Fake news, WhatsApp e desconfiança: uma análise crítica sobre a era digital

Pedro Fonseca
do BOL, em São Paulo

Em entrevista exclusiva ao BOL, Claire Wardle, diretora de pesquisa do First Draft e uma das mentes que inspiraram a criação do Comprova, faz uma análise do projeto que uniu 24 veículos de comunicação para checagem da veracidade de notícias que circularam nas redes sociais e WhatsApp durante as eleições de 2018.

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Nos vídeos a seguir, Claire traz reflexões sobre o projeto Comprova, o mau uso do termo "fake news" em tempos de desinformação, o poder de arma dos smartphones, a desconfiança em relação à "mídia tradicional" e outros desafios que envolvem o atual ecossistema de informação.

Claire Wardle é cofundadora e líder do First Draft, uma organização sem fins lucrativos, criada em 2015 junto à universidade Harvard, que busca soluções para desafios associados à confiança e à verdade na era digital. A britânica é uma das maiores especialistas do mundo em conteúdo gerado pelo usuário.

O Comprova cumpriu seu propósito? Qual é a análise do projeto?

Claire Wardle, idealizadora do Comprova, fala sobre o trabalho colaborativo realizado entre 24 veículos de comunicação no Brasil, que teve o objetivo de verificar a veracidade das informações nas mídias sociais e na internet durante as eleições presidenciais de 2018. Claire conta que a equipe do First Draft está analisando os resultados do projeto, mas adianta que o Comprova foi maior, melhor e mais apaixonante do que poderia imaginar. Ela explica que espera que a iniciativa seja mantida em 2019 e fala do orgulho após ouvir relatos de jornalistas sobre como o Comprova reacendeu o amor pelo jornalismo.

Por que as coalizões de mídias terminaram junto com o Comprova?

Claire Wardle compara o projeto brasileiro à experiência francesa de verificação de notícias durante as eleições presidenciais em 2017, o CrossCheck. Claire ressalta que não se trata de projetos de tecnologia, mas de pessoas. O fundamental foi a colaboração de jornalistas de 24 redações, que se ajudaram, compartilharam informações, confiaram um no outro, escreveram juntos. Foi criado um vínculo entre seres humanos, e a esperança é que essa conexão continue existindo mesmo que o Comprova não continue.

Como o First Draft funciona?

A colaboração foi a base da criação do First Draft, uma organização sem fins lucrativos, criada em 2015, que trabalha em soluções para desafios associados à confiança e à verdade na era digital. Claire Wardle fala sobre o DNA da organização e da rede de parceiros criada, que inclui mais de 400 jornalistas, acadêmicos e pesquisadores do mundo todo.

Por que a desinformação só pode ser combatida por meio da colaboração?

Claire Wardle, integrante do Conselho da Agenda Global do Fórum Econômico Mundial sobre o Futuro da Informação e Entretenimento, ressalta que a indústria de notícias é vulnerável quando é competitiva e que jornalistas são usados como peças-chaves por quem tenta espalhar a desinformação. Por isso a colaboração se torna ainda mais importante. Num momento de redações enxutas, não faz sentido que diferentes jornalistas trabalhem individualmente para desmentir a mesma informação. Além disso, ao compartilhar recursos, é possível produzir mais. O Comprova publicou mais de 140 histórias com a colaboração entre redações, o que teria sido impossível para o UOL sozinho, por exemplo, ou para qualquer outro veículo.

Por que diferenciar desinformação de "fake news"?

Claire Wardle, uma das maiores especialistas em conteúdo gerado pelo usuário, explica as diferenças entre os termos "fake news" e desinformação. Para ela, Donald Trump, presidente dos EUA, disseminou o primeiro termo em 2017 com o intuito de rebaixar o trabalho da imprensa. Ao falar em "fake news", as pessoas acabam entendendo que se trata do trabalho da imprensa profissional, o que definitivamente não é o caso. Claire explica inclusive que nem mesmo pronuncia o termo "fake news" porque as palavras têm força, a linguagem importa.

O que é jornalismo hoje?

Tendo sido diretora de pesquisa do Tow Center for Digital Journalism, da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, nos EUA, Claire Wardle discute o que é notícia. Facebook é provedor de notícias? O que acontece na vida das pessoas é notícia? A especialista fala sobre a importância de diferenciar o que é notícia e o que é jornalismo. Além disso, Claire alerta sobre o perigo de confiar demasiadamente em conteúdo recebido da audiência. Uma pessoa com um smartphone não foi treinada para transmitir informação, e as redações deveriam deixar mais claro como fazem o seu trabalho, de forma a mostrar o profissionalismo que o jornalismo exige e aumentar a confiança da informação.

As fronteiras da liberdade de expressão mudaram com a era digital?

Claire Wardle afirma que precisamos ficar atentos sobre como a liberdade de expressão pode se confundir com discurso de ódio, assédio e formas ilegais de expressão em uma democracia. Existem opiniões das quais não gostamos e existem discursos que são ilegais, então é importante diferenciar esses dois tipos de discurso.

Com fazer bom jornalismo e se aproximar da audiência?

Uma das maiores especialistas em conteúdo gerado pelo usuário, Claire Wardle fala sobre a importância de ser o mais transparente possível com a audiência, o que é muito mais simples com a internet do que com o jornal impresso, por exemplo, ou com a televisão. Ela destaca também a necessidade de o jornalismo se comunicar melhor com o público-alvo, ouvindo quais são as necessidades e os interesses da audiência em vez de se colocar em uma posição de decisão superior.

Como compreender a desconfiança na "mídia tradicional"?

Claire Wardle fala sobre como nosso cérebro humano gosta de consumir informações que fazem nos sentirmos bem, então existe uma tendência de buscarmos conteúdos que reforcem nossas visões de mundo. Essa prática é facilitada pela internet, pois a web permite que a pessoa vá diretamente a um conteúdo específico, sem a obrigatoriedade de passar por outros. No atual ecossistema de informações, esse consumo restrito pode ser preocupante.

A desinformação é um fenômeno da era digital?

A fundadora e líder da First Draft explica que existem históricos incríveis de séculos atrás referentes à preocupação de cidadãos sobre a desinformação. Claire Wardle esclarece que a desinformação sempre existiu, porém atualmente é muito mais fácil manipular uma informação e espalhá-la rapidamente pelo mundo.

Qual é o papel dos pais e da escola na criação de jovens críticos à mídia?

Claire Wardle alerta sobre o perigo dos smartphones, uma arma poderosa que torna qualquer indivíduo um publicador de conteúdo. A especialista destaca que as pessoas receberam o aparelho, mas não foram alertadas sobre seu poder, por isso é importante que não apenas pais e escolas orientem as crianças e jovens, mas também as próprias crianças e jovens ajudem seus avós, por exemplo. Para Claire, esse é o momento social de reconhecimento do poder da informação que compartilhamos e, com o poder, deve vir a responsabilidade.

O que um jornalista recém-formado pode esperar do mercado?

Para Claire Wardle, este é um momento incrível para ser jornalista, pois o jornalismo se faz necessário na vida das pessoas. Ela explica que o trabalho jornalístico deve ajudar a audiência a navegar em meio a esse universo de fácil acesso, a identificar o que é verdade e o que é mentira. Mas a especialista destaca também que é importante reconhecer que estamos em um período diferente para exercer a profissão, em que é necessário desenvolver novas habilidades, especialmente em computação, de forma a compreender o ecossistema de algoritmos.

Como explicar o ataque de políticos à imprensa?

Ao analisar a realidade vivida pelas redações, Claire Wardle ressalta o mau jornalismo que muitas vezes é feito pela imprensa, que amplifica palavras de políticos, tornando-as sensacionalistas para atrair mais audiência. A especialista faz uma crítica ao modelo de negócios do jornalismo e destaca a importância de não se cometer erros neste momento, pois a credibilidade do jornalismo está em jogo.

Sobre o Comprova

Iniciativa do First Draft, o Comprova foi criado para identificar, checar e combater manipulações, rumores e notícias falsas nas eleições brasileiras de 2018.

No período de três meses, o projeto publicou 146 histórias para desmentir ou confirmar conteúdos que viralizaram nas redes sociais, por meio de um trabalho colaborativo entre jornalistas de 24 veículos de comunicação brasileiros. Desse total, 92% do conteúdo se mostrou falso, enganoso ou descontextualizado. Apenas nove histórias analisadas pela equipe do Comprova eram verdadeiras.

O UOL e o BOL participaram ativamente do projeto, atuando tanto na checagem quanto na divulgação dos conteúdos analisados. Os dois portais tiveram mais de 6,5 milhões de entradas para as páginas que combatiam a disseminação de informações falsas. Confira a lista completa de conteúdos verificados.

A iniciativa foi inspirada na experiência das eleições francesas, em 2017, quando foi criado o CrossCheck, uma coalizão colaborativa reunindo 37 redações francesas e britânicas para verificar ruídos na web durante a última campanha presidencial realizada na França.