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23/12/2009 - 08h20

Sherlock Holmes e Nietzsche são sucesso no metrô por R$ 2 a R$ 10

Na plataforma de embarque da estação do metrô Consolação, Márcia de Freitas primeiro comprou, por R$ 3, uma edição de contos de Machado de Assis. Cavoucou a carteira, achou uns trocados e resolveu levar também "A Volta ao Mundo em 80 Dias", de Julio Verne, também a R$ 3. Aí a máquina travou.

O livro caiu em pé, impedindo a abertura da tampa de coleta. Para se queixar depois, Marta anotou telefone e e-mail da empresa 24x7 Cultural, que opera o serviço, e embarcou só com o Machado.

Filipe Redondo/Folha Imagem
Passageiro observa máquina de livros em plataforma de embarque da estação de metrô da Sé
Passageiro observa máquina de livros em plataforma de embarque da estação de metrô da Sé


A máquina de vender livros da Consolação é uma das 16 espalhadas por sete estações do metrô paulistano -há também uma na estação Carioca, no Rio.

Começaram a funcionar em 2003 e, segundo a operadora, acabam de alcançar a soma de 1 milhão de livros vendidos.

De clássicos nacionais a autoajuda; de obras técnicas (manuais de Excel e matemática) a compêndios sobre pensadores; de livros infantis a policiais, oferecem uma miscelânea.

E, como de quase tudo se vende, compra-se de quase tudo, inclusive muito Nietzsche. O filósofo alemão é o autor com mais títulos à venda, 19, que seduziram 36 mil compradores desde 2004. "Assim Falava Zaratustra" e "Humano, Demasiado Humano" são os best-sellers nietzschianos, 9.000 exemplares de cada um no período.

Obras de domínio público, como as de Nietzsche e Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes --e autor mais vendido no metrô--, compõem boa parte da oferta, o que ajuda a baixar o preço. Outro facilitador são as edições simples, de papel barato e pequenos formatos. Custam de R$ 2 a R$ 10 --a maioria entre R$ 3 e R$ 5.

Márcia, a do livro preso, tem 27 anos, mora em Itaquaquecetuba (Grande São Paulo), estuda letras numa faculdade na Barra Funda e trabalha num restaurante na região da avenida Paulista. Passa três horas por dia dentro de algum transporte público. "Comprei pelo preço e pela rapidez, porque não tenho tempo de parar numa livraria. Mas tenho tempo de sobra pra ler no metrô, no trem e no ônibus", explica.

O dono da 24x7, o médico Fabio Bueno Netto, 50, pensou mesmo em explorar a agilidade de um serviço expresso, ao importar máquinas projetadas para vender salgadinhos e adaptá-las para livros.

Cada equipamento comporta 280 volumes. Segundo Netto, são vendidos cerca de 500 por dia --15 mil/mês, 180 mil/ano.

Num mercado de 211 milhões de livros por ano (dados da Fipe de 2008), é pouco. Mas às vezes as máquinas alcançam façanhas, como a venda de 3.300 exemplares de "Dom Casmurro", de Machado de Assis, em dez dias, em novembro --o livro estava na lista dos vestibulares da Fuvest, da Unicamp e da PUC-SP. Um potencial best-seller tem, no mercado tradicional, tiragem inicial de 10 mil exemplares, às vezes menos.

A 24x7 compra os livros de mais de 60 editoras. O escritório-depósito da empresa é abarrotado de livros. Netto, um sujeito alto e de fala mansa, que jura que falhas das máquinas como a vivida por Márcia são raras, parece não se afetar com a bagunça. Ele conta que pede a ajuda da secretária para selecionar as obras que compra.

"O critério é de exclusão: não ponho pornografia, violência pura, política partidária nem livros doutrinários. A partir daí vejo qualidade de edição e os títulos que podem contribuir para conscientizar a população."

O Metrô, que saúda a iniciativa do empresário, cobra R$ 700 por mês por m2 (que comporta uma ou duas máquinas) pela autorização de uso, baseada num regulamento para exploração das áreas destinadas a comércio e serviços.

René, o Bom

A estação da Sé, por onde circulam diariamente 750 mil pessoas, concentra o maior número de máquinas: sete. Logo após a catraca, há duas, separadas por poucos metros.

O funcionário público René Barreto, 45, parou numa, escrutinou sem sucesso e foi até a outra, onde tampouco tinha o que buscava: a edição de bolso de "Jeremias, o Bom", o generoso personagem de Ziraldo. "Sempre levo para presentear amigos. Já comprei uns 12 nas máquinas", diz ele, que fica em média meia hora por dia no metrô. "A vantagem [do serviço] é mostrar às pessoas que elas podem comprar livro barato. Três reais é dinheiro de pinga."

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