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30/10/2009 - 22h14

Saramago afirma que críticas da Igreja não assustam leitores

Lisboa, 30 out (Lusa) ? O escritor José Saramago, muito criticado por afirmar que a Bíblia é "um manual de maus costumes", iniciou nesta sexta-feira, em Lisboa, a apresentação de seu novo romance, "Caim", dizendo: "Não procurem os hematomas, tenho a pele bastante dura". Recebido por uma plateia de pé e sob aplausos no fim da tarde desta sexta com sala cheia, no auditório da Culturgest, o prêmio Nobel de Literatura em 1998 afirmou ser essa a única referência que faria sobre a suposta polêmica que surgiu no dia em que foi lançado o livro - em Penafiel, em 18 de outubro -, centrado na figura bíblica de Caim, que assassina o irmão, Abel.

A polêmica, segundo o escritor, foi desencadeada "a mando da Igreja Católica e com a execução dos seus homens de mão (servos), ou jornalistas de mão, ou outros que se guiam por interesses pessoais ou rancores pessoais", mas não conseguiu afastar os leitores, "que não se deixaram intimidar pelo arraial".

"Venderam-se mais de 70 mil exemplares em pouco mais de dez dias", disse o escritor, que acrescentou: "Da Bíblia, parece que se venderam uns exemplares mais e eu congratulo-me, porque as pessoas que não a tinham lido podem agora confirmar a justeza das minhas observações".

Sobre a acusação de que faz "uma leitura literal da Bíblia", o autor de "Caim" respondeu, com veemência: "Eu não podia fazer uma leitura simbólica, não sou teólogo ? Deus me livre!".

"Se fizesse uma leitura simbólica, como a faria? Há muitas! (?) Que bom ser ingênuo, que bom não ser cínico? Tomei à letra o que na letra está", acrescentou.

Depois, pediu à Igreja, aos teólogos e aos padres para "colocarem ao pé de cada leitor da Bíblia alguém que a interprete".

"Porque é que vocês não imprimem tirinhas de papel para pôr na Bíblia, para que as pessoas leiam aquilo que vocês querem?", sugeriu Saramago.

Embora ateu, Saramago considera Caim "um velho amigo", cuja história leu há várias décadas e permaneceu em sua memória, por acreditar que ele foi vítima de um Deus injusto, que o maltratou e humilhou, o que o terá levado a matar o irmão, quando quem queria matar era Deus.

Ele escreveu o romance em quatro meses e o considera "do melhor" que produziu, "em todos os aspectos", inclusive "no uso de uma linguagem que não é nova" ? "que tem andado sempre comigo", observou, mas que "estava esquecida".

Reiterando que não queria falar sobre a polêmica, a qual classificou como "uma espécie de fartar-vilanagem", Saramago disse que ela nem sequer lhe "tocou a pele" e que resistirá "a todas as canalhadas que se façam à volta do livro" e dele mesmo.

"Porque, sem querer parecer vaidoso, estou acima de tudo quanto digam de mim. Não estou acima de tudo o que digam de bem de mim. Isso recebo com alegria, com gratidão", destacou.

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