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Caracas tenta a normalidade

Metrô grátis, fila e falta d'água: sem a fome que castiga o interior, na capital a crise se vê nos detalhes

Natália Scarabotto Colaboração para o UOL em Caracas
Marco Bello/Reuters

Se você for para Caracas, não verá crise"

Essa é a frase repetida pelos venezuelanos em Roraima, que tentam escapar da fome que assola o país vizinho. Mas não é bem assim. Apesar de tentar manter a normalidade, a cidade mais rica da Venezuela não escapa das dificuldades que assolam o país - embora em menor intensidade do que o interior.

À primeira vista, Caracas não parece diferente das grandes cidades brasileiras: muitos carros na rua, multidões em todos os lados, recomendações para lidar com a violência local e uma capital tomada por contrastes sociais, com favelas que se veem ao longe.

Não fossem os outdoors comerciais espalhados pelas avenidas com propagandas de cerveja, roupas e chocolates, e o nacionalismo reforçado pelas dezenas de pinturas de Nicolás Maduro pelos muros da cidade, Caracas tem ares de São Paulo.

Federico Parra/AFP Federico Parra/AFP
Karla Calderón Karla Calderón

Com o decorrer dos dias, no entanto, as diferenças entre as capitais se fazem mais evidentes. Hospedei-me em um bom hotel em Altamira, bairro de classe alta, próximo à estação de metrô com o mesmo nome.

Na primeira semana, eu parecia ser a única hóspede. Não via outros visitantes no restaurante durante o café da manhã, nos elevadores ou nas demais áreas comuns. Pelo lado de fora, notava que as varandas dos quartos estavam sempre fechadas e as luzes apagadas.

Apesar de rica, Altamira também tem filas -- menores, é verdade, do que na região central. Às 7h da manhã, os moradores se enfileiram para comprar pão. Chegam o mais cedo que podem para garantir o menor preço, por 3 bolívares soberanos a unidade (R$ 0,20, segundo a conversão do Banco Central brasileiro). Quem não consegue, acaba comprando os mais caros --pães doces e mais incrementados - que custam 8 bolívares soberanos cada (R$ 0,54).

Na época da visita da reportagem à cidade, o país utilizava como moeda os bolívares fortes. Os valores foram convertidos para a nova moeda, o bolívar soberano, em vigor desde o fim de agosto

Muitos restaurantes estão fechados. Os que ainda continuam funcionando dificilmente ficam cheios. Nem todos os pratos do cardápio estão disponíveis. Receitas com peixe, por exemplo, estão em falta por conta do alto custo do ingrediente. 

O mesmo acontece nas farmácias, mercearias ou demais comércios. Quase todos os produtos estão em falta. O que ainda está disponível para venda custa caro e poucos caraquenhos conseguem pagar, seja suco, biscoitos ou uma simples pastilha de remédio para dor de cabeça.

Leite, por exemplo, não pude comprar. Procurei durante toda a primeira semana que estive na cidade, não encontrei e acabei desistindo. Quem tem sorte paga de 70 a 100 bolívares soberanos por um litro de leite (R$ 4,70 a R$ 6,70). Com a margarina aconteceu o mesmo: estava em falta. O produto só retornou às prateleiras já no fim da minha viagem, custando pouco mais de 30 bolívares soberanos (R$ 2) .

Marco Bello /Reuters Marco Bello /Reuters

Outra característica da capital venezuelana em meio à crise são as tentativas dos habitantes de conseguir qualquer trocado.

Quem manteve o emprego ganha pouco. Outros garimpam o esgoto da cidade em busca de ouro e prata. E qualquer um que chegue ao país do exterior é visto como possível fonte de renda.

No aeroporto internacional Simón Bolívar são oferecidos telefonemas para os estrangeiros o tempo todo. Para usar um dos celulares antigos, daqueles ainda com teclado numérico, os venezuelanos cobram US$ 1 (61 bolívares soberanos ou R$ 4,10).

O estrangeiro que quiser conhecer o alto da montanha El Ávila e ver toda a cidade do alto precisa pagar pelo passeio em moeda americana. O teleférico é um ponto turístico obrigatório para quem visita Caracas. Para os estrangeiros, a entrada custa US$ 20 (1.230 bolívares soberanos ou R$ 82), enquanto para um venezuelano o mesmo passeio sai por US$ 0,19 (12 bolívares soberanos).

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Entenda a conversão

61 Bolívares soberanos

É a conversão oficial do Banco Central Venezuelano para US$ 1

90 Bolívares soberanos

É o valor aproximado de US$ 1 (R$ 4,15) na conversão do mercado negro

1 Bolívar soberano

Equivale a US$ 0,016256 ou a R$ 0,07, segundo o Banco Central do Brasil

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Filas por todos os lugares

Sob o sol quente de quase 30 graus que incide sobre Caracas, Rosa (nome fictício) finalmente encontra uma fresta de sombra para se proteger. Há mais de uma hora, a aposentada de 60 anos está de pé em uma longa fila para comprar frutas e verduras em frente ao Mercado de Quinta Crespo, próximo ao centro da capital venezuelana. À sua frente, 20 pessoas esperam pela mesma chance. Pelo ritmo lento e compassado que anda a fila, Rosa ainda levará mais um bom tempo para conseguir comprar abacate, tomate e manga. "É uma situação muito difícil, mas é o único jeito", diz ela.

Essa não é a primeira fila que Rosa enfrenta no dia. Também ficou horas esperando na padaria, no ônibus e no caixa eletrônico. A agitação habitual de Caracas vai sendo tomada pelo marasmo conformado por multidões fazendo filas em cada esquina.

Até o ano passado, Rosa fazia compras em qualquer supermercado da cidade, em qualquer dia e horário, mas agora a feira é o local onde consegue comprar mais produtos com o que recebe pela aposentadoria. E além de dinheiro, precisa de paciência.

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A hiperinflação de 32.714% ao ano fez o papel-moeda praticamente desaparecer. Os saques diários nos caixas eletrônicos foram limitados, o que gera enormes filas nos bancos da cidade.

"Vou todos os dias ao caixa eletrônico e espero duas horas para tirar parte da minha pensão. Sacando o dinheiro de pouquinho em pouquinho, consigo o suficiente para comprar o que preciso", conta Rosa.

Muitos comerciantes cobram taxas para vendas em cartão ou por transferência bancária. No Mercado de Quinta Crespo, o quilo de tomate, por exemplo, custa 8 bolívares soberanos em dinheiro (R$ 0,54) e 13 bolívares soberanos (R$ 0,87) no cartão.

Em outro canto da cidade, cidadãos esperam duas horas e meia para comprar arroz e feijão em um estabelecimento comercial. Ali, um quilo de arroz custa 12 bolívares soberanos (R$ 0,80) e um pacote de farinha estava por 90 bolívares soberanos (R$ 6), em julho deste ano. Mesmo com a iniciativa do governo, o salário mínimo da época (que, na mudança da moeda, passou a ser de 51,96 bolívares soberanos --ou R$ 3,50) era insuficiente para muitas famílias se alimentarem bem, o que agravou a fome. No último mês, o presidente Nicolás Maduro aumentou o salário mínimo para 1.800 bolívares soberanos (R$ 120).

Em Altamira, também a partir das 7h da manhã, as pessoas começam a chegar ao Banco Nacional Venezuelano. Além das compras na feira, o dinheiro em espécie é necessário para pagar passagens de ônibus. O limite de saque diário é suficiente para pagar em torno de duas passagens.

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Como circular por Caracas?

Os problemas de mobilidade urbana de Caracas não são novidade para os brasileiros: o trânsito é caótico e o transporte público é lotado. Os pontos de ônibus têm longas filas de gente esperando para entrar em um dos veículos. Muitos viajam em pé, espremidos. 

As condições do transporte tampouco são boas: muitos assentos estão quebrados, janelas e portas depredadas e não há ar condicionado. É assim que Luiz Escalona, 63, viaja três vezes por semana. Administrador de empresas, precisa se deslocar de La Guaira até Baruta utilizando transporte público, uma viagem de 45 km e que dura mais de seis horas. Para fazer o trajeto utiliza ônibus, metrô e caminhonetes de carga.

Dependendo da distância que percorre o ônibus, o valor da passagem varia entre 0,15 a 0,30 bolívares soberanos (R$ 0,01 a R$ 0,02). Os passageiros da terceira idade, como a pensionista Luiza Hernandez, de 64 anos, pagam metade do valor, o que nem sempre acontece. "Só deixam 5 pessoas pagar meia e a fila está sempre muito grande. Preciso pagar o valor completo", lamenta.

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As caminhonetes começaram a surgir este ano, como alternativa mais barata para os passageiros. Conhecidas como "Las Perreras" são pequenos veículos de carga usados para transportar pessoas. O nome, "canis" em português, faz referência às condições dos veículos: o embarque é feito pela porta traseira, os passageiros sobem na caçamba e se acomodam como podem. Viajam sentados no chão ou de pé, encostados nas aberturas quadradas que servem como janelas. O meio de transporte custa metade do preço do ônibus.

O colapso do transporte público também fez com que o governo de Nicolás Maduro liberasse as catracas de metrô para a população. Desde maio até pelo menos o início de setembro, os caraquenhos não precisam pagar passagem – e nem poderiam, já que a gratuidade é também uma consequência da falta de papel para imprimir as passagens

Com toda a situação de Caracas, Luiza desacredita que o transporte ou qualquer outro serviço básico possa melhorar. "Não sabemos o que vai acontecer daqui para frente. Só podemos rezar e deixar nas mãos de Deus", diz.

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A falta de água na capital

Enquanto Rosa está na fila para comprar verduras, e Luiz está no ponto de ônibus, Pedro Hernandez, 65, espera há duas horas para encher seus galões com água potável em El Ávila. O local onde se tornou uma opção para os venezuelanos que enfrentam o desabastecimento.

Com seus três galões de 20 litros, o morador de Petare percorre nove quilômetros a cada quatro dias para conseguir água. "Onde moro ficamos quatro dias da semana sem água. Comprar no mercado sairia muito caro, então, venho até aqui buscar para podermos tomar e preparar comida. Essa água é 100% pura", explica Pedro. Para outras atividades como dar a descarga e tomar banho, ele e sua família utilizam água da chuva, coletada em tambores de 50 litros.

A Venezuela possui um grande reservatório hídrico, que inclui o Rio Orinoco, um dos maiores da América. O que não deveria ser uma preocupação para os venezuelanos pela abundância se tornou mais um dos problemas da crise. Há dois anos, começou a ficar mais evidente a falta de investimento e modernização da estatal Hidrocapital, responsável pela distribuição local. O desabastecimento já atinge diversos estados do país, incluindo a capital, que se encontra a 900 metros acima do mar. O problema começou com cortes de água durante certos períodos. Agora dura dias, às vezes semanas.

Karla Calderón Karla Calderón

A falta d'água é um dos principais motivos que levam os caraquenhos a protestar nas ruas da cidade. A lista de demandas dos locais também inclui aumento dos salários e melhoria nos serviços públicos - como o transporte e a saúde.

Os protestos, ao lado das filas, se incorporaram à paisagem de Caracas.

De acordo com o Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais, o Distrito Capital, onde está Caracas, registrou 542 protestos no último ano.

Com pouco dinheiro e emprego e condenados às filas, também chamam a atenção a vontade e a disposição dos caraquenhos em contar suas histórias. Além de relatar ao mundo o que está acontecendo, essa parece ser uma maneira de passar o tempo enquanto esperam a sua vez de comprar o pão.

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