Educar para mudar o mundo

Ex-merendeira que virou educadora se orgulha de nunca ter perdido aluno para o tráfico no Rio

Texto: Anderson Baltar Edição: Bárbara Forte
do BOL
Diego Mendes/BOL

Com uma trajetória de 30 anos na educação, Sueli Gaspar começou como merendeira, tornou-se professora, diretora e depois gestora de programas educacionais para ajudar a mudar a educação no Rio de Janeiro.

Trabalhando em uma das regiões de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais baixos da capital fluminense, ela conseguiu feitos impressionantes, conduzindo escolas ao topo dos rankings de avaliação. Com o estilo "mãezona", é quase sempre doce, porém enérgica quando necessário. Como diretora, praticamente zerou os números de evasão em áreas conflagradas. Há quatro anos ocupa o cargo de gestora do Programa Escolas do Amanhã, da Prefeitura do Rio, cuidando de 155 escolas em regiões de risco.

Sempre digo para as minhas professoras: nossa missão é tirar as ovelhas da boca do lobo"

"Eu não perco criança pro tráfico"

A professora que contrariou as estatísticas e quer mudar o mundo

Para acabar com o analfabetismo, é preciso três coisas: acreditar no aluno, acreditar no aluno e acreditar no aluno"

Sueli Gaspar

Sueli Gaspar, educadora

Batalhadora desde a infância

De merendeira...

Sueli nasceu em Sepetiba, na zona oeste do Rio de Janeiro, e era a filha mais velha de um casal de pouca escolaridade. O pai, pintor de paredes e taxista, estudou até a terceira série. A mãe foi babá e lavadeira e nunca estudou. "Era aquela menina que todas as estatísticas apontam como a que larga a escola primeiro: a mais velha e a que precisava tomar conta dos irmãos. Além disso, era muito pobre e me casei aos 14 anos", conta Sueli. Apesar do casamento precoce, Sueli resistiu e só abandonou a escola três anos depois, quando tornou-se mãe, aos 17. O afastamento dos estudos durou pouco. "Nunca quis parar de estudar. Soube que existia um curso feito na base das apostilas, em que a gente estudava em casa e depois fazia a prova. Assim, consegui completar o primeiro grau. Logo depois, fiz o concurso para merendeira e fui aprovada", relata a professora.

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...a professora

Finalmente funcionária pública, Sueli passou a encarar o desafio de milhares de moradores da longínqua e esquecida Zona Oeste carioca. Todos os dias, acordava às 3h30 para pegar dois trens e chegar à escola onde trabalhava como merendeira, na Praça da Bandeira, Zona Norte do Rio. Com o tempo, Sueli conseguiu se transferir para uma escola próxima à sua casa e deu sequência aos estudos. Como trabalhava no período da tarde, fez o curso Normal - equivalente ao ensino médio, mas específico para formação de professoras de nível básico - pelas manhãs. Mais tarde, ela passou no concurso para o magistério municipal e continuou o crescimento profissional. De professora, tornou-se coordenadora pedagógica e, depois, diretora. Nesse meio tempo, ainda formou-se em Letras pela Universidade Estácio de Sá.

O esforço que tive para estudar, quis projetar para todas as crianças que passaram em minha vida. Tenho muita vontade de mudar o mundo, de realizar o sonho das pessoas. Ao longo de minha vida, tive a certeza de que o caminho é a escola. Sou apaixonada pela educação"

Sueli Gaspar

Sueli Gaspar, educadora

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Educação precisa de referências locais

Ao assumir a direção do Ciep (Centro Integrado de Educação Pública) 1º de Maio, em 2002, onde ficou por quase 10 anos, Sueli Gaspar viu-se diante do maior desafio de sua vida: a possibilidade de oferecer a esperança de um futuro melhor para as crianças das comunidades do Rola e Antares. Um dos primeiros atos de Sueli como diretora foi fazer uma reunião de professores, alunos e as famílias.

"Pegamos todas as carteiras da escola e botamos no pátio. Chamamos todas as famílias juntamente com os alunos. Eles precisavam ouvir histórias que os motivassem a estudar. E quais foram as referências? Nós mesmos. Dos 26 professores da escola, 23 eram oriundos da escola pública e todos com histórias de superação para contar. Pensamos: por que não contarmos nossas trajetórias para eles e mostrar que o estudo era a porta para uma vida melhor?", relata a educadora.

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Estímulo que deu certo

Em busca de mais motivação para os alunos, Sueli também promoveu um rodízio de turmas e professores. "Se um professor de ensino fundamental gostava mais de ensinar matemática, ele lecionaria para outras turmas e deixaria o de português cuidar de seus alunos. Isso motivava as crianças e também os mestres", explica. Segundo Sueli, o segredo de uma boa escola é ser surpreendente para os alunos.

Digo que a escola tem que ser boa todo dia. Mas, às vezes, tem que ser sensacional"

Cinco dicas para ser um professor que inspira

"Eu parto do princípio de que todo aluno aprende"

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O desafio em meio ao perigo

Nos 10 anos em que dirigiu o Ciep 1º de Maio, em Santa Cruz, Sueli conseguiu feitos extraordinários. Encravado entre as favelas do Rola e Antares, o colégio vivia momentos delicados quando da chegada de Sueli à direção. Além dos índices altos de evasão escolar e repetência, a escola convivia com mais de 20 furtos anuais e com notas baixíssimas nas avaliações promovidas pelo Governo Federal. 

Cinco anos após a chegada de Sueli, os números eram outros: nenhuma ocorrência de furto, evasão zero e a nota do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) subiu de 4,2 para 8,8, fazendo a escola ser a melhor da cidade entre as instituições públicas. E com mais um detalhe que enche a professora de orgulho: "Não perdi nenhum aluno para o tráfico".

"Nunca tive qualquer aborrecimento. Ao contrário. Um pai de aluno, certa vez, me ligou do presídio Bangu 1, onde cumpria pena, e disse que eu poderia tomar qualquer atitude que achasse necessária com seu filho, que ele me daria apoio. Segundo ele, eu era a esperança para que seu filho não seguisse o mesmo caminho que ele", conta.

Sempre disse que não podemos nos ajustar ao meio e, sim, ajudar o mesmo a ser melhor"

Sueli Gaspar

Sueli Gaspar, educadora

Sueli Gaspar cita 4 fatores essenciais para mudar a educação

  • Todo aluno aprende

    "Não existe aluno que não aprende. Cada um tem o seu ritmo e o professor tem que ter essa sensibilidade para ajudar cada estudante."

  • Empoderamento do professor

    "Eu empodero meus professores, pego pelo braço e faço que ele acredite que é possível. E o professor tem que fazer o mesmo com o aluno."

  • Detector de talentos

    "O professor é um descobridor de talentos. Ele olha para o aluno e tem que perceber todas as suas potencialidades. Às vezes, o aluno não escreve bem, mas é ótimo observador."

  • Investimento em educação

    "Tem que investir. A escola pública tem todas as condições de ser a melhor do Brasil. Precisamos nos preparar para que ela cada vez esteja mais à altura dos alunos."

Texto: Anderson Baltar. Edição e roteiro: Bárbara Forte. Fotos: Diego Mendes. Imagens em vídeo: Taís Vilela. Edição de vídeo: Paulo Castro.

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