várias pessoas lá dentro que decidem e não se pode jogar só em cima do treinador. Nós estamos em novembro, faltam menos de três meses para começar o campeonato, as coisas já deveriam estar encaminhadas. Quanto mais tarde você deixar para decidir mais difícil é. Hoje eu não mantenho contato com ninguém do Palmeiras, mantinha quando o Felipão estava lá, fui lá algumas vezes fiquei quase dois meses fazendo estágio, agora não tenho contato com ninguém.

UOL Esporte: Este grupo atual do Felipão é melhor ou pior do que o 2002?

Roque Júnior: Vocês jornalistas gostam de fazer comparações, mas não tem como comparar. Nós disputamos eliminatórias e chegamos na Copa do Mundo sabendo o que era Copa do Mundo. Esses jogadores agora disputaram realmente uma competição, que foi a Copa das Confederações, que ganhou e ganhou bem... Se ganhar (a Copa do Mundo) fica igual, se não ganhar, a de 2002 vai ser melhor. Semelhança eu vejo porque o Felipão está lá e a maneira dele trabalhar não mudou nada, acho que agora ele tem muito mais experiência. A semelhança é a maneira dele trabalhar com o grupo.

UOL Esporte: Qual a sua avaliação sobre o jogador Neymar?

Roque Júnior: É novo, tem potencial e foi ótima a ida dele para o Barcelona, porque se você pegar a seleção brasileira, todos os jogadores, menos o Jô, jogam na Europa e isso, para quem não disputou Eliminatórias, faz diferença porque eles estão disputando as melhores competições, isto te dá experiência. E ele já está até fazendo diferença no Barcelona, já não é mais um, já é o Neymar. Eu acho que ele tem muito mais para crescer, tem esse tempo para a adaptação é um futebol diferente. Eu vi o último jogo da seleção e acho que ele já mudou um pouco, que é fantástico para ele e para seleção também.

UOL Esporte: Você acha que ele pode ser o melhor do mundo?

Roque Júnior: Quando o Messi começou a jogar no Barcelona, quem era o cara era o Ronaldinho. É tempo... o Messi está lá desde os 12 anos e o Neymar chegou agora. São dois grandes jogadores com qualidades diferentes. Então não dá para fazer uma cobrança e saber exatamente quando é. Quanto mais ele jogar, quanto mais ele procurar entender como joga o Barcelona eu acho que mais rápido ele pode chegar a esse status de ser um dos grandes jogadores do mundo naturalmente.

UOL Esporte: Você foi a favor da Copa do Mundo no Brasil?

Roque Júnior: Sim, no momento eu era. Nós poderíamos fazer várias coisas para o país inteiro com pretexto da Copa do Mundo, mas vamos acabar só no futebol. Todo o resto que poderia ter sido feito como resolver a questão de transporte, mobilidade urbana, aeroporto, de segurança não vai ter. O famoso legado vai ficar só dentro do futebol, que são as arenas, fora eu não consigo enxergar uma mudança. Eu estava na Alemanha quando teve a Copa, mas eles já tinham muita coisa, aproveitaram, fizeram mais. Nosso principal objetivo era investir no país em termos de infraestrutura, poderia acontecer. Hoje você vê, em alguns países, os aeroportos são impressionantes, aí você chega no aeroporto de Guarulhos...

UOL Esporte: O Brasil resgatou a confiança do torcedor após a conquista da Copa das Confederações? É o favorito para conquistar o Mundial?

Roque Júnior: É um dos favoritos, agora esse resgate eu acho que depende muito. Acho que o momento do país ajudou também, porque nós estávamos no meio daqueles protestos todos e a seleção conseguiu ganhar. Vendo a seleção ganhar, passando por este momento, as pessoas acreditam mais no Brasil. Depois da Copa das Confederações, eu acho que tudo ajudou ali.

As pessoas que estão lá dentro (Palmeiras) já tinham que estar pensando no ano que vem porque não é só o treinador, tem várias pessoas lá dentro que decidem e não se pode jogar só em cima do treinador

Roque Júnior, ex-jogador da seleção brasileira e do Palmeiras

UOL Esporte: Você acredita em alguma surpresa na ultima lista do Felipão antes do Mundial?

Roque Júnior: Eu acho que não está completamente fechado, mas eu acho que já tem um grande número de jogadores. Pelo o que eu conheço do Felipão, numa situação daquela de Copa das Confederações, onde a pressão era grande e o jogador conseguiu dar a resposta, ele consegue criar um relacionamento e é difícil tirar esse cara de lá, mas eu acho que não são todos. Eu acho que tem ainda algumas poucas vagas abertas, o Fernandinho do Manchester City, o William do Chelsea, o Fernando do Porto, até o Coutinho (do Liverpool), que se machucou. Acho que esses jogadores de repente, se tivessem mais jogos, eu acho que eram jogadores a ser chamados.

UOL Esporte: Diego Costa optou por atuar na Espanha e não pelo Brasil. Ele acertou?

Roque Júnior: Eu acho que ele está fazendo o caminho certo. Pelo momento que o Diego Costa vive na Espanha, na seleção espanhola o reconhecimento vai ser maior do que no Brasil. Se você pegar um exemplo: eu fui na despedida do ex-zagueiro Bordon. O Bordon se despediu do jogo no Schalke 04 e se você ver a despedida que fizeram, é impressionante. Ele é brasileiro, mas o respeito que ele tem lá é muito maior que o tem no aqui, de quando ele jogou no São Paulo. E tantos outros jogadores são assim.

UOL Esporte: Após o desentendimento com o narrador Galvão Bueno em 2005, você voltou a falar com ele? [na Copa das Confederações em 2005 o então zagueiro da seleção brasileira foi cobrar o narrador após um treino por conta de críticas recebidas durante uma transmissão]

Roque Júnior: Não, nunca mais falei. Foi um momento que eu senti que era para falar e falei, mas também antes disso nunca tive um relacionamento com ele, o meu relacionamento com ele continua sendo o mesmo que eu tinha antes, ou seja, nenhum. A imprensa forma a opinião, então eu acho que quando se cobra de um treinador, se cobra de um atleta, de um dirigente, a imprensa também tem que ser cobrada, porque ela tem que ter a consciência que ela forma opinião. Acho que é fundamental o papel da imprensa, ter o discernimento nisso aí, o negativo nosso (jogadores criticados) aqui é muito grande, eu acho que tem gente que acaba vivendo numa redoma e às vezes não consegue olhar de fora, você vive dentro daquilo.

UOL Esporte: Ex-jogador de futebol comentarista na TV ou rádio, você é a favor?

Roque JúniorEu sou a favor, porque a experiência que nós temos de ver o jogo é diferente de quem não teve. Nós estamos vivendo um embate, e eu tenho ouvido falar aí que alguns não gostam porque jornalista é profissão, fez faculdade, mas eu acho que são duas coisas que podem caminhar juntas e, de repente, o cara não foi jornalista porque no futebol não tinha como ser jornalista e o outro teve a chance de ser jornalista porque não foi jogador de futebol.

UOL Esporte: Qual o melhor comentarista hoje ex-jogador?

Roque JúniorO melhor hoje: eu acho que o Beletti está indo muito bem, ele é um cara sensato, viveu e teve uma experiência grande aqui e fora do Brasil. Critica, mas dentro daquilo porque ele foi bastante criticado. O Sorín, eu vi algumas dele, mas prefiro o Beletti, mas ele está indo bem, tem algumas coisas novas.

UOL Esporte: Como foi o curso para ser treinador que você fez na Europa?

Roque Júnior.: O primeiro curso que eu fiz faz dois anos e meio e foi aqui no Brasil, na EBF (Escola Brasileira de Futebol) que tem os mesmos moldes da Uefa. Eu ainda estava com o Primeira Camisa e depois acabei tomando gosto, porque aí eu comecei a ler muito e aí comecei ir atrás, fiz um estágio com o Felipão, gostei, fui para a Europa, fiz estágio no Borussia Dortmund, no Porto (de Portugal) e no Athletic de Bilbao (da Espanha). Em maio deste ano fiz o primeiro nível da Uefa na Itália, vou fazer os outros dois. Estou muito contente, porque estou descobrindo outras coisas, estou ampliando o meu leque, mais conhecimento, então estou feliz com isso de seguir um novo caminho.

Nós poderíamos fazer várias coisas para o país inteiro com pretexto da Copa do Mundo, mas vamos acabar só no futebol. Todo o resto que poderia ter sido feito como resolver a questão de transporte, mobilidade urbana, aeroporto, de segurança não vai ter

Roque Júnior, ex-jogador da seleção brasileira e do Palmeiras

UOL Esporte: Você procurou treinadores como Muricy Ramalho, Gilson Kleina ou outros?

Roque Júnior: Com os treinadores aqui eu troco algumas mensagens com o Wagner Mancini, também e acabei conversando mais com o Muricy, converso também com o Felipão, que é o treinador brasileiro que eu tenho mais contato, e estou tentando outras coisas aqui no Brasil, mas como é final do campeonato eu também entendo que é um pouco difícil. Provavelmente eu devo ir para o Paraguai com o Arce, no Cerro Porteño, no começo de novembro ou no final, então eu estou buscando cada vez mais conhecimento e me aprimorar.

UOL Esporte: No inicio de carreira de treinador tem que trabalhar em time grande?

Roque Júnior: Não, mas o time tem que ter o mínimo de estrutura, física e pessoal, para que o trabalho possa de repente ter um percentual maior de dar certo, porque o treinador não faz milagre, ele depende daquilo  que tem ao seu redor. No Brasil, técnico é muito visto como o salvador da pátria. Tem uma diferença de cultura, lá fora os ex-jogadores não começam sem fazer o curso, se prepararam através da teoria.

UOL Esporte: A sensação que deixa é que são poucos ex-jogadores e treinadores que buscam fazer cursos, você sente essa falta para o treinador brasileiro?

Roque Júnior: Eu acho que nós não temos isso aqui no Brasil, na Europa para os treinadores trabalhar eles precisam fazer estes cursos, precisam da licença. Aqui nós temos este curso da CBF, mas também pouca gente sabe e não é obrigatório você participar para dirigir uma equipe. Lá os órgãos maiores, a Uefa e as federações, estão preocupados com o nível desse treinador. Eles pensam no futebol de uma maneira total e treinador faz parte desse desenvolvimento e eu acho que aqui ainda está muito separado cada um meio que por si. No meu modo de ver parte daqueles que estão envolvidos no futebol, a imprensa, o diretor, o treinador, o jogador, a cultura, o país inteiro tem que entender que não é um jogo que faz com que o cara seja ótimo ou horrível, é todo um contexto e um trabalho.

UOL Esporte: E qual o treinador você se espelha?

Roque Júnior: Eu tive muito bons treinadores um cara que eu posso destacar aqui no Brasil é o Felipão,  que é um cara que sabe colocar todo mundo para pensar num objetivo só, é um gestor de grupo. Lá fora eu trabalhei com um treinador que me ajudou muito, o Zacheroni, que também foi um divisor de águas para mim dentro de campo taticamente, eu aprendi muita coisa com ele. Depois eu trabalhei com o Ancelloti e o Fatih Terim, que hoje é o treinador da seleção da Turquia e um cara que eu gosto muito.

UOL Esporte: Como está sua vida particular, o que tem feito no dia a dia?

Roque Júnior: Eu estou muito com a minha família, tenho três filhos (homens), mudei bastante aquela coisa que você saía jogava, voltava, saía de novo. Então hoje eu estou bem em casa, com os meus filhos com a minha esposa, eu tento realmente fazer as coisas com mais tranquilidade, pensar bastante e desde que eu tomei essa decisão (de virar treinador) o que eu tenho feito é tentar adquirir o máximo de conhecimento, eu aproveito fazer os cursos pela internet, ler bastante, ir atrás de coisas para ampliar cada vez mais este leque de conhecimento.


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