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25/01/2009 - 09h02

Asiáticos e sul-americanos são os principais povos que imigram para São Paulo

Em mais de cem anos, a cidade de São Paulo foi um atrativo para diferentes povos que vinham em busca de melhores condições de emprego e possibilidades de enriquecimento. Nesse período, o perfil e a nacionalidade desses povos foi se alterando até o início do século 21, em que os principais fluxos de chegada são de países asiáticos e sul-americanos.

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Segundo a diretora técnica do Museu do Imigrante, em São Paulo, Silmara Baltazar Novo, os principais imigrantes atualmente são coreanos, chineses, bolivianos e peruanos. Desses grupos, apenas os sul-americanos permanecem seguindo a tendência histórica e vêm em busca de melhores condições de vida.

Esse é o objetivo do peruano Georger Damian Vilca, 25, que deixou seu país há dois meses em direção a São Paulo, mas se decepcionou com a realidade que encontrou. "Me falavam que havia emprego e dinheiro aqui. Mas não é bem assim, a situação é bem parecida com o Peru", conta.

Arquivo Museu do Imigrante
Imigrantes chegam a São Paulo no começo do século 20. Hoje, os principais fluxos de imigrantes vêm da Ásia e da América do Sul
Imigrantes chegam a São Paulo no começo do século 20. Hoje, os principais fluxos de imigrantes vêm da Ásia e da América do Sul


A coordenadora do Nepo (Núcleo de Estudos de População) da Unicamp, Rosana Baeninger, diz que o imigrante sul-americano tem entre 19 e 34 anos, vem geralmente em uma unidade familiar também jovem. Esse é o caso de Osvaldo Alanoca, 35, que saiu da Bolívia há 5 anos e hoje trabalha como costureiro no bairro do Brás (centro de SP). A esposa veio depois de dois anos e os filhos nasceram no Brasil. "Eu só volto para a Bolívia para visitar mesmo. A situação aqui está bem melhor do que lá".

Segundo Baeninger, os imigrantes geram receita e encontram emprego na cidade porque são mão de obra de custo baixo, já que não possuem documentação adequada. "Apesar de serem pouco assistidos pelos órgãos públicos, eles estão em situação melhor do que em seus países de origem".

Já os asiáticos que vêm para São Paulo, são motivados pelo desenvolvimento econômico da região e dispostos a investir, completa Novo. "Esses dois grupos têm objetivos diferentes na região, mas se relacionam diretamente. Os asiáticos investem, principalmente, na indústria têxtil e dão emprego aos imigrantes sul-americanos", afirma.

Assim como aconteceu em diferentes períodos da história os imigrantes asiáticos e sul-americanos estão cada vez mais concentrados em bairros específicos da cidade de São Paulo, como o Pari e o Bom Retiro, no centro da cidade.

A coreana Yong Ikim, 50, veio para São Paulo com os pais há 35 anos. "Eles sabiam que a situação aqui era melhor", diz.

Hoje, Ikim é dona de uma loja de roupas com a irmã no Brás e afirma: "Eu não tenho vontade de voltar. Dos quatro irmãos que vieram, apenas um foi embora. E foi para os Estados Unidos, em busca de uma vida melhor".

O mesmo fenômeno de concentração de diferentes comunidades em determinados bairros já foi registrado com populações de outras comunidades, como a italiana na Mooca, a alemã em Santo Amaro e a lituânia na Vila Prudente. Algumas delas permanecem até hoje com características próprias de cada povo.

Esse fenômeno de concentração de comunidades é apontado como muito importante por Novo. "Essa é uma maneira de amenizar os choques culturais que afetam todos os imigrantes que chegam a São Paulo, alguns em relação ao clima, outros ao idioma ou ainda em relação à comida", afirma a diretora do Museu do Imigrante.

"O clima daqui é bem diferente ao da Coreia, mas não foi muito difícil me adaptar, o pior foi a comida e o idioma, mas o brasileiro é bem receptível e acaba ajudando a gente com esse problema", afirma o coreano Yoo Pil Hong, 76, que chegou a São Paulo em 1956, após ser prisioneiro na Guerra da Coreia.

Problema parecido também enfrentou o sírio Mwafak Hamoudeh, 40. "Não é normal encontrar namorados se beijando nas ruas na Síria, os costumes dos dois países são muito diferentes, eu precisei me adaptar a tudo isso", ressalta Hamoudeh, que vive em São Paulo desde 1993.

Histórico

Arquivos Museu do Imigrante
Famílias estrangeiras chegam a São Paulo no começo do século 20 e são encaminhadas para trabalhar no campo no interior do Estado
Famílias estrangeiras chegam a São Paulo no começo do século 20 e são encaminhadas para trabalhar no campo no interior do Estado


Os primeiros grupos de imigrantes que desembarcaram em São Paulo chegaram no fim do século 19 e eram provenientes da Itália, Portugal, Espanha, Alemanha e Japão, segundo Novo.

Nesse primeiro momento, os imigrantes chegavam por incentivo do governo que precisava suprir a necessidade de mão de obra deixada pelos escravos libertados. Eles chegavam pelo porto de Santos e seguiam direto para o interior do Estado, onde trabalhavam, geralmente, na produção de café.

A maior parte dos imigrantes passa a se fixar na cidade de São Paulo no início do século 20, e começam a transformar o perfil da cidade com a aplicação de seus costumes na cultura local, como aconteceu com as cantinas italianas, as sapatarias espanholas e as padarias portuguesas. Segundo Novo, nesse período 2/3 da população paulistana era composta por italianos.

Após a 1º Guerra Mundial, outras nacionalidades também começam a vir para São Paulo, como os russos, lituanos, ucranianos, libaneses, sírios, armênios, búlgaros, entre outros.

Nas décadas seguintes, a imigração em São Paulo sofreu altos e baixos de acordo com a situação econômica do Brasil e dos países de origem das populações imigrantes. As nacionalidades dos principais povos também sofreram diversas alterações.

Para Novo, uma das característica que sempre estiveram presente na motivação dos imigrantes que entram em São Paulo é a busca por uma vida melhor. "Em todos os períodos de imigração, os estrangeiros deslocaram para buscar um sonho de enriquecimento, mas esse enriquecimento dificilmente acontece", afirma ela.

"Esse é um país de oportunidades. Foi difícil no começo, mas trabalhando eu consegui me fixar, construir toda uma vida pra mim e pra minha família", afirma Hamoudeh, que deixou a Síria apenas sete meses depois de casar para visitar São Paulo com a mulher e, juntos, decidiram permanecer em São Paulo.

Distribuição de comunidades imigrantes nos bairros de São Paulo
Comunidades Bairros em que se concentram
Alemães Santo Amaro (zona sul)
Americanos Jardim Paulista (zona oeste)
Angolanos Sé (centro)
Árabes Vila Mariana (zona sul)
Argentinos Jardim Paulista (zona oeste)
Armênios Bom Retiro (centro)
Austríacos Santo Amaro (zona sul)
Belgas Jardim Paulista (zona oeste)
Bolivianos Pari (centro)
Canadenses Jardim Paulista (zona oeste)
Chilenos ABC
Chineses Liberdade (centro)
Colombianos Bom Retiro (centro)
Coreanos Bom Retiro (centro)
Cubanos Bom Retiro (centro)
Equatorianos Bom Retiro (centro)
Eslovacos Vila Prudente (zona leste)
Espanhóis Cambuci (centro)
Finlandenses Santo Amaro (zona sul)
Franceses Jardim Paulista (zona oeste)
Gregos Bom Retiro (centro)
Holandeses Jardim Paulista (zona oeste)
Húngaros Santo Amaro (zona sul)
Ingleses Jardim Paulista (zona oeste)
Irlandeses Jardim Paulista (zona oeste)
Italianos Bela Vista (centro) e Mooca (zona leste)
Iugoslavos Campo Belo (zona sul)
Japoneses Liberdade (centro) e Saúde (zona sul)
Judeus Consolação (centro), Bom Retiro (centro), Perdizes (zona oeste) e Jardim Paulista (zona oeste)
Libaneses Vila Mariana (zona sul)
Lituanos Vila Prudente (zona leste)
Mexicanos Bom Retiro (centro)
Nigerianos República (centro)
Paraguaios Bom Retiro (centro)
Peruanos República (centro)
Poloneses Vila Prudente (zona leste)
Portugueses Santana (zona norte)
Russos Vila Prudente (zona leste)
Sírios Vila Mariana (zona sul)
Suecos Campo Belo (zona sul)
Suíços Santo Amaro (zona sul)
Uruguaios Perdizes (zona oeste)
Venezuelanos Bom Retiro (centro)


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