Encontrou um cão? Tenha alguns cuidados ao divulgar animal perdido na web

Juliana Dutra
Do BOL, em São Paulo

  • Reprodução/Facebook

    A secretária Sônia Maran viu sua postagem em busca do dono de um cãozinho gerar mais de 80 mil compartilhamentos

    A secretária Sônia Maran viu sua postagem em busca do dono de um cãozinho gerar mais de 80 mil compartilhamentos

Dona de cinco cachorrinhos, a secretária Sônia Maran passeava pela rua quando encontrou um cachorro perdido com coleira em Chapadão do Sul (MS). Como normalmente compartilha pedidos de ajuda de resgate no Facebook, decidiu tentar encontrar o dono pela rede social e viu sua postagem gerar mais de 80 mil compartilhamentos.

Rapidamente, dezenas de pessoas apareceram dizendo ser possíveis donas do animal e outras tantas para criticar quem dizia ter perdido o bicho. No mesmo dia, na parte da tarde, ela anunciou que tinha encontrado a dona, e as duas marcaram um encontro para devolver o animal.

Esse tipo de caso é comum, porém algumas precauções precisam ser tomadas para aumentar as chances de a história ter um final feliz e não causar transtornos a quem só queria ajudar.

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Encontrei um animal perdido. O que eu faço?

A primeira coisa que você deve fazer é retirar o animal da situação de risco, que normalmente é a rua e o trânsito, tomando cuidado para não ser mordido ou arranhado, pois o animal pode transmitir doenças para humanos, como micoses, vermes, raiva, leptospirose ou sarnas. "Não podemos nos esquecer que um animal abandonado está extremamente estressado, pode estar machucado e com dor e isso pode levá-lo a se defender mordendo ou atacando quem está tentando ajudá-lo. Por isso todo cuidado é pouco", aconselha o veterinário Marcelo Quinzani, diretor clínico do hospital veterinário Pet Care Morumbi, em São Paulo. Depois, antes de colocá-lo em contato com outros animais saudáveis da sua casa, um veterinário deve fazer uma avaliação clínica no bichinho. "Caso não for ficar com animal, então com ele já sadio e cuidado, fica muito mais fácil encontrar um novo lar através de contatos e mídias sociais", completa o veterinário

Uma clínica veterinária pode me ajudar a encontrar o dono?

Divulgar a foto em pet shops e clínicas veterinárias conhecidas é uma prática comum. Essas clínicas podem inclusive verificar se o animal possui um microchip, uma espécie de RG, e se está cadastrado no banco de dados, o que facilita encontrar o dono, mas os custos costumam ser pagos por quem encontrou o animal. "Caso alguém encontre um animal perdido na rua e procure os nossos cuidados, essa pessoa passa a ser responsável pelo animal, assumindo os custos, cuidados e tratamento e passamos então a divulgar junto aos nossos clientes na tentativa de encontrar o seu lar ou um novo lar", conta o veterinário Marcelo Quinzani.
Reprodução/Facebook
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Adianta divulgar no Facebook?

Uma prática comum entre protetoras de animais é divulgar no próprio Facebook pedindo o compartilhamento de seus seguidores. Grupos específicos de "Achados e perdidos" de animais da sua região também ajudam. Em todas as situações, o fundamental é informar onde o animal foi encontrado. Com esse método, a protetora Solange Porto, uma das responsáveis pelo projeto Amigo Legal, em Santo André (SP), diz que sempre obteve sucesso em encontrar o dono e acabou até descobrindo casos de abandono. "Descobri por relatos dos próprios familiares que me procuraram pelo Facebook. Não denunciei pois não teria provas para isso. A minha preocupação maior é com o animal, que está hoje comigo para adoção."
Reprodução/Facebook
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Divulguei no Facebook. Como eu sei se a pessoa é a dona mesmo?

Quando alguém aparecer na postagem dizendo ser dono do animal perdido, peça provas, como fotos que ele tenha com o animal antes de seu desaparecimento. "A maioria das pessoas guarda imagens da família com o pet em vários momentos. Essas fotos geralmente ficam no perfil", aconselha a protetora independente Solange. Além disso, a reação do animal diante do suposto dono pode sinalizar se eles têm alguma intimidade: ir facilmente ao encontro da pessoa, abanar o rabo, lamber e fazer festa são sinais positivos. Para a devolução, tente marcar o encontro em local público ou quando houver mais pessoas com você

O animal é de raça? Cuidado redobrado!

Ao divulgar um animal de raça na internet, principalmente filhotes, existe o risco de aparecerem pessoas dispostas a obtê-lo a qualquer custo, pois são os mais requisitados em feiras de adoção, por seu alto valor no mercado. Nessa situação, é melhor checar duas vezes antes de entregar o bichinho. No caso comentado no começo do texto, Sônia entrou em contato com os interessados pelo Messenger e, quando achou que tinha encontrado a dona, que morava a quatro quadras de sua casa, convidou a mulher para buscar o animal. Quando a dona chegou lá, Sônia notou que o cachorro reconhecia a mulher, ainda que sem muito entusiasmo. "Ela tinha a guia da mesma cor da coleira que estava com ele. Mas, como eu investiguei no Face dela e não vi nenhuma postagem dela com o cachorrinho, estou até hoje com a sensação de que ela pode ter encontrado aquele animalzinho e ficado com ele", lamentou a secretária, que preferiu não informar os contatos da dona à reportagem. Procurada via Facebook, a mulher não respondeu.

Descobri um caso de abandono ou de maus-tratos, e agora?

Maltratar um animal é crime ambiental, segundo a lei 9.605/98, que prevê pena de seis meses a um ano de prisão, além de multa. Qualquer atividade suspeita envolvendo animais deve ser denunciada à polícia ambiental de cada Estado, informando o máximo de detalhes possíveis, principalmente em relação ao local e pontos de referência de onde o crime está sendo cometido. Algumas informações, como nome e forma de contato, são pedidos para ajudar na investigação, mas serão mantidos em anonimato, se assim a pessoa quiser.

Estado de SP permite denúncia em qualquer delegacia

A assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que é possível registrar ocorrência em qualquer delegacia ou pela internet, onde há a Delegacia Eletrônica de Proteção Animal (DEPA). A DEPA é composta por equipes de analistas das polícias, que encaminham as denúncias à Polícia Militar ou Polícia Civil, ou para ambas, de acordo com os relatos. Em São Paulo, há também a Divisão de Investigações Sobre Infrações de Maus-tratos a Animais e demais Infrações Contra o Meio Ambiente, do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), que investiga crimes ambientais.
Getty Images/iStockphoto
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Como posso facilitar que meu animal seja encontrado?

O principal é identificar o seu animal com uma forma de contato. Para isso, existem microchips, com um número único gravado em um minúsculo dispositivo eletrônico implementado sob a pele. Obrigatórios para viagens internacionais como Japão, Europa e Taiwan, são aplicados por clínicas veterinárias e possuem um banco de dados próprio, existindo também um banco de dados mundial. "O cadastramento é simples e seguro e deve ser realizado pelo tutor ou responsável pelo animal. Nesse caso cobra-se uma anuidade para a abertura de cadastro e manutenção dos dados", explica o veterinário Marcelo Quinzani. Por esse motivo, a protetora Solange encontrou dificuldades em trabalhar com esse sistema e recomenda uma opção mais tradicional: colocar pelo menos uma coleira com placa de identificação, contendo seu nome e telefone com DDD.
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O que é um microchip?

É um tipo de RG implementado sob a pele do seu animal. "Os microchips são revestidos por um polímero biocompatível, portanto não quebram, nem migram sob a pele, oferecendo muito mais segurança ao animal. A aplicação é indolor, rápida e segura. O animal não precisa ser contido ou sedado. Por regra, é estabelecida a aplicação na nuca do animal sob a pele. Apesar do tamanho da agulha ser grande, normalmente os animais não reclamam e nem existe sangramento no local da aplicação", conta o veterinário Marcelo Quinzani. Por meio do chip, a identificação é feita em uma clínica, com o uso de uma leitora universal. Ela ajuda a identificação de animais perdidos, desaparecidos, roubados e para identificar ninhadas e comprovação de parentesco, no caso, para emitir documento de pedigree.
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De que outras formas posso ajudar animais de rua?

Converse com alguma ONG na sua região para saber o que estão precisando. Se não puder ficar em definitivo com o animal, você pode se tornar um provedor de lar temporário, por exemplo, e ficar com ele em casa até que seja encaminhado a um novo lar. Nesse caso, não é incomum que os gastos de ração e castração sejam custeados pela entidade, como é o caso da protetora independente Solange Porto, que depois leva os animais a feiras de adoção. A ONG de gatos "Adote um Gatinho" também trabalha com lares temporários e funciona com "adoções virtuais", na qual outros voluntários contribuem com os gastos do bichano mensalmente. Sônia Maran também já foi lar temporário por acaso. Ela resgatou uma cadela da rua e custeou os tratamentos. "Estava tomada de sarna, em carne viva. Fiquei com dó e a levei para casa, mandei para o pet, paguei as despesas e depois iria colocá-la para adoção via Facebook", contou a secretária, que descobriu ainda que a cachorrinha esperava filhotes. Ela continuou dando assistência até os cães nascerem, quando conseguiu doar tanto os bebês quanto a mamãe. "Consegui uma pessoa maravilhosa que a adotou e dá para ela uma vida de rainha. Jamais eu a daria para qualquer um, pois eu me afeiçoei a ela."