Beleza fora do padrão

Jovens relatam dificuldades e melhora da autoestima após encontrarem representatividade plus size

Bárbara Forte Do BOL, em São Paulo
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Até os 25 anos de idade, era a mãe de Karina de Lima, hoje com 29, que comprava suas roupas. A analista de importação não se sentia à vontade quando descobria que os modelos que ela via nas vitrines, na maioria das vezes, não estavam disponíveis no tamanho que ela usava.

Ela fugia dos passeios com amigos nos finais de semana e dava desculpas para não ir à piscina em dias de churrasco com os colegas da faculdade. O mesmo acontecia com a auxiliar administrativo Deise de Sousa, também de 29 anos, que evitava a praia, tinha medo dos olhares dos banhistas e não encontrava maiôs e biquínis acessíveis e que não parecessem de senhora.

A realidade dolorosa das duas jovens mudou quando se viram diante de mulheres gordas, assim como elas, mas felizes e com roupas feitas para o tamanho delas. São blogueiras, modelos, atrizes e cantoras que usam as redes sociais para mostrar uma infinidade de possibilidades para um público marginalizado, que não costumava, até então, ter espaço em revistas de moda e na mídia em geral. 

Da água para o vinho

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Deise de Sousa Araújo

Foi aos 5 anos, bem novinha, que Deise começou a engordar. Entretanto, foi na adolescência que a auxiliar administrativo teve mais dificuldades. "Desde os 17 anos minha mãe me fazia entrar em regimes. Até que um dia, um médico me disse que eu 'nunca seria uma mulher normal'", revela. Em vez de incentivar a adolescente, na época, o especialista criou na jovem um medo ainda maior de se mostrar. "Eu só usava roupas pretas, não ia à praia, pois não tinha opção de biquínis e maiôs acessíveis para mim. Em uma única vez que eu fui, ainda nova, com um maiô da minha mãe, percebi que todo mundo ficava olhando", afirma. Deise virou a chave e começou a se aceitar há cerca de dois anos, quando descobriu o mundo plus size em uma pesquisa na internet: "Eu me deparei com a Fluvia Lacerda, uma modelo brasileira, gorda, que faz muito sucesso no exterior. Suas roupas e sua autoestima fizeram eu me olhar de outra maneira, com mais segurança e amor próprio".

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Karina de Lima dos Reis

Karina sempre se viu acima do peso. Na escola, sofria com apelidos dos colegas de classe e até das amigas mais próximas. "Quando havia uma briga ou um desentendimento, elas me xingavam de gorda, baleia", diz a analista de importação. Segundo ela, quando a mãe a chamava para comprar roupas, ela não queria ir: "Quando eu ia, via que modelos bonitos nunca chegavam ao meu número. Ela comprou minhas roupas até os 25 anos". Karina se sentia antiquada, fechada e séria com os looks que tinha disponíveis. Por conta disso, deixou de fazer muita coisa, como sair com os amigos de fim de semana e ir a churrascos com piscina nos encontros de faculdade. Só em 2014, em uma busca na internet, que Karina encontrou novas referências. Foi um mundo que se abriu para a garota: "Conheci as blogueiras e modelos, vi o que elas diziam sobre aceitação, moda, autoestima, vi dicas, descobri onde comprar roupas".

Elas são referência

Bem resolvidas com o peso, mulheres estimulam aceitação

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Débora Fernandes

Blogueira e modelo plus size, Débora Fernandes, de 30 anos, começou sua carreira como estilista de tamanhos grandes no Brás, em São Paulo. Quando a modelo de um ensaio faltou, ela subiu na passarela e percebeu que tinha talento para a coisa, embora não gostasse muito dos modelos que eram confeccionados entre os anos 2007 e 2010. "Eu tinha vergonha de falar da minha profissão", diz. Débora, então, percebeu que não havia muita informação sobre o segmento e criou, como um diário pessoal, um blog com dicas. "Em 2014, o site e tudo que ele envolve, como parcerias com marcas, tornou-se minha fonte de renda", afirma a blogueira. Além de ter encontrado uma nova profissão, Débora virou referência para as marcas divulgarem coleções e uma incentivadora para que mulheres gordas se aceitem e se amem do jeito que são. "Recebo centenas de depoimentos de seguidoras que acompanham meu trabalho e que mudaram a forma de se enxergar", explica Débora Fernandes.

Robson Leandro da Silva/Divulgação/PopPlus Robson Leandro da Silva/Divulgação/PopPlus

Flávia Durante

Jornalista e criadora da feira de moda Pop Plus, Flávia Durante engordou depois de adulta, mas nunca deixou de usar o que queria. Quando ela olhava ao redor, todavia, percebia que havia xingamento e até mau tratamento em lojas comuns. "Eu percebi que era importante falar sobre o assunto. No trabalho, sempre conversava com blogueiras, discutia sobre a quebra de padrões", relata. Flávia tinha muita dificuldade em comprar roupas, mas isso não a abalou: "Eu só conseguia encontrar roupas de grávida, senhoras ou de homens que coubessem em mim. Mas eu não era nada disso. Então, não fiquei quieta, e transformei a raiva em ação". A jornalista começou fazendo pequenos bazares para ganhar um dinheiro extra e, com o tempo, criou o Pop Plus, um evento que reúne o mercado autoral plus size, muitas vezes encontrado apenas na internet. "Comecei com seis marcas e 120 visitantes. Hoje, são 67 marcas e mais de dez mil visitantes por feira", conta Flávia Durante.

Eu me libertei, hoje não tenho problemas em comprar roupa"

Karina de Lima

Karina de Lima, 29 anos

Com as blogueiras, aprendi que a gente tem que se amar por dentro e por fora"

Deise de Sousa

Deise de Sousa, 29 anos

Meu objetivo é fazer com que as meninas não tenham medo, que elas se sintam mais confiantes e seguras"

Débora Fernandes

Débora Fernandes, blogueira e modelo plus size

Moda e autoconhecimento

A terapeuta transpessoal Theresa Rachel explica que a figura materna é a primeira referência que a mulher tem de moda: "São valores que ficam enraizados". A também consultora de imagem revela, porém, que é preciso fazer um levantamento do que serve e do que não serve da bagagem familiar. "É chegada a hora de separar as crenças familiares da personalidade do indivíduo", diz.

Karina e Deise, quando encontraram blogueiras e modelos que as representavam, deixaram de lado a representação de suas mães e começaram a buscar uma moda que tinha a ver com a personalidade e até com a idade delas. "Hoje eu vou direto nas lojas, encontro uma gama de opções", diz Karina.

De acordo com Theresa Rachel, que realiza um trabalho de terapia de guarda-roupa, a imagem pessoal criada por meio da vestimenta é muito mais do que uma "casca"; trata-se de autoconhecimento. "A gente deve usar a roupa como ferramenta para perder medos, para nos aceitar, é saudável", recomenda a especialista. 

Foco na autoestima! Veja dicas para não desanimar

  • Você não está sozinha

    Para a jornalista Flávia Durante, os eventos de moda que reúnem apenas fornecedores plus size são um ponto de encontro importante para que as mulheres gordas percebam que não estão sozinhas. Conhecidas ou não, todas têm ou já tiveram alguma insegurança com o corpo. A terapeuta transpessoal Theresa Raquel lembra que a identificação é muito importante para a autoestima elevada: "O indivíduo precisa se sentir pertencido".

  • Esqueça a opinião dos outros

    A blogueira Débora Fernandes lembra que um passo importante para se aceitar é esquecer a opinião alheia. "Não tenha medo do que os outros vão falar. Tenha certeza de que você está se sentindo bem com você mesma", aconselha. A terapeuta Theresa Rachel reitera esta informação: "É preciso, aos poucos, diminuir esse pensamento e encontrar segurança em saber quem elas realmente são".

  • Busque apoio familiar

    Embora a sociedade imponha padrões e pressões muito grandes, a família pode ser um ótimo apoio para caminhar em busca da aceitação. A analista de importação Karina de Lima exalta a importância de ser elogiada. "A família precisa dizer que a menina é linda do jeito que ela é, precisa enaltecer seus pontos positivos."

  • Lembre-se: você é única

    Karina de Lima, que se inspirou em blogueiras e modelos plus size para mudar de vida, pensa em como gostaria de ter sido tratada quando enfrentou dificuldades. "Gostaria de ouvir: não se preocupe, você é única, o mais importante está na alma", desabafa. "É preciso olhar a mulher como um todo. Ela deve ser a protagonista do guarda-roupa e da vida dela", ressalta a terapeuta Theresa Rachel sobre a importância de se sentir protagonista.

  • Use a moda ao seu favor

    Para Flávia Durante, o crescimento do setor de moda para tamanhos grandes é uma ferramenta importante para que as mulheres se sintam à vontade com seus corpos. "A moda é identidade cultural, de expressão. Isso foi tolhido das mulheres gordas por muitas décadas. Hoje, ela ajuda a nos fortalecer", diz.

Robson Leandro da Silva/Divulgação/PopPlus Robson Leandro da Silva/Divulgação/PopPlus

Moda plus size inclusiva e acessível

Alexandre Herchcovitch lançou, neste mês, sua primeira coleção plus size. Através da marca Elegance All Curves, o renomado estilista brasileiro mostrou que a moda deve ser inclusiva. Entre especialistas do mundo plus size, a notícia foi comemorada. "As pessoas da moda não costumam reconhecer o plus size como um segmento potencial, há muito preconceito. Ter um dos principais nomes da moda do país abraçando um convite para criar para esse público é uma grande visibilidade. Ele deu a notoriedade que a gente nunca teve", comenta a blogueira e modelo plus size Débora Fernandes.

Embora o estilista tenha mostrado um caminho de possibilidades, a blogueira Flávia Durante revela que a trajetória da moda plus size evoluiu muito nos últimos anos, apesar das dificuldades: "Há uns dois ou três anos, a moda plus size começou a ficar mais alinhada à moda convencional, mas com marcas autorais, independentes, pequenas".

A também jornalista explica que ainda há muitos desafios. "As grandes redes são deficitárias, vende-se muito pela internet, apenas, e não é acessível à grande população", diz.

Segundo a terapeuta transpessoal Theresa Rachel, essa é uma cena real nos shoppings. "Eu sinto que a gente vem de um padrão de perfeição em que o físico é muito valorizado. Há muita dificuldade em encontrar, apesar do crescimento do mercado."

Débora Fernandes exalta o papel da mulher para que o mercado se adapte às necessidades das mulheres curvilíneas. "Temos a responsabilidade de nos conhecer melhor e exigir do mercado qualidade", afirma. Theresa Rachel complementa: "Vejo que o mercado está se abrindo. É muito importante no processo de inclusão".

Por fim, Flávia Durante reitera a importância de eventos destinados ao público plus size. "A gente quer quebrar todos os padrões, desmitificar estigmas. Nós queremos que todas sejam respeitadas. Todas."

Mais blogueiras

  • Ju Romano

    Uma das mais famosas blogueiras do setor, ela arrasta mais de 190 mil seguidores e já até saiu na Playboy

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  • Isabella Trad

    A Beeeells, como é conhecida, mostra que mulheres gordas gostam, sim, de praticar todo o tipo de esporte

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  • Dani Rudz

    Para quem acha que blogueira plus size veste 44, é porque ainda não conheceu a Dani Rudz. Em seu blog, ela mostra que é possível ser fashion no manequim 54

    Imagem: Reprodução/Instagram
  • Carla Galrão

    Se engana quem pensa que toda referência está no eixo Rio-São Paulo. Carla Galrão é de Salvador (BA) e apresenta opções por lá através do "Gordaroupa"

    Imagem: Reprodução/Instagram

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