Mães pela Diversidade

Elas enfrentam o preconceito e a violência em busca de paz e igualdade para os filhos LGBTs

Bárbara Forte Do BOL, em São Paulo
Evelson de Freitas/BOL

Maria Júlia Giorgi acordou de madrugada naquela noite e foi surpreendida pelo filho ensanguentado, todo roxo e cortado. Era fevereiro de 2018. O fotógrafo André Giorgi saía de um baile de Carnaval em São Paulo quando pegou o telefone para chamar um táxi e, sem mais nem menos, foi atingido por chutes, socos e muita brutalidade. 

A falta de segurança foi um dos fatores que fizeram com que ela, junto a outras mães, criasse o grupo Mães pela Diversidade, uma ONG (Organização Não Governamental) que defende há dez anos os direitos das pessoas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros), além de acolher e informar mães e filhos em 24 estados do Brasil.

Quanto à violência, a mãe do fotógrafo não se rende: 

Se as pessoas pensam que a gente para por aí, se enganam, porque a gente transforma o luto em luta" 

Maria Júlia Giorgi, presidente do Mães pela Diversidade

Exército materno

Mulheres se unem para aprender e tirar suas dúvidas sobre o universo LGBT, além de enfrentar os desafios do preconceito e da violência

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Nasce uma mãe

A maternidade sempre foi, para Maria Júlia Giorgi, um sonho de vida. Quando o primogênito André tinha 5 anos, ela disse ao marido, com todas as letras: "Ele é gay". 

Apesar de já saber, intimamente, a orientação sexual do filho, ela esperou que ele se sentisse à vontade para contar. "Ele tinha 14 anos quando chegou para mim e disse 'mãe, eu sou gay'", afirma. 

"O chão abriu debaixo do meu pé. Não por ele ser gay. Porque, para mim, tanto faz. Ele era meu filho do mesmo jeito. O meu problema era a violência que, mais tarde, se confirmou."

Violência iminente

Com o coração apertado, Maria Júlia Giorgi e Clarisse Cruz Pires contam como foi descobrir a violência que os filhos passaram (na infância e na fase adulta)

A luta do Mães pela Diversidade é a união dos medos, porque o que a gente tem em comum é o medo da violência, que é absurda, e só você fazendo parte dessa realidade é que você tem noção da extensão dela"

Maria Júlia Giorgi

Maria Júlia Giorgi, Presidente do Mães pela Diversidade

Reprodução/Facebook Reprodução/Facebook

Dez anos de luta

O medo e a insegurança fizeram com que Maria Júlia buscasse informação. "Eu lia muito, eu lia tanto que um dia eu fui parar dentro da militância LGBT, meio sem querer, ainda no tempo do Orkut", conta Maria Júlia Giorgi, presidente da ONG.

"Neste tempo deu para 'gestar' esse grupo. As mães que estavam na fundação continuam, até hoje, como coordenadoras estaduais."

No início, cerca de dez mães, de seis estados brasileiros, começaram a se reunir - virtualmente, mesmo - com o objetivo de trocar experiências, desabafar sobre as dificuldades e juntar forças para lutar pelos direitos das pessoas LGBT.

"Hoje nós atuamos em 24 estados. A gente trabalha para caramba, mas está valendo muito a pena. A cada dia chegam mais mães", explica Maria Júlia.

De acordo com ela, o grupo possui mães advogadas, que auxiliam nas questões legais de quem necessita de ajuda. Há mães psicólogas, que trabalham com as famílias que buscam apoio; artesãs, que criam artigos para vender e captar dinheiro para as necessidades do grupo; entre outras profissionais.

Anualmente, durante a Parada LGBT de São Paulo, elas saem à frente dos trios elétricos com uma missão: "Nosso papel é ficar na frente do primeiro trio, na frente da parada toda, para dizer à sociedade que nós temos orgulho deles, eles são nossos e que, para pegar eles, vão ter que pegar a gente primeiro. É simbólico". 

Nós somos o escudo dos nossos filhos"

Elas defendem...

  • A criminalização da LGBTfobia

    Segundo Maria Júlia Giorgi, um dos objetivos do Mães pela Diversidade é fazer com que haja uma lei que proteja a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros). "A gente quer que eles sejam inseridos em uma lei onde todos os preconceitos já estão inseridos - racismo, antissemitismo, xenofobia, idosos", afirma a presidente da ONG.

    Imagem: Getty Images
  • O casamento entre pessoas do mesmo sexo

    As Mães pela Diversidade também defendem o casamento entre pessoas LGBT. "O casamento não é apenas um papel. Ele contém mais de 80 direitos, que vão desde a visitação na prisão e herança, até guarda de filhos. O que a gente quer é que eles sejam protegidos pela lei que já é um direito de todos. Não é um privilégio, é igualdade", afirma Maria Júlia.

    Imagem: Getty Images
  • O fim do bullying com LGBTs nas escolas

    Por fim, o coletivo busca incentivar o fim do bullying com as crianças LGBT na escola. "É preciso que a sociedade entenda que a criança LGBT existe. Ninguém quer ir à escola falar de sexo. As pessoas querem ir às escolas combater o preconceito, pois existem crianças sofrendo", completa a presidente do grupo.

    Imagem: Giovanni Bello/Folhapress

A base do preconceito é a ignorância. Quando você leva informação, você acaba com o preconceito"

Maria Júlia Giorgi

Maria Júlia Giorgi, Presidente do Mães pela Diversidade

Mãe, eu sou trans

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Cássia, mãe da Giulianna

Há um ano e meio no Mães pela Diversidade, Cássia Nonato da Silva, de 52 anos, encarou dois processos distintos para conhecer melhor um de seus três filhos: Giulianna Nonato, de 24 anos. "Aos 19 anos que ela se viu como uma mulher transexual. Antes, na adolescência, achávamos que minha filha era um menino gay. Conforme ela foi se descobrindo, eu fui atrás dela para entender", conta. Segundo Cássia, todo o desenvolvimento foi complexo, difícil ao entendimento, pois fala-se pouco sobre os transexuais. "Não foi fácil, nem para ela e nem para mim. Meus pais também são mais conservadores", diz. "Chegou um momento em que ela começou a ter mais cuidados, usar saias, maquiagem. Parece estranho, mas eu me perguntava se existia essa possibilidade. É comum que a gente, como mãe, faça essa pergunta." Chegar ao Mães pela Diversidade foi ainda mais transformador para a Cássia: "Foi minha filha que me apresentou ao grupo. Comecei a aprender, participar, perdi a vergonha. Encontrei outras mães que me ajudaram a me expor mais, sem medo, e acabei aprendendo a entender o que era lugar de fala, como são os pensamentos e as emoções da Giulianna". Apesar de se sentir mais à vontade após encontrar informação e entender melhor sua filha, os medos aumentaram. "Meu maior medo é que, na falta de conhecimento, a gente vive numa sociedade em que os trans são marginalizados e, consequentemente, vítimas da violência", completa.

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Ana Lúcia, mãe dos "Miguéis"

Mãe de três filhos - dois transexuais e uma lésbica, Ana Lúcia sempre teve à sua volta um ambiente colorido. Miguel Augusto tinha 15 anos quando percebeu que sua cabeça não condizia com seu corpo físico. Após começar a se conhecer, enfrentou uma depressão. "Foram andanças e mais andanças por consultórios psicológicos até que nós descobrimos a transexualidade. Nem ele entendia o que se passava, era preso em uma 'redoma', sempre calado e isolado", afirma a mãe. De acordo com Ana, que tinha descoberto havia pouco tempo sobre a homossexualidade da filha Jéssica Tauane, houve uma sensação de muito medo do futuro. "A vida dos transexuais não é nada fácil", diz. "Minha filha havia criado o Canal das Bee, no YouTube, o que me ajudou muito a entender melhor este universo. Fui mãe de uma menina, mas hoje tenho um filho feliz", afirma. Aos 20 anos, Miguel iniciou a transição, que durou cerca de dois anos: ?No começo foi complicado, ele tentou o suicídio três vezes. Mas fomos indo juntos. Hoje ele está mais tranquilo, e eu vejo claramente um rapaz?. Miguel Marques, o outro filho de Ana, é de Salvador e foi a São Paulo para fazer uma cirurgia de histerectomia (remoção de parte ou da totalidade do útero). "Minha filha pediu que ele ficasse em casa para a recuperação e, conforme o tempo foi passando, perguntei se ele não queria ficar com a gente", conta. Quando ela ofereceu apoio para que ele ficasse para sempre com eles, ele topou na hora.

O maior desafio é acreditar que nossos filhos terão o direito de uma vida normal, serem vistos como pessoas e não pelo gênero. Mas otimismo é comigo! Defendo meus filhos com unhas e dentes. Acredito num futuro melhor pra eles"

Ana Lúcia de Sousa

Ana Lúcia de Sousa, integrante do Mães pela Diversidade

Evelson de Freitas/BOL

União em família

Antonio Celso Moraes Joaquim Basílio tinha 2 anos de idade quando sua mãe, Cátia Moraes Joaquim Basílio, percebeu que ele era uma criança diferente. "Ele era uma criança mais apegada. Naquele momento eu já achava que meu filho era gay", revela. 

O tempo foi passando, e ela resolveu esperar que ele quisesse falar sobre o assunto: "Enquanto mãe, eu procurei respeitar seu tempo e seu espaço. Cheguei a ficar angustiada, mas eu não falava", afirma. 

"Desde pequeno eu não sabia o que eu era. Fui crescendo e, só quando eu entrei na faculdade, comecei a me aceitar e a falar sobre o assunto com a minha família", explica Antonio, hoje com 22 anos. 

Sua irmã, Lhayla Talyta Moraes Joaquim Basílio, de 22 anos, seguiu o caminho da mãe e buscou, durante toda a adolescência, fazer com que o irmão se sentisse à vontade para desabafar, caso quisesse: "Eu tinha medo no começo, queria que ele me contasse. Mas eu também queria respeitar o tempo dele, pois tinha medo que ele sofresse". 

No momento em que Antonio resolveu se abrir com as duas, Cátia já havia conhecido o Mães pela Diversidade: "Encontrei aqui um espaço de apoio, ajuda, conforto e informação". 

Segundo ela, antes de conhecer outras mães com filhos LGBT, ela tinha seus medos, preconceitos. Porém, com acesso a estas mulheres, também foi mais fácil ser compreensiva. "Ter empatia é algo que eu aprendi e tento reproduzir dentro e fora daqui", finaliza. 

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

"Saiam do armário"

Para Maria Júlia Giorgi, presidente da ONG Mães pela Diversidade, o fato de uma figura pública - seja brasileira ou estrangeira - abrir sua intimidade e assumir, socialmente, que é LGBT, é motivo de comemoração e, acima de tudo, uma ação coletiva. 

"Precisa ter coragem, é um ato político de pessoas corajosas, que colocam a cara no sol para melhorar a vida de outras. Porque, no momento em que uma personalidade se assume, ela está ajudando aquele menino que está na escola do interior perdido, que não sabe o que vai fazer da vida, como vai enfrentar a família, os amigos", afirma. 

Maria Júlia incentiva, ainda, outras pessoas - famosas ou anônimas - a praticarem o mesmo: "Saiam do armário que a gente precisa de um exército aqui". 

Arquivo Pessoal/Montagem BOL Arquivo Pessoal/Montagem BOL

Serviço

Mães pela Diversidade 
Informações por meio do Facebook  

Reportagem

Texto e Roteiro: Bárbara Forte. Fotografia: Evelson de Freitas. Imagens e edição de vídeo: Pedro Fonseca. 

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