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13/12/2008 - 10h10

Governo endossa e distribui livros com equívocos sobre AI-5

Roberto Stuckert-03.out.66/Folha Imagem
O então ministro da Justiça Luís Antonio Gama e Silva anuncia o AI-5 ao lado do locutor Alberto Cury, na Agência Nacional
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Pelo menos 4 das 10 coleções de livros de história mais bem avaliadas pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC (Ministério da Educação) para 2008 têm erros de informação sobre o AI-5. As obras foram utilizados pelas escolas públicas do ensino fundamental neste ano. Outros dois livros ignoram o evento histórico.

Um dos livros --"História: das Cavernas ao Terceiro Milênio", escrito por Myrian Becho Mota e Patrícia Ramos Braick-- atribui ao AI-5 o estabelecimento da pena de morte no país. As autoras admitem o engano, que não foi percebido pelos professores universitários contratados pelo MEC para referendar as obras. A obra foi avaliada como "ótima" em critérios como concepção de história e conhecimentos históricos.

O ministério não soube dizer quantos livros com erro foram distribuídos nem há quanto tempo eles são usados. Os dados mais recentes disponíveis, obtidos pela pesquisadora Célia Cristina de Figueiredo Cassiano, mostram que em 2002, na cidade de São Paulo, 4.224 escolas receberam a obra.

De acordo com o mesmo estudo, o livro "História Temática", de Montellato, Cabrini e Capelli, foi o mais vendido entre as escolas de São Paulo, contabilizando 162.387 exemplares. A obra também traz erro sobre as conseqüências do ato.

Para Maria Auxiliadora Schimidt, coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Educação Histórica da Universidade Federal do Paraná, muitos erros ocorrem porque os autores só usam uma versão do fato como verdadeira, em vez de procurar uma abordagem pluralista.

A pesquisadora também criticou os critérios utilizados pela comissão de professores ligados ao PNLD, restritos apenas a encontrar erros de informação.

Avaliação

Os livros recomendados pelo MEC são avaliados por uma comissão de 29 professores universitários, sob critérios como fontes históricas, metodologia de ensino-aprendizagem e concepção de história.

As obras aprovadas são reunidas com as respectivas resenhas críticas num guia, que é enviado às escolas públicas para a escolha dos professores. Para Arlette Medeiros Gasparello, que foi professora de história entre 78 e 91 e hoje ministra a disciplina prática de ensino de história na Universidade Federal Fluminense, o professor precisa ter formação adequada para poder usar o livro didático de forma crítica. Astrogildo da Silva Júnior, professor de história de ensino fundamental em Araguari (MG), acha que o professor acaba por assumir o livro como uma verdade absoluta.

Schimidt concorda. Para ela, em geral, professores do ensino fundamental não acompanham as atualizações historiográficas e por isso não conseguem ter autonomia em relação ao conteúdo desses livros.

Outro lado

As autoras do livro "História: das Cavernas ao Terceiro Milênio", Patrícia Ramos Braick e Myriam Becho Mota, reconheceram que sua obra tem incorreções e informaram que a próxima edição do livro sairá revisada, ainda sem previsão de data.

Maria Luísa Vaz, co-autora do livro "Navegando pela História", da Quinteto Editorial, contesta o erro, mas diz que, ao não citar a Constituição de 1967, o texto permite dupla interpretação.

Conceição Aparecida Cabrini, co-autora de "História Temática: o Mundo dos Cidadãos" diz que o que há em seu livro é uma "imprecisão".

Por três dias, a Folha tentou ouvir Gilberto Cotrim e Jaime Rodrigues, autores da coleção "Saber e Fazer História", por meio da editora Saraiva, sem resposta.

Embora autores reconheçam erros, o Ministério da Educação, que avaliou as obras como "ótimas" e "boas", afirmou que as informações estão corretas, o que houve foi uma simplificação do "detalhamento jurídico".

Segundo o ministério, isso acontece porque os autores simplificam informações, "por vezes acertadamente, outras nem tanto", para torná-las mais acessíveis à faixa etária dos alunos.

Leia sobre o ensino de história na ditadura
www.folha.com.br/083444

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