Programando oportunidades

Por que ele deixou o emprego e criou uma escola para ensinar programação para crianças de baixa renda

Bárbara Forte Do BOL, em São Paulo
Evelson de Freitas/BOL

Eu tinha um emprego fixo, muito bem remunerado, trabalhava no centro financeiro de São Paulo. Se seguisse no mesmo caminho, eu teria uma vida mais confortável, mas não estaria feliz”

Arthur Gandra, 29 anos 

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Garoto da periferia

O jornalista Arthur Gandra, de 29 anos, é natural de São Paulo, mas mudou-se ainda na infância para a cidade de Mairiporã: “Eu costumo dizer que Mairiporã é a periferia da periferia, pois ela fica depois da periferia de São Paulo, e o acesso para vir à capital, onde tem tudo, é mais complicado, caro e distante”. 

Ele estudou a vida inteira em escolas públicas. Na adolescência, percebeu que tinha interesse em tecnologia e computação. Fez o primeiro curso e... Saiu muito frustrado. “Para minha surpresa, não era nada do que eu imaginava. O curso era chato, muito técnico e desestimulante”, afirma.

A experiência negativa fez com que ele seguisse outro rumo, o da comunicação. “Fiz faculdade de jornalismo e trabalhei muitos anos como assessor de imprensa. Eu gostava de fazer o que fazia no trabalho, mas não via um propósito naquilo.”

Eu ajudava milionários a ficarem mais milionários. Hoje, eu ensino crianças a serem cidadãos"

Arthur Gandra

Arthur Gandra, empresário

Jovens Hackers: escola ensina programação para crianças

Como funciona a aula de programação para crianças

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Janela de oportunidades

Embora sua experiência com tecnologia não tivesse sido a melhor dentro da sala de aula, Arthur Gandra sabia que o conhecimento na área era importante. Quando seu irmão e o sobrinho estavam com 7 e 6 anos, respectivamente, ele buscou uma forma de passar os conhecimentos em programação de forma mais atrativa aos garotos. Mal sabia ele que, anos mais tarde, abriria a Jovens Hackers, sua própria escola de programação para crianças da periferia da capital paulista. 

“Naquela época eu descobri os conceitos da filosofia 'maker', que defende o 'faça você mesmo', e da aprendizagem criativa: tudo o que eu queria para ensinar minhas crianças. Comecei a me envolver nisso e acabei pegando gosto. Assim surgiu a ideia de criar uma escola de programação e robótica”, explica.

Produto de um ensino totalmente subsidiado pelo dinheiro público, Arthur entendeu que, para sua realização pessoal e profissional estar completa, ele precisava criar um negócio sustentável, que não visasse apenas ao lucro.

Escolhi a periferia porque eu sou da periferia e sei o que as pessoas da periferia passam. Faltam muitas oportunidades” 

O modelo do projeto que culminou na criação do Jovens Hackers teve início em 2016, quando Arthur Gandra inscreveu-se em um edital da prefeitura que premiava iniciativas tecnológicas e foi um dos escolhidos. Na ocasião, ele recebeu R$ 27 mil e encontrou na ONG Projeto Arrastão, em Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, um espaço para começar a dar aulas. O local recebe cerca de mil pessoas por dia e realiza atividades complementares por meio de diversos projetos.

Segundo o coordenador do núcleo de empreendedorismo e inovação da ONG, Henrique Alberto Heder, a parceria com o Jovens Hackers agregou uma nova experiência às crianças. "As aulas incentivam novas habilidades, estimulam o processo de aprendizagem a partir de um leque variado de linguagens."

Eles são muito interessados e aprendem numa velocidade espantosa. Chegam a ensinar a gente"

Henrique Alberto Heder

Henrique Alberto Heder, coordenador de empreendedorismo do Projeto Arrastão

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Negócio social

Durante um ano de trabalho no Projeto Arrastão, no bairro do Campo Limpo, em São Paulo, Arthur formou 500 crianças. Ao término do trabalho na ONG, ele submeteu sua escola a um processo de aceleração de empresas chamado Anip (Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia) e foi selecionado. Agora, ele tem R$ 20 mil para investir na continuidade do trabalho, desta vez como pequeno empreendedor em áreas periféricas.

“Há uma série de desafios, mas o maior deles é convencer as famílias das crianças que desenvolver este tipo de aprendizado é algo que pode ajudá-los a mudar suas realidades”, diz o empresário.

Segundo Arthur, o curso tem o custo mensal de R$ 60 para a família. "Em uma escola tradicional o valor passa a aproximadamente R$ 300", diz. Ele também revela que cada módulo tem duração de três meses, com uma uma hora de aula por semana. 

“Num primeiro momento, as aulas têm um conteúdo mais lúdico, em que crianças de 9 a 12 anos aprendem a lógica da programação, com softwares visualmente agradáveis e temática infantil. Já o segundo módulo tem um ensino mais técnico de programação, criando códigos, principalmente para páginas web, é indicado para jovens de 13 a 17 anos", explica. 

Futuros programadores

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Peterson Pereira Bispo, 9 anos

Peterson Pereira Bispo, de 9 anos, formou-se no primeiro módulo do curso de programação em 2017. Segundo ele, o aprendizado foi grande: "Fiz o meu próprio jogo, aprendi a criar personagens, colocar ações e fazer o joguinho". Para ele, a experiência foi tão significativa que ele já começou a pensar em formas de usar a tecnologia a favor da sociedade. "Minha avó tem 74 anos e não consegue ouvir muito bem. Sonho em fazer um aplicativo que ajude ela e outras pessoas a se comunicarem", afirma. Ele ainda revela querer ser um professor quando crescer, assim como Arthur: "Me inspiro nele".

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Nykoli Priscila Duarte, 12 anos

Nykoli Priscila Duarte é outra aluna do Jovens Hackers. Aos 12 anos, ela explica que aprendeu a criar jogos e até tocar um piano por meio de dispositivos que utilizam a condução de eletricidade - tanto de frutas quanto do corpo humano - para fazer o instrumento funcionar no computador. "Você conecta as bocas de jacaré nesta placa e na fruta, depois é só tocar 'DÓ - RÉ - MI - FÁ - SOL - LÁ - SI'", ensina. Nykoli não deixa de sorrir em nenhum momento da aula. Segundo ela, a experiência é uma grande brincadeira: "O professor é divertido, ensina bem, a gente aprende muito nas aulas, é muito legal"

Aprendizagem estimulante

  • Criatividade

    Cada aula tem cerca de uma hora de duração. De acordo com Arthur Gandra, o primeiro módulo tem tudo a ver com a criatividade: "Depois que ensino como as crianças utilizam a plataforma Scratch, de desenvolvimento de jogos, eles ficam livres para criar à vontade. Podem escolher com farão seus personagens, como será a dinâmica do jogo, como ele vai fazer para que o jogador avance as diferentes fases"

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Raciocínio lógico

    Outra habilidade que o empresário revela ser desenvolvida no processo de aprendizagem é o raciocínio lógico. "Temos um dispositivo eletrônico que tem como se fosse uma boca de jacaré. Você conecta um deles numa placa e outro em qualquer objeto que conduz eletricidade, como a banana, por exemplo. Os alunos descobrem que tanto as frutas quando o corpo humano podem conduzir eletricidade e fazer um piano que está no computador funcionar", diz

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
  • Trabalho em equipe

    Por fim, Arthur ressalta que todo o processo de criação e desenvolvimento depende do trabalho em equipe: "Eles precisam um do outro para fazer o dispositivo funcionar, querem que os jogos criados por eles sejam testados pelos amigos, é tudo feito em conjunto"

    Imagem: Evelson de Freitas/BOL
Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Raio-X da programação

Arthur explica que, pelo mundo, a prática já é levada a sério nas escolas: “O Reino Unido incluiu aulas obrigatórias de programação para alunos a partir dos cinco anos de idade em toda a rede pública de ensino. Já nos EUA, Barack Obama defendeu, quando era presidente, que para o país continuar sendo uma potência, os jovens precisavam aprender a programar. 

“Não fiquem apenas jogando no celular de vocês. Escrevam programas com ele”, afirmou Obama na ocasião. 

“No Brasil não há nenhuma política pública para isso, mas há muitas escolas particulares. Todo mundo sabe que é importante, quem tem condições investe nisso. Para as crianças da periferia, a questão geográfica – as escolas ficam no centro – e os valores dos cursos são impeditivos”, comenta o empresário, que quer mudar essa realidade. 

Evelson de Freitas/BOL Evelson de Freitas/BOL

Serviço

Jovens Hackers 
Informações por meio do Facebook ou pelo email art.gandra@gmail.com

Reportagem

Texto e imagens: Bárbara Forte. Fotografia: Evelson de Freitas. Roteiro: Bárbara Forte. Edição de vídeo: Pedro Fonseca. 

Curtiu? Compartilhe.

Topo