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Quinta-feira, 29 de junho de 2017

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Sertanista veterano considera Belo Monte uma "obra monstruosa" para os índios

Pedro Alonso.

Madri, 28 abr (EFE).- A polêmica hidrelétrica de Belo Monte, que está para ser construída no Pará, é uma "obra monstruosa" para a vida dos povos indígenas, adverte o sertanista José Carlos Meirelles, um dos especialistas em índios de maior prestígio no mundo.

"Acho que não se deveria fazer Belo Monte", declara Meirelles em entrevista concedida nesta quinta-feira à Agência Efe, por ocasião de sua visita à Casa América de Madri para participar de um debate sobre as tribos indígenas da Amazônia.

As obras da hidrelétrica, que começaram em março passado na Bacia do Rio Xingu, provocarão danos irreparáveis ao ecossistema e ao modo de vida de indígenas e camponeses que habitam nas margens do rio Xingu, afluente do Amazonas, denunciam ambientalistas e ativistas defensores dos direitos indígenas.

A construção da usina, pretendida para ser a terceira maior do mundo - após a chinesa Três Gargantas e a brasileiro-paraguaia Itaipu -, irá inundar mais de 500 quilômetros quadrados de floresta e terá de remover cerca de 50 mil pessoas de suas terras.

"(Belo Monte) vai tirar cinco vezes mais terra que a usada para fazer o Canal do Panamá", ressalta Meirelles, para dar uma ideia do tamanho do que ele qualifica de "obra faraônica".

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA), pediu neste mês ao Governo brasileiro que suspenda as obras da usina, mas o sertanista considera "difícil" que as autoridades brasileiras reconsiderem os planos de construir.

"Teremos muita energia, mas também muitos problemas", avisa Meirelles, ex-titular da Coordenação Geral de Índios Isolados da Fundação Nacional do Índio (Funai), que deixou o órgão em janeiro passado após 40 anos de serviço.

Em sua primeira visita à Espanha, Meirelles, hoje assessor do Governo do Acre em matéria de indigenismo, opina à Efe que a usina "vai mudar toda a região, onde há muitos índios que já interagiram (com a civilização), mas também há comunidades isoladas".

Em sua opinião, "se não houver um trabalho de mitigação, esta represa vai inundar os índios", tendo em vista "a quantidade de gente que a construção da represa vai atingir", o que causará um "impacto indireto" nos indígenas.

O especialista teme que essas tribos se transformem mais em "vítimas" do projeto do que em beneficiados, e assim ele justifica os apelos ao Governo brasileiro para "buscar alternativas de energia, em vez de fazer uma megaobra como Belo Monte".

Essa opção "seria uma decisão inteligente", destaca Meirelles, que deixa uma pergunta no ar para a presidente Dilma Rousseff: "Por que não consultar os indígenas, respeitando seus costumes?".

Apesar da polêmica sobre Belo Monte, o sertanista reconhece que o Brasil conta com a legislação "mais avançada do mundo" no que diz respeito aos direitos dos povos indígenas. A Amazônia brasileira abriga até 70 povos indígenas isolados - "estão aí desde sempre e são povos que ainda vivem como viviam quando se descobriu América".

Mas, em suas palavras, "uma coisa são as leis e outra é fazer com que elas sejam cumpridas". Ele adverte ainda sobre a existência de ameaças existentes contra os índios do Acre, estado onde ele exerce seus trabalhos atualmente.

"A prospecção ilegal do mogno, os mineiros buscando ouro, as grandes empresas petrolíferas e os que plantam coca" são uma "interferência" que coloca em perigo a existência das tribos autóctones, alerta.

Após 40 anos dedicados ao estudo dos indígenas, ele é um dos poucos especialistas que estabeleceu contato com grupos completamente isolados da civilização.

Meirelles diz não ter esquecido seu primeiro contato em 1973. Foi no Maranhão, quando se encontrou com um grupo da tribo awá ("que significa 'gente' em seu idioma"), um povo indígena nômade do leste da Amazônia.

"A princípio - explica -, o contato é uma espécie de compra. Damos presentes aos indígenas. Colocamos o presente longe, e depois vamos cercando-o até que o índio se aproxime de nós".

No entanto, ele se mostra arrependido daquilo. "Tive esta experiência e não me orgulho nada. Todos os contatos que temos com os indígenas são ruins para eles".

"No contato, o índio não sabe aonde está indo quando interage conosco. É mais fácil que fique louco antes de entender (...) o mundo em que vivemos", destaca o sertanista.

Com um categórico "jamais, jamais", Meirelles promete não voltar a invadir o mundo dos indígenas, porque, segundo ele, são as tribos que devem decidir se fazem contato com os demais.
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