Dez anos da tragédia da TAM

Maior acidente aéreo do Brasil matou 199 pessoas há uma década em Congonhas (SP); ninguém foi condenado

Bárbara Forte Do BOL, em São Paulo
Rogério Cassimiro/Folhapress

O dia em que São Paulo parou

Era o início da noite de 17 de julho de 2007 quando o Airbus A-320, da TAM, que fazia o voo JJ3054, entre Porto Alegre e São Paulo, não conseguiu pousar na pista principal do aeroporto de Congonhas, na capital paulista. Sob forte chuva, a aeronave ultrapassou os limites da pista, atravessou a avenida Washington Luiz e se chocou contra o prédio da TAM Express, atingindo também um posto de gasolina.

A enorme explosão culminou com a morte de 187 passageiros e tripulantes, além de 12 pessoas em solo, e tornou-se o maior acidente aéreo da história do Brasil.

Hoje, dez anos após a tragédia que chocou o país, o caso continua em tramitação na Justiça, sem nenhuma condenação. Ao menos duas famílias ainda aguardam indenização, segundo a companhia aérea, e parentes homenageiam entes queridos no memorial construído em São Paulo em referência às vítimas. Um sobrevivente que escapou por um triz e bombeiros que trabalharam no resgate das vítimas também recordam o desastre. 

Bombeiros relembram momentos de tristeza durante resgate

Major Rodrigues, Major Eli e Sargento Braz atuaram para apagar o fogo e retirar os corpos

Lembro que nós trabalhamos a noite inteira. No dia seguinte, voltamos ao local e ficamos em esquema de revezamento por uns dez dias"

Major Rodrigues

Major Rodrigues, bombeiro

Havia uma comoção muito grande pelo tamanho. A temperatura era tão grande que era dificil distinguir o que era corpo humano e restos do avião"

Major Eli

Major Eli, bombeiro

Reprodução/Facebook Reprodução/Facebook

Foi por um triz

O empresário Marcelo Costa Alves Teixeira, de 38 anos, escapou por um triz de ser atingido pelo avião da TAM em Congonhas. Ele estava chegando ao aeroporto, pouco antes das 19h, para se despedir de um sobrinho de consideração que viajaria pela primeira vez de avião quando viu uma das cenas mais impactantes de sua vida: o acidente aéreo que matou 199 pessoas.

O avião passou na minha frente, a uns 15 metros de mim, cruzou a pista e bateu no prédio da TAM. Ele parecia muito frágil e o barulho das turbinas era ensurdecedor"

Marcelo conta que ficou muito assustado, em choque durante alguns segundos. "Quando a ficha caiu, eu abri a porta do carro, peguei meu computador e corri em direção ao aeroporto. Meu terno era bege, mas ficou cinza por conta da fumaça intensa". 

Dentro do aeroporto, mais tarde, o secretário percebeu o desespero de pessoas buscando informações sobre vítimas do acidente. De acordo com ele, havia gente chorando muito, desesperada. 

Marcelo esperou até 23h para buscar seu carro. Ele passou por um cordão de isolamento, após o incêndio ter sido controlado, quando um bombeiro comentou:

Você nasceu de novo hoje"

"Fui embora com essa frase na cabeça. Chegando em casa, minha esposa me viu e chorou, me abraçando. Ela estava feliz porque eu estava bem, mas havia uma tristeza por conta da tragédia", afirma Marcelo, hoje com dois filhos - um de sete e outro de três anos. 

Dez anos de saudade

Unidos pelo luto e pela dor da perda, familiares e amigos das vítimas do maior acidente aéreo da história do Brasil mantiveram uma relação de amizade e companheirismo ao longo dos últimos dez anos. São pais, mães, filhos, maridos, esposas, entre outros parentes das vítimas do voo JJ3054, da TAM, que fazem parte da Afavitam (Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo TAM JJ3054), e se reúnem em homenagens e encontros em São Paulo e Porto Alegre, além de lutar pela melhoria da aviação no Brasil. 

Roberto Corrêa Gomes, de 61 anos, é irmão do empresário Mário Gomes, que morreu na tragédia. Segundo ele, o apoio da associação foi imprescindível durante todos esses anos. "Eu não consigo imaginar como foi para os familiares que resolveram se isolar. Juntos, pudemos dar suporte um ao outro", explica. 

Assessor de imprensa voluntário na associação, Roberto lembra do conselho que deu aos amigos um ano após a colisão: 

O luto acabou. Vamos à luta"
No último sábado (15.jul.17), os familiares realizaram uma série de atividades no Memorial 17 de Julho, inaugurado em 2012 no local do acidente em São Paulo, em homenagem aos 199 mortos. De mãos dadas, com flores e orações, as famílias se uniram, mais uma vez, para lembrar os entes queridos. 

A saudade é bastante grande, a dor também. Mas o amor consegue ser maior que tudo isso"

Silvia Masseran

Silvia Masseran, mãe da vítima Paula Xavier

É difícil passar um dia que eu não chore de saudade. Não existe remédio que cure, mas temos que sobreviver"

Roberto Silva, 61

Roberto Silva, 61, pai da vítima Madalena Silva

Quando o acidente é relembrado, é uma ferida que volta a abrir, como se o ciclo não se fechasse. É um luto que a gente não sabe quando vai terminar"

Andrea Mancia, 46

Andrea Mancia, 46, filha da vítima Eduardo Mancia

O sentimento no dia é de perplexidade. Um ano depois, o luto havia acabado. Hoje, eu me emociono ao lembrar de meu irmão e de outras vítimas"

Roberto Gomes, 61

Roberto Gomes, 61, irmão da vítima Mário Gomes

Quem são os culpados?

Luiz Carlos Murauskas/Folhapress Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

Causas do acidente

O Cenipa (Centro de Prevenção e Investigação de Acidentes Aeronáuticos) investigou as causas do acidente e chegou à conclusão, em relatório divulgado em 2009, que a tragédia ocorreu pela operação inadequada dos manetes de potência do avião. Os manetes são comandos que controlam a potência da aeronave. Um deles estava em posição de aceleração, o que teria impedido o avião de frear. Na época, especialistas levantaram discussões a respeito das condições do tempo na data da tragédia, além da falta de groovings (ranhuras) na pista. Segundo o documento, porém, as condições climáticas ou as condições da pista do Aeroporto de Congonhas não foram decisivas para o acidente. Ao BOL, o procurador da República Rodrigo de Grandis, que denunciou os acusados pelo acidente, disse que a responsabilidade não é exclusiva dos pilotos, que deixaram o manete em posição de aceleração. O procurador acusou de crime de atentado à segurança de transporte aéreo na modalidade culposa (quando não há intenção) o então diretor de segurança de voo da TAM, Marco Aurélio dos Santos de Miranda e Castro, e o vice-presidente de operações da companhia aérea, Alberto Fajerman, além da diretora da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), Denise Abreu. "Os membros da TAM deveriam evitar os pousos e decolagens em Congonhas, pois eles sabiam que a pista não tinha as condições ideais de trabalho. Já a representante da ANAC não deveria ter pedido a liberação da pista sabendo dos riscos", afirma.

Luiz Carlos Murauskas/Folhapress Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

Uma década de tribunal

Em 2015, a Justiça Federal absolveu os três acusados de atentado à segurança de transporte aéreo pelo Ministério Público Federal. Dois anos depois, no último dia 12 de junho, o TRF (Tribunal Regional Federal) decidiu manter a decisão que inocentou os executivos pelo acidente que causou a morte de 199 pessoas no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O caso ainda pode seguir, via recurso da procuradoria, para o STJ (Superior Tribunal de Justiça) e STF (Supremo Tribunal Federal). "O que interpreto é que, se o TRF vai de acordo com o relatório do Cenipa, eles responsabilizam os pilotos pelo acidente. Mas eu discordo", disse o procurador Rodrigo de Grandis. No caso das indenizações, a reportagem entrou em contato com a LATAM Airlines, que enviou parecer em nota. "A companhia esclarece que todas as informações sobre as causas do acidente do voo JJ 3054, à época operado sob a marca TAM, foram esclarecidas no relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) que também fez as recomendações necessárias sobre as mudanças de procedimentos, todas adotadas pela companhia, além de solicitar modificações técnicas à fabricante da aeronave", afirma a companhia. Também em nota, a empresa afirma que, dez anos após a tragédia, ainda não pagou todas as indenizações dos familiares: "A companhia informa que existem duas famílias com ações em andamento". Segundo a Afavitam (Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo TAM JJ3054), os parentes trataram o assunto em ações individuais.

As famílias entendem, assim como eu, que não foram apenas os pilotos os responsáveis pelo acidente"

Rodrigo De Grandis

Rodrigo De Grandis, procurador da República

Aeroporto de Congonhas hoje

  1. 1

    Vai e vem

    Atualmente, o aeroporto registra uma média de 582 pousos e decolagens por mês

  2. 2

    Público

    Por dia, são 56,7 mil passageiros em embarques e desembarques

  3. 3

    Fiscalização da pista

    A Infraero afirma que faz medições semanais do coeficiente de atrito no pavimento do Aeroporto de Congonhas

  4. 4

    Pista reduzida

    De acordo com a Infraero, as duas pistas do aeroporto diminuíram para que "áreas de escape" fossem consideradas no cálculo de segurança do pouso e decolagem de aeronaves. Antes, o tamanho considerado no pouso e decolagem era de 1.940 metros da pista principal. Atualmente, as aeronaves devem operar como se a pista tivesse 1.660 metros para pouso e 1.790 para decolagem.

  5. 5

    Desgaste do solo

    O órgão também diz que realiza, quinzenalmente, ensaios de macrotextura, através do método da mancha de areia, que verifica a profundidade média da superfície do pavimento

  6. 6

    Manutenção

    A manutenção da pista é feita com jatos de água em alta pressão, quando é realizado o desemborrachamento do pavimento, independentemente do grooving, conforme os apontamentos feitos nos testes de medição de atrito e de macrotextura, segundo a Infraero

  7. 7

    Monitoramento

    O órgão diz, por fim, que são realizadas ações de melhorias constantes com foco na segurança operacional, que contemplam desde treinamentos de equipes das áreas operacionais, campanhas de conscientização de segurança operacional, até a restauração de pavimentos. Todos os planejamentos são definidos junto às companhias aéreas, CGNA (Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea) e Anac (Agência Nacional de Aviação Civil)

Texto: Bárbara Forte. Imagens em vídeo: Ronaldo Marques. Edição e roteiro: Bárbara Forte. Edição de vídeo: Paulo Castro.

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