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Segunda-feira, 16 de setembro de 2019

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Denunciar igreja é tormenta, diz ex-coroinha sobre pedofilia

Quando decidiu denunciar o abuso sexual que diz ter sofrido durante três anos, um ex-coroinha de Brasília pensava na "libertação". Encontrou no gesto, segundo disse, a maior "tormenta" de sua vida.

"Hoje pensaria muito antes de denunciar. Todos se voltaram contra mim, inclusive a Igreja", conta o jovem, que delatou à Justiça ter sido molestado sexualmente, entre os 14 e 17 anos, pelo padre Wilson Santos Pereira, vigário da paróquia de Ceilândia, cidade-satélite do Distrito Federal.

Sem o apoio da Igreja, que não investigou o caso, o ex-coroinha acabou expulso de um grupo de jovens católico de que participava e foi acusado pelos fiéis de tramar uma "armação".

A relação entre o padre e o jovem foi investigada pela Polícia Civil e o vigário acabou denunciado pelo Ministério Público, no ano passado, por corrupção de menores. Mas o religioso, que continua à frente da paróquia, foi beneficiado por mudança em lei que alterou a idade limite do delito.

"Nunca mais entro em uma igreja", diz o ex-coroinha, que pediu para não ser identificado. "A Igreja Católica é uma farsa. Para mim acabou. Não aguento mais nem ouvir a palavra 'padre'."

Praticamente criado dentro da Igreja, que frequentava desde os oito anos, o hoje estudante de administração e geografia contou que o assédio do padre começou quando ele tinha 14 anos. "Ele me chamava para ir em sua casa. Pedia para eu mostrar o meu órgão e ficava fazendo comentários: 'nossa, você deve se masturbar muito com essas veias grossas'."

Em uma noite, o ex-assistente diz ter sido ameaçado. "O padre disse que, se eu contasse sobre nós, me mataria." Posteriormente, o jovem gravou uma conversa em que o padre reconhece estar errado e pede perdão. O Ministério Público pediu que Wilson cedesse uma gravação de sua voz para a perícia, o que foi recusado.

"Após nos afastarmos, ele começou a fazer com outros meninos o mesmo que fez comigo. Uma pessoa arrependida não faz isso. Depois ele tentou comigo de novo. Aí decidi denunciar", afirma o jovem.

À Folha, padre Wilson não quis falar sobre as acusações. "Isso é uma coisa muito dura", disse. "Fico até constrangido. Já passou. Não quero falar nem estou autorizado a falar".

PENITÊNCIA

A denúncia de abusos sexuais por padres abriu uma grande crise na Igreja Católica. O Vaticano e o papa Bento 16 são acusados de inépcia diante dos casos, que pipocam em diversas partes do mundo.

A Igreja no Brasil mantém completo silêncio sobre o assunto. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) informou não ter atuado no caso do padre Wilson, que diz ser da competência da Arquidiocese de Brasília. Esta nem sequer abriu investigação para apurar o caso, como recomendado pelo Vaticano.

A*Folha* tentou falar com o arcebispo metropolitano da capital, dom João Braz, em três ocasiões. Informado pela reportagem sobre o tema, dom João foi ríspido e não quis conversa. "O caso está encerrado", disse.

O ex-coroinha, atualmente com 20 anos, tenta reconstruir a vida longe de Brasília. Mudou com a família para uma cidade do interior de Goiás, onde faz faculdade. Após tratamento psicológico, engatou há seis meses um namoro, mas omite o passado para a parceira. "As pessoas às vezes reagem mal", conta.

Apesar da aversão a padres e de não conseguir mais entrar em igreja, ele afirma ainda acreditar em Deus.

IMPUNIDADE

O processo contra padre Wilson foi extinto. No mesmo mês em que era analisado pelo Tribunal de Justiça do DF, em agosto passado, houve alteração, no Congresso, de um artigo do Código Penal que trata de corrupção de menores. A nova redação prevê a punição de adulto que se relaciona sexualmente com menores até 14 anos --com o limite anterior, de 17 anos, era possível enquadrar o vigário.

Wilson continua à frente da paróquia de Nossa Senhora da Glória. Celebra missa semanalmente e tem o apoio dos fiéis. A Folha entrevistou dezenas deles na última semana. Todos se referem ao suposto caso de pedofilia como uma armação do jovem. "Graças a Deus não havia provas para incriminá-lo", disse uma fiel sobre o padre, que o conhece da igreja há 20 anos.

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