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Quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

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Elevar o juro é andar na contramão

DE SÃO PAULO

Começo este artigo citando dois amigos eminentes professores de economia. O primeiro é o ex-ministro Antonio Delfim Netto.

Em artigo sobre as precárias condições em que se encontra o que, segundo ele, imaginava-se ser a "ciência monetária", Delfim conclui com a seguinte observação: "Diante de tanta confusão 'científica', é preciso recomendar humildade aos nossos sacerdotes adoradores da religião do 'tripé', que supõem não existir vida fora da manipulação da taxa Selic".

O segundo é o professor Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, que disse o seguinte: "Se você olhar a composição da inflação dos serviços, vai notar que é muito mais alta, na média dos dois anos, do que nos outros setores. Começou a subir a remuneração daqueles que prestam serviços pessoais. Isso denota mudança também nos preços relativos. Às vezes os economistas confundem mudança de preços relativos com inflação".

As duas observações olham para o mesmo horizonte, aquele que vislumbra um possível aumento dos juros básicos pelo BC em abril, para supostamente combater a inflação --na reunião da semana passada, a taxa foi mantida em 7,25%.

As previsões de aumento da taxa, como sempre, estão em pesquisas feitas com os próprios interessados nessa elevação. Há uma forte pressão das forças do mercado financeiro para arrancar do BC pelo menos uma elevação mínima, de 0,25 ponto percentual na taxa Selic.

Antes de mais nada, renovo minhas convicções anti-inflacionárias. Nem por um segundo hesitaria em aprovar medidas de rigoroso controle da inflação, principalmente porque vivi a experiência infernal de trabalhar no setor produtivo durante o pior período da história econômica do país, o da hiperinflação dos anos 1980.

Feita essa ressalva, observo que há uma grande probabilidade de a inflação arrefecer nos próximos meses. Isso não é só torcida. Vários fatores apontam para essa direção.

O nível atual da inflação, de 6,3% ao ano, é elevado, mas ainda se situa um pouco abaixo do teto da meta estabelecida pelo BC, de 6,5%. Com a contenção dos preços dos alimentos e das commodities, o corte das tarifas de energia elétrica e as desonerações --na sexta foi anunciada a isenção de PIS-Cofins para produtos da cesta básica--, espera-se que a taxa se aproxime vagarosamente do centro da meta, de 4,5%.

Se essa aproximação se dará em 2013 ou em 2014 é algo que a eficiente equipe do BC tem condições de avaliar. Mas tudo isso leva a crer que a inflação vai cair de todo jeito, com ou sem a alta dos juros. Subir a Selic, portanto, será dar a oportunidade para que os defensores da política de arroxo monetário proclamem depois o acerto de suas propostas.

O BC é suficientemente competente para tomar uma decisão técnica que possa ao mesmo tempo contemplar o cuidado com a inflação e a preservação do nível de atividade.

O que mais preocupa neste momento é a naturalidade com que certos setores proclamam como satisfatório um crescimento econômico de 3%. Mais do que isso, é chocante a frieza com que afirmam ser inevitável provocar desaquecimento e algum desemprego.

Depois de muitos anos de favorecimento do rendimento financeiro, pela primeira vez o país tem a chance de dar importância maior à atividade produtiva. A cada dia, desde que o BC colocou a taxa de juros em nível próximo do civilizado, os meios empresariais se dão conta de que, para preservar e ampliar seu capital, devem colocá-lo a serviço da produção.

Essa oportunidade não pode ser desperdiçada. Várias providências precisam ser tomadas neste momento para reanimar a economia: destravar o investimento público, estimular o setor privado a participar de projetos de infraestrutura, incentivar a inovação, administrar o câmbio para não sufocar a indústria nacional, cortar mais tributos para desonerar a produção e elevar a competitividade e aprimorar o diálogo do governo com o setor privado.

Esses são objetivos que, bem ou mal, já estão sendo perseguidos. Elevar os juros, neste momento, é iniciativa inócua. No mundo todo, procura-se crescimento econômico e aumento de emprego, produção e consumo a qualquer preço, com juros muitas vezes negativos. Por que querem levar o Brasil à contramão?

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05/01/2015 » Outras bolsas

Bovespa: 47516,82 -2,05%Fonte: Reuters

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