Volkswagen antes do Virtus: do pioneiro "Zé do Caixão" ao mico do Apollo

Vitor Matsubara
Do UOL, em São Paulo (SP)

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    Do rústico 1600 ao sucesso de Passat e Santana... seria "era de ouro", não fosse o Apollo

    Do rústico 1600 ao sucesso de Passat e Santana... seria "era de ouro", não fosse o Apollo

Volkswagen Virtus estreia no Brasil cercado de expectativa. O primeiro projeto derivado do novo Polo foi desenvolvido localmente pela Volkswagen com a missão de agradar não apenas os exigentes mercados de sedãs compactos na América do Sul (como Brasil e Argentina), mas também países como Turquia, Rússia e Índia.

Entretanto, engana-se quem pensa que o Virtus terá vida fácil. A presença de concorrentes tradicionais deste segmento -- Chevrolet Cobalt, Hyundai HB20 S, Renault Logan e Honda City -- e a consequente chegada do Fiat Cronos, que desponta como rival mais forte neste ano, ameaçam impedir os planos da Volkswagen.

Enquanto não descobre se o Virtus vai emplacar, UOL Carros relembra a trajetória de todos os sedãs já lançados pela VW no Brasil desde 1953, quando a empresa começou suas atividades no país montando Fusca e Kombi em um galpão alugado no bairro do Ipiranga, em São Paulo (SP).

UOL Carros vai listar todos os sedãs vendidos pela VW no Brasil. Primeiro, vamos de 1968 a 1992, de "Zé do Caixão" a Apollo. Na próxima semana, contaremos o "capítulo 2" dessa história, do acupezado Logus ao versátil Jetta. Fique ligado!

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Sedãs da VW - Capítulo 1: do 1600 ao Apollo

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1. VW 1600 ("Zé do Caixão"): 1968-1971

O Salão do Automóvel de 1968 foi o palco da estreia do 1600, o primeiro três-volumes e quatro portas vendido pela Volkswagen no Brasil. O Fusca também era chamado de "sedan", mesmo sem apresentar os elementos de forma clara.

Assim, o 1600 era baseado no modelo alemão de duas portas lançado em 1961. A dianteira tinha faróis retangulares, fazendo dele o único modelo da marca a adotá-los no mundo. O acabamento seguia o padrão do Fusca, assim como a motorização de 1,6 litro refrigerada a ar, entregando 50 cv e 11 kgfm.

As formas retilíneas e o desenho das maçanetas externas (que supostamente lembrariam um caixão) renderam-lhe o maldoso apelido de "Zé do Caixão", em alusão ao personagem do cineasta José Mojica Marins.

Os faróis foram trocados por outros com refletores circulares em 1970, mas isso não foi suficiente para alavancar as vendas do modelo -- que caiu nas graças apenas dos taxistas pela praticidade das quatro portas. Diante do baixo volume de vendas, o 1600 saiu de linha em 1971 após 24.475 unidades produzidas.
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2. Passat: 1973-1988; desde 1994

O Passat surgiu na Alemanha em 1973 e chegou ao Brasil um ano depois. Disponível apenas com carroceria de duas portas e duas versões de acabamento (L e LS), tinha linhas retas e modernas para os anos 1970.

O motor de 1,5 litro tinha 65 cv e 10,3 kgfm de torque máxim, com refrigeração a água pela primeira vez em um modelo nacional da Volks. Outra primazia era a oferta da tração dianteira.

A versão de quatro portas foi lançada em 1975. Em 1976 estreava o Passat TS, recheado de detalhes únicos, como faróis duplos, faixas esportivas e volante de três raios de metal com furos. O motor alemão de 1,6 litro com carburador Solex de corpo duplo progressivo, que entregava 80 cv e 12 kgfm -- um aumento de 15 cv e 1,7 kgfm frente às demais versões.

Dois anos depois veio a versão LSE, que tinha também itens como ar-condicionado integrado ao painel como opcional de fábrica (que só podiam ser instalados nas concessionárias), banco traseiro com descansa braço central e luzes de cortesia para os passageiros de trás.

A primeira reestilização foi feita em 1979, trazendo faróis retangulares com luzes de seta nas extremidades e para-choques mais envolventes. As lanternas também eram novas. Curiosamente, o Passat alemão nunca adotou este design -- a fonte de inspiração da VW foi o Audi 80, de 1976.

Pressionado pela chegada do Chevrolet Monza, o Passat precisou se atualizar para não comer poeira. Em 1983, a Volks introduziu mudanças como os quatro faróis retangulares e grade frontal mais baixa. O motor MD-270 de 1,6 litro ganhou várias melhorias (como maior taxa de compressão, novo comando de válvulas e ignição eletrônica) para chegar aos 82 cv e 12,9 kgfm com álcool.

Uma mudança controversa foi a adoção deste motor para todas as versões -- da básica até as mais esportivas. Na linha 1984, o GTS Pointer incorporou o 1.8 adotado no Santana e Gol GT. A configuração esportiva, aliás, tinha bancos Recaro, vidros verdes, para-brisa com faixa degradê e até teto solar opcional.

Em 1986, a marca promoveu a volta do Passat LSE, na verdade um excedente da produção destinada à exportação ao mercado iraquiano. Tudo fazia parte de um acordo no qual o governo daquele país pagava os carros com petróleo, que era repassado à Petrobras. Como esta estava com excedente do produto, a venda foi suspensa temporariamente, e a Volkswagen decidiu comercializá-lo no Brasil.

Em dezembro de 1988, a Volks descontinuou o Passat nacional após 897.829 unidades produzidas.

O nome só voltaria ao mercado brasileiro a partir de 1994, na forma de veículos importados da Alemanha. Atualmente, o Passat está em sua oitava geração, que vende pouco no país, mas traz o melhor da marca para carros de passeio -- considerando que o belíssimo Arteon ainda não está confirmado para o país.
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3. Voyage: 1981-1996; desde 2008

O Voyage foi o primeiro modelo derivado do Gol. Lançado em 1981, nasceu apenas com carroceria duas portas, duas versões de acabamento (S e LS), câmbio manual de quatro marchas e motor 1.5 refrigerado a água (vindo do Passat, com 65 cv), movido a álcool ou gasolina.

O sedã começou a ser exportado para alguns países da América do Sul no ano seguinte, adotando nomes como Senda e Amazon, dependendo do mercado. Também começou a ser feito na Argentina, onde se chamava Gacel (gazela, em espanhol).

As séries especiais começaram a surgir em 1983, juntamente com a carroceria de quatro portas. Mais lembradas são as versões Plus e Los Angeles, esta última alusiva aos Jogos Olímpicos de 1984 disputados na cidade californiana e com uma chamativa pintura azul. Os motores AP foram incorporados à linha em 1985, sendo que o Voyage GLS Super (equipado com um motor 1.8 de 94 cv quando movido a álcool) nasceu em 1986.

A primeira reestilização veio em 1987, acompanhada do câmbio de cinco marchas. As maiores mudanças visuais ocorreram na frente, que ficou mais baixa e com para-choques envolventes. Naquele ano, a Volks realizou mais de duas mil modificações (incluindo as adoções de suspensão recalibrada, câmbio de quatro marchas com overdrive e injeção eletrônica analógica) para exportar Voyage e Parati para os Estados Unidos, onde se chamavam Fox e Fox Wagon, respectivamente. Mais de 200 mil unidades foram enviadas para lá durante sete anos.

Uma alteração mais profunda aconteceu em 1991, deixando o Voyage com estilo mais atual. Em 1993, a VW lançou a versão Sport, que tinha um motor AP 1.8 movido a álcool com 99 cv -- o mesmo empregado no Gol GTS.

O lançamento do Gol "bolinha" em 1995 significou o fim da produção do Voyage no ano seguinte. Sem muitas explicações, a VW decidiu descontinuá-lo após 465.176 unidades produzidas. Em seu lugar, resolveu trazer o Polo Classic da Argentina.

O Voyage só voltaria às ruas em 2008, pegando carona no lançamento da terceira geração do Gol -- chamada equivocadamente de "G5" pela VW. Construído sobre a antiga plataforma PQ24 do Polo, tinha linhas modernas e motorizações 1.0 e 1.6.

A oferta do câmbio automatizado I-Motion veio em 2009 e a primeira reestilização, em 2012. A última atualização visual aconteceu em 2016, e o modelo permanece sem novidades desde então.
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4. Santana: 1985-2006

Lançado na Alemanha em 1980, o Santana nasceu como o sedã da linha Passat, composta ainda por um hatchback (de três e cinco portas) e uma perua (Passat Variant).

Se a vida do Santana foi curta na Alemanha (o nome deixou de ser usado em 1985), sua trajetória foi bem mais feliz no Brasil, onde estreou no mesmo ano. O primeiro carro de luxo da Volkswagen por aqui trazia a inédita carroceria de duas portas -- apenas para atender à preferência local daquela época. Eram três versões de acabamento: CS (Comfort Silver), CG (Comfort Golden) e CD (Comfort Diamond).

Todas as versões do Santana vinham com um motor 1.8 com carburador de corpo duplo, entregando 92,4 cv com álcool no tanque. Em agosto de 1985, a VW lançou a Santana Quantum, idêntica à Passat Variant europeia. A linha 1986 trouxe o motor AP 1800 associado a uma caixa de relações mais curtas, acabando com as críticas ao desempenho do modelo anterior.

Além de uma leve reestilização, a linha 1987 mudou os nomes das versões para C, CL, GL e GLS. Em maio de 1989 estreava o Santana 2000, com motor AP 2.0 de 112 cv e 17,5 kgfm nas versões a álcool.

Coube ao Santana Executivo o privilégio de estrear o motor 2.0 com injeção eletrônica multiponto analógica de 114 cv em 1990. A versão luxuosa tinha grade exclusiva, rodas BBS de 14 polegadas (que podiam ser pintadas de prata ou dourado), lanternas fumês, bancos Recaro revestidos em couro e volante menor. Tanta exclusividade tinha um preço: o Santana EX custava 60% a mais do que a versão GLS, até então o veículo mais caro à venda no Brasil.

Pressionado pela abertura do mercado de importações, o Santana sofreu uma significativa reestilização em 1991. O motor 2.0 era incorporado pelo Santana GLS, com os motores 2.0 e 1.8 carburados sendo oferecidos nas versões GL e CL, respectivamente.

O modelo 1992 trouxe a opção de freios ABS e o catalisador no escapamento de todas as versões. A renovada Quantum também foi bem recebida, e dela se originou a perua Royale, oferecida pela Ford só com duas portas para evitar concorrência entre os produtos da Autolatina.

Vários itens de conforto e segurança foram adicionados nos anos seguintes, fazendo do Santana uma das melhores opções à venda entre os carros nacionais. Entretanto, o avanço dos importados -- e da própria concorrência local -- já ameaçava o futuro do Santana.

O fim da Autolatina em 1996 mudou novamente a gama de versões do Santana, agora formada por 1.8 Mi, 2000 Mi, Evidence (versão esportivada, com spoiler traseiro e rodas de liga leve) e a topo Exclusive.

Uma nova reestilização ocorreu em 1998, trazendo faróis, lanternas e para-choques lisos que destoavam do restante do visual. Foram realizadas pequenas mudanças pontuais até 2002, quando a Quantum saiu de cena.

O Santana resistiu até 2006.
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5. Apollo: 1990-1992

O Apollo foi um dos "filhos" mais famosos da Autolatina, a controversa joint-venture entre Ford e Volkswagen firmada em 1987. Oferecido apenas na carroceria duas portas, ele era um Verona trajando logotipos da Volkswagen. Até o desenho de faróis copiava o sedã da Ford.

O interior tinha pequenas diferenças e um acabamento mais esmerado. A suspensão traseira vinha do Ford Escort e é criticada pelos donos e ex-proprietários do veículo por sua fragilidade.

Oferecido nas versões GL e GLS, ele usava o conhecido motor 1.8 AP carburado (95 cv) como única opção. A configuração GLS trazia interior mais luxuoso com acabamento monocromático, e posteriormente veio a série limitada VIP.

Mas não houve muito tempo para "crescer", já que em 1992 a VW decidiu substitui-lo pelo Logus.