A favela pode ter tudo

Símbolo do contraste social, Paraisópolis toma a iniciativa para mudar sua realidade e sua imagem

Celina Cardoso Do BOL, em São Paulo
Evelson Freitas/BOL
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Localizada no Morumbi, bairro nobre da capital paulista, Paraisópolis quer mudar a realidade de seus moradores e a sua imagem na cidade de São Paulo. Para isso, a Associação dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis criou um programa que aposta na capacitação profissional, no empreendedorismo, na instalação de bancos e empresas na comunidade, e no incentivo ao consumo dentro da própria comunidade como ferramentas para o desenvolvimento econômico local e empoderamento de moradores.

A gente descobriu que tem potencial financeiro e que, se a gente consumir cada vez mais em Paraisópolis, gera mais emprego, mais movimento. E, quanto mais empresas estiverem aqui, essa coisa do que é impossível para quem mora na favela começa a ser desmistificada. Porque a favela pode ter tudo"Gilson Rodrigues, presidente da Associação dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis

Para estimular o consumo e a inclusão financeira, a comunidade criou o cartão de crédito Nova Paraisópolis - o primeiro comunitário do Brasil - em parceria com a administradora Mais Fácil. O cartão disponibiliza um limite de R$ 300 e é aceito não só pelo comércio local, mas em grandes lojas do país.

Outra iniciativa para fomentar e consolidar o desenvolvimento local é a fundação de um banco comunitário, que deve atuar com microcrédito, educação financeira e como acelerador de negócios para empreendedores locais. Segundo Gilson, está tudo pronto para a abertura do banco, que deve ser inaugurado em setembro. A única questão pendente é a escolha do nome, que está entre Nosso Banco ou Banco Comunitário de Paraisópolis.

A percepção do potencial econômico citado por Gilson remonta à segunda metade da década de 2000, quando foi registrado um aumento de renda, fazendo com que parte da população passasse da classe de renda D para a C, fenômeno que ficou conhecido como Nova Classe Média e beneficiou moradores de comunidades como a de Paraisópolis. Nesse período, a Associação dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis aproveitou a capacidade de consumo de seus habitantes para atrair quatro bancos e uma loja das Casas Bahia para a região.

De lá para cá, as iniciativas da comunidade, em parceria com 62 organizações sociais, procuram manter e consolidar o fôlego econômico local por meio da capacitação profissional e empreendedorismo.

Gilson explica que as parcerias com as organizações sociais são feitas a partir de demandas percebidas pela própria comunidade, que monta um projeto e sai em busca de um parceiro. Quando ocorre o inverso, ou seja, a organização social procura a comunidade, a Associação tenta encaixar a proposta do parceiro em uma demanda da comunidade, tendo sempre um morador como líder da ação.

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O sabor da mudança

Elizandra Cerqueira é uma das líderes de ação comunitária. Presidente da Associação de Mulheres de Paraisópolis, ela é responsável pelos projetos Horta na Lage e pelo Café & Bistrô Mãos de Marias, duas iniciativas que caminham juntas na comunidade.

O projeto Horta na Laje teve início em meados de 2006, com o início da parceria com o Instituto Stop Hunger, organização mantida pela iniciativa privada que tem como objetivo combater a fome e a má nutrição. Aberto a toda a comunidade, o espaço da horta oferece oficinas de plantio e cultivo ministradas por professores do curso de Agronomia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) com a ideia de estimular os participantes a fazerem sua própria horta em casa.

A gente quer que as pessoas tenham uma alimentação saudável e de baixo custo. Isso gera uma economia para a família também. Fizemos um estudo que mostrou que esse cultivo pode gerar uma economia anual de R$ 912 com alimentação para as famílias"Elizandra Cerqueira, presidente da Associação de Mulheres de Paraisópolis

Uma parte da produção da horta é distribuída entre os moradores de Paraisópolis e outra é utilizada no Café & Bistrô Mãos de Maria, que surgiu com duas propostas: utilizar a produção da horta e absorver as alunas do curso de culinária Mãos de Maria, que existe desde 2007 com o objetivo de capacitar mulheres para o mercado de trabalho.

Em 2018, o Café & Bistrô Mãos de Maria foi premiado com 10 mil euros durante o evento Stop Hunger Donors' Evening, premiação mundial voltada a iniciativas femininas de combate à fome, realizado em Paris. Elizandra conta que o dinheiro do prêmio foi aplicado em melhorias para o bistrô: "Os 10 mil euros da premiação já foram aplicados na estrutura, na aquisição de equipamentos para a cozinha e na própria horta, manutenção. A gente passou o ano utilizando esse recurso para estruturação mesmo do bistrô. O espaço todo. Cobertura fixa, pintura, a manta que a gente precisava colocar na laje."

O Café & Bistrô Mãos de Maria funciona de segunda a sexta-feira, das 12h às 15h, na laje da Associação dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis (rua Ernest Renan, 1366-1352, São Paulo, SP). O cardápio é formado por pratos tradicionais da culinária brasileira, e o valor do buffet é de R$ 20 (não inclui bebidas e sobremesa).

Segundo Elizandra, o próximo passo é expandir o curso de culinária Mãos de Maria para outras comunidades da cidade de São Paulo, capacitar mais mulheres e criar o aplicativo Marmita das Marias, um delivery de comida brasileira feita pelas mulheres capacitadas pelo curso.

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Um futuro bem costurado

A capacitação de mulheres como forma de empoderamento é o objetivo de outro projeto de Paraisópolis, o Costurando Sonhos. O curso de corte e escura existe desde 2017 para capacitar mulheres que sofriam violência doméstica para o mercado de trabalho ou para empreender. Hoje em dia, as aulas atendem a qualquer mulher da comunidade ou do entorno interessada em aprender a costurar.

Em 2017, a gente percebeu um aumento nos casos de violência doméstica na comunidade. Então, a gente começou a pensar em uma ação que pudesse empoderar essas mulheres. A ideia de algo relacionado à moda apareceu até como uma maneira de melhorar a autoestima delas também"Suéli Feio, uma das idealizadoras do projeto

Com a ideia do Costurando Sonhos estruturada, Suéli saiu em busca de parcerias e conseguiu um comodato de máquinas de costura com o Senai (Serviço Nacional de Apoio à Indústria). A princípio, a própria comunidade pagava um professor e, posteriormente, a parceria com o Senai foi ampliada e passou a contemplar também um professor do próprio Senai.

O Costurando Sonhos funciona em um galpão da comunidade, em dois horários, das 8h às 12h, e das 13h às 17h, já formou 40 alunas, e a estimativa é formar outras 160 neste ano. Suéli conta ainda que, neste ano, ao final do curso, será feita uma pesquisa para verificar se a maioria das alunas prefere empreender ou trabalhar na indústria têxtil. E, com esses resultados em mãos, a Associação dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis pretende buscar uma parceria com a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) para buscar empregos para aquelas que pretendem trabalhar na indústria.

Outra forma encontrada para absorver a força de trabalho formada pelo curso foi a criação da marca Costurando Sonhos, que contou com o apoio do Instituto C&A. "Nós tivemos um grande apoio que foi do Instituto C&A, que nos direcionou e foi muito importante. Aprendemos a precificar as peças, coisa que a gente não sabia fazer", afirma Suéli.

A grife já produz ecobags e fechou uma parceria com o brechó Repassa, que doará roupas não adequadas para o uso para a marca Costurando Sonhos. Essas peças serão transformadas em acessórios como bolsas e pochetes. A primeira coleção do Costurando Sonhos deve ficar pronta no final de junho.

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